POLÍTICA

Lula esquece Haddad e paparica Boulos: sigam os sinais

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No instante em que o PT e a esquerda precisam se reencontrar com o povo, Lula prestigia aquele que conta com uma massa de seguidores – nada mais óbvio

Lula esquece Haddad e paparica Boulos: sigam os sinais
Onde está Haddad? Sim, às vezes, uma imagem vale por mil palavras (Foto: Divulgação/Página Oficial do PT/Facebook)

Passei o fim de semana corrigindo provas e trabalhos dos alunos da faculdade em que leciono, dividindo os olhos no computador e os ouvidos na GloboNews, a fim de acompanhar os últimos passos, em liberdade, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais preocupados em transformar a prisão de Lula em um grande circo, os jornalistas deixaram passar importantes dicas de quem o ex-sindicalista e condenado pela Lava Jato enxerga como seu legítimo sucessor. Bastava parar de narrar as derradeiras horas de Lula como uma partida de futebol (ou um massacre de cristãos no Coliseu da Roma Antiga) e ver o que se passava sobre o caminhão em que se aboletavam a cúpula das esquerdas brasileiras.

Lula iniciou seu discurso cumprimentando longamente seus aliados. Até aí, tudo bem. Faz parte do show. Mas o tempo gasto com cada um foi significativo. Basicamente, o ex-presidente concentrou seus paparicos a líderes de massa: sindicalistas, sem-terra e sem-teto. Passou um bom tempo elogiando os dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Não se tratou apenas de sentimentalismo de quem, à beira da morte política, vê toda sua trajetória passar diante de seus olhos num flash. Mesmo ferido de morte pela proximidade umbilical com o PT e, sobretudo, pelo fim do imposto sindical obrigatório, o sindicato dos metalúrgicos ainda é um dos mais poderosos e organizados do Brasil. Ao seu comando, fábricas podem parar e ruas podem se encher de manifestantes contra ou a favor de uma causa. É verdade que está longe de seus bons tempos, mas ainda é possível levar uma quantidade suficiente de gente para aparecer na foto e construir a tão desejada narrativa do “golpe”.

Para bom entendedor...

Mas o que mais chama a atenção é a diferença de tratamento de Lula, em relação a Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, coordenador de sua campanha para presidente e apontado como o plano B do PT, agora que Lula está preso, e Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL ao Planalto e principal líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Ao cumprimentar Boulos, Lula procurou mostrar o paralelo entre sua trajetória política e a dele. Lembrando que Boulos “está iniciando sua jornada” como candidato à presidência pelo PSOL (portanto, um partido que disputará a hegemonia da esquerda com o PT de Lula), o ex-presidente faz uma ressalva: Boulos “é um companheiro da mais alta qualidade que vocês têm de levar em conta a seriedade desse menino.” Em meio a aplausos dos militantes, o ex-presidente continuou dizendo que, assim como Boulos, hoje com 35 anos, ele despontou na vida pública aos 33 anos com as greves do ABC. “Você tem futuro, meu irmão, é só não desistir nunca”, arrematou Lula, enquanto recebia um beijo carinhoso na testa de Boulos.

Em seguida, Lula cumprimentou Manoela D’Ávila, a pré-candidata do PCdoB à presidência. Chamando-a de “moça bonita”, usou-a como exemplo da desejada renovação política do Brasil por meio da entrada, em cena, dos mais jovens. Sintomaticamente, sequer citou seu nome no cumprimento. Depois, gastou alguns minutos com Dilma Rousseff e, somente após, cumprimentou Fernando Haddad. A saudação, porém, não poderia ser mais protocolar. Referiu-se a ele como aquele que “viveu provavelmente o melhor período de investimento na educação nesse país.” E que mais? Que mais? Mais... nada... só isso. Nem 30 segundos gastos com o ex-prefeito. Aliás, nem uma palavrinha sobre sua passagem pelo comando da maior cidade do país e, portanto, de seu maior colégio eleitoral. Nem um elogiozinho sobre seu desempenho como alcaide...

O intelectual e o líder de massas

Sinceramente, não se pode dizer que foi um lapso de Lula, diante da pressão e da emoção do momento. O ex-presidente é um dos maiores comunicadores do cenário político atual. Com seu jeitão descontraído e suas metáforas futebolísticas, sabe, como ninguém, traduzir ideias para seu público-alvo. Com a experiência acumulada de 40 anos de comícios, palanques, atos públicos, programas políticos e debates, não se espera que Lula tenha apenas se esquecido de ser mais caloroso com aquele que é apontado, por petistas e não-petistas, como seu sucessor na corrida presidencial. A própria linguagem corporal de Lula, Boulos e Haddad mostra a diferença de tratamento. Boulos passou todo o discurso ao lado de Lula, em primeiro plano no carro de som. Haddad estava atrás de Dilma e de uma fileira de petistas. Foi para a frente do palco apenas para saudar os manifestantes e receber o breve cumprimento de Lula, e retornou rapidamente para trás de Dilma – até sair de cena.

Quando se trata de raposas políticas como Lula, nada é por acaso. Se há algo que todos – aliados e opositores concordam – é que o ex-presidente tem um instinto político aguçadíssimo. No instante em que o PT e a esquerda precisam se refundar, reencontrando as massas que abandonaram ao chegar ao poder, trocadas pelos cafunés e mimos “das elites” que os petistas tanto adoram malhar, Lula busca prestigiar aquele que tem uma massa de seguidores: Boulos. Haddad, professor universitário, por mais bem-intencionado que seja e bem recebido por uma camada da classe média, não é capaz de mobilizar tanta gente. Basta ver que perdeu a reeleição para a prefeitura paulistana para o tucano João Doria (que já a deixou, aliás) já no primeiro turno. O petista terminou com 17% dos votos válidos, contra os 53% de Doria.

Para Lula, o importante agora é reencontrar o povo nas grandes áreas urbanas do Sul e Sudeste, já que, no Nordeste, ainda segue firme. Se Boulos é quem as apresentará ao petista, nada melhor do que ser prático. Afinal, todo político tem de ir aonde o eleitor está.