POLíTICA

Marcelo Bretas e Cristiane Brasil: para que a lei, quando se tem amigos?

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Não é a lei que sustenta o auxílio-moradia de Bretas, nem a indicação da filha de Roberto Jefferson ao ministério (muito pelo contrário)

Marcelo Bretas e Cristiane Brasil: para que a lei, quando se tem amigos?

"Tamo junto": expressão deveria estar na bandeira nacional (Foto: Fernando Frazão/Ag. Brasil)

Poucos dias atrás, ninguém imaginaria comparar o juiz Marcelo Bretas com a deputada federal Cristiane Brasil, a não ser para contrastar a retidão moral do primeiro com as derrapadas da segunda. De um lado, estaria aquele que ficou conhecido como o “Sergio Moro do Rio”, dado o rigor com que conduz o braço fluminense da Lava Jato, a ponto de comprar pesadas brigas com o ministro Gilmar Mendes, do STF. De outro, a filha de Roberto Jefferson, indicada pelo pai para o Ministério do Trabalho e cuja posse está travada na Justiça, após a revelação de que Cristiane Brasil sofreu processos... trabalhistas. Mas, nada como o tempo para mostrar que o Brasil é mesmo a cova rasa da moralidade pública. Nos últimos dias, Marcelo Bretas conseguiu implodir a imagem de bastião da lei, enquanto Cristiane protagonizou um vídeo para lá de constrangedor sobre o que pensa de quem luta por seus direitos na Justiça. Em comum, ambos provaram, mais uma vez, que, neste país, a lei vale apenas para os outros.

Apenas para recapitular rapidamente. Há três dias, a Folha de S.Paulo revelou que Bretas recorreu à Justiça para garantir o recebimento de auxílio-moradia para si e para sua esposa, também juíza, mesmo que isso seja proibido por lei. Num revelador acesso de sinceridade, o magistrado defendeu-se com uma tremenda e malcriada ironia em sua conta no Twitter (agora desativada). Disse que tinha o “estranho hábito” de recorrer à Justiça para defender os seus direitos, em vez de “ficar chorando num canto ou pegar escondido à força.” No fundo, Bretas quis a) dizer que lutar por seus direitos deveria ser uma regra, e não uma exceção no país; b) mandar uma indireta para quem desvia recursos públicos. Na prática, tudo o que conseguiu foi passar vergonha em público. A lei proíbe expressamente o acúmulo de auxílio-moradia por casais e só o corporativismo judicial sustenta essa farra com o dinheiro do contribuinte.

“Todo mundo tem”

Já Cristiane apareceu num vídeo em que defende, mais uma vez, sua posse como ministra do Trabalho, a despeito da condenação que sofreu. Esqueça os detalhes que fizeram a festa dos moralistas de plantão: o fato de ela estar num barco, supostamente em trajes de banho e rodeada de marmanjos um tanto embriagados e sem camisa. Foque no que interessa: a) ela jura que não tinha ideia de que estava ferindo alguma lei trabalhista ao não assinar a carteira de seus motoristas e submetê-los a jornadas extenuantes; b) ela encara naturalmente que sua roda de amigos tenha processos trabalhistas (“todo mundo tem”, diz um deles); c) ela não sabe o que “se passa na cabeça” de quem entra com processos do tipo contra ela e seus amigos. Não sabe, mas supõe: pelo seu tom de reprovação, quem a processa não passa de um oportunista sem caráter. Se ela dissesse tudo isso vestida com um tailleur da Chanel, com pochete e mullets ou nua, pouco importaria: seria igualmente escandaloso. E esse é o ponto.

Bretas não emitiu o menor sinal de que abrirá mão do auxílio-moradia – tampouco sua esposa. Cristiane não tem a menor intenção de renunciar ao Ministério do Trabalho – e seu pai, Roberto Jefferson, continua inabalável em sua defesa. Todos alegam que a lei está do seu lado. Não está. O que está ao seu lado são os políticos e os juízes camaradas e corporativistas. E, no Brasil, como se sabe, quem tem amigos tem tudo.