POLÍTICA

Lula seria o novo Perón: preso, anistiado e eleito?

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Vencer a eleição de outubro com um nome indicado por Lula; anistiá-lo e convocar novas eleições. Eis o roteiro defendido por parte do PT

Volta por cima: como o PT convenceria o povo de eleger dois presidentes em menos de um ano? (Foto Paulo Pinto/FotosPublicas)
Volta por cima: como o PT convenceria o povo de eleger dois presidentes em menos de um ano? (Foto Paulo Pinto/FotosPublicas)

Parte do PT acalenta um plano tão mirabolante, quanto improvável, para garantir o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República. De acordo com reportagem publicada pela Carta Capital nesta segunda-feira (30), a ideia é repetir a operação que, em 1973, garantiu a reeleição, na Argentina, de Juan Domingo Perón com 62% dos votos. Há, porém, alguns desafios para que Lula repita, com êxito, os passos do argentino. O maior deles é convencer os brasileiros de que é, efetivamente, vítima de um golpe das elites, devido à sua luta incondicional pelos mais pobres. Afinal, como o próprio Karl Marx nos lembra, a história sempre acontece duas vezes: a primeira, como tragédia; a segunda, como farsa.

Na versão original, um golpe de Estado tirou Perón do poder em 1955. Exilado, passou por diversos países da América do Sul, Central e da Europa. Em novembro de 1972, Perón conseguiu voltar à Argentina, com a condição de que não disputasse as eleições do ano seguinte. Ele lançou, então, Héctor José Cámpora para a presidência com um slogan poderoso: “Cámpora no governo, Perón no poder”. Foi o suficiente para eleger seu afiliado político com 49,5% dos votos. Em sua curta presidência, entre maio e julho de 1973, Cámpora anistiou Perón, convocou novas eleições e renunciou, abrindo caminho para a candidatura de seu mentor. Perón foi eleito, em seguida, com 62% dos votos.

Parte do PT vê um paralelo perfeito entre as trajetórias de Perón e Lula. Ambos são apresentados como defensores incondicionais dos mais pobres. Ambos seriam vítimas da hostilidade das elites. Ambos teriam enfrentado golpes que os impediram de continuar suas políticas de inclusão social. Ambos contariam com a força do povo para voltar ao poder. Com pouco mais de 30% de intenções de voto, nas últimas pesquisas antes de ser preso para iniciar sua pena de 12 anos e um mês por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, Lula reuniria todas as condições para recobrar a liberdade e dar o troco, retornando ao Palácio do Planalto ungido pelo voto popular.

Sonho meu... sonho meu...

Entre o sonho (ou fantasia) petista e a dura realidade, há uma distância intergaláctica. O primeiro e mais básico desafio é encontrar um candidato capaz de vencer a eleição. Lula e o PT insistirão até o limite na tese de que não existe um “plano B”. A teimosia apenas atrapalha a construção de uma candidatura alternativa e competitiva. Em contrapartida, segundo a Carta Capital, o PT conta com a transferência de votos do eleitorado mais fiel para o indicado de Lula. Os cálculos da legenda apontam que 20% dos eleitores do ex-presidente votarão, sem hesitar, em quem for apontado por ele. Os dirigentes argumentam que, numa eleição tão confusa e fragmentada quanto a de outubro, será o suficiente para colocar o afiliado no segundo turno.

Mas, aí, entra o segundo desafio: vencer a etapa final do pleito. Para tanto, o PT não poderá pregar apenas para convertidos e fanáticos. Terá de convencer mais da metade dos brasileiros de que merece seu voto. Mas, como, se houver algo parecido com “Fulano no governo, Lula no poder?” Neste ponto, não se sabe se o apoio de Lula ajudará mais do que atrapalhará, dada a elevada taxa de rejeição de seu nome. Pior ainda, se o eleitorado suspeitar que o nome petista não passar apenas de uma versão tupiniquim de Héctor Cámpora, com o único objetivo de anistiar Lula e lhe abrir caminho para a presidência. Será ainda mais dramático, se o candidato mentir, jurando por tudo o que for sagrado, que cumprirá o mandato até o fim e que Lula ficou no passado. Estelionato eleitoral, neste caso, seria uma expressão amena demais para o que se diria. E, se há algo de que, com certeza, o Brasil se cansou é de mentiras.