POLÍTICA

Marielle e a desembargadora: quando a elite mostra sua verdadeira (e horrenda) cara

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Diante de tanto preconceito e ódio, é evidente que Marília não tem a necessária isenção para exercer seu ofício: aplicar a lei e garantir os direitos de todos

A cara da riqueza: o generoso salário que a desembargadora recebe sai dos impostos pagos por quem ela despreza (Foto: Divulgação/Facebook)
A cara da riqueza: o generoso salário que a desembargadora recebe sai dos impostos pagos por quem ela despreza (Foto: Divulgação/Facebook)

As constrangedoras e reprováveis declarações da desembargadora de Justiça (sic) Marília de Castro Neves Vieira sobre a morte da vereadora Marielle Franco continuam repercutindo. O PSOL, ao qual Marielle era filiada, entrou com duas representações contra a magistrada. Brigas jurídicas à parte, o que interessa no caso é que poucas vezes, nos últimos tempos, pudemos ver tão nitidamente a verdadeira cara da elite econômica e social do país. Marília deveria ser eleita uma das musas dos “cidadãos de bem”, ao encarnar tão perfeitamente o ódio dos privilegiados contra a luta dos desfavorecidos por direitos e por uma vida digna.

Segundo reportagem do El País, esta não é a primeira vez que Marília vocalizou o que vai no peito dos batedores de panela. A juíza já atacou Zumbi dos Palmares, a quem chamou de “mito inventado”. Já fez declarações pesadíssimas contra o deputado Jean Willys, colega de Marielle no PSOL, defendendo seu fuzilamento, embora, no seu entender, o parlamentar não “valha a bala que o mate e o pano para limpar a lambança”. Para completar, mostrou-se indignada com as novas bandeiras da sociedade, como a luta contra o assédio sexual e o direito das minorias. Desdenhando do assédio, afirmou que as feministas deveriam se preocupar em lavar uma pia de louça.

Diante de tanto preconceito e ódio, é evidente que Marília não tem a necessária isenção para exercer seu ofício: aplicar a lei e garantir os direitos de todos. Que sentença ela daria em um processo de assédio sexual? Ela recomendaria à vítima que deixasse a corte e fosse lavar roupa? Como ela se pronunciaria num caso de racismo? Diria que o preconceito é uma invenção dos negros? O que diria sobre homofobia? Quem todos merecem morrer fuzilados? Por acaso, ela se esqueceu que seu generoso salário é pago com os impostos desses que ela despreza? Dos humildes? Dos que lutam por seus direitos? Ah... sim. Ela já se esqueceu.

O caso de Marília é gravíssimo, porque mostra como elite e preconceito estão entranhados com a Justiça, a ponto de que os operadores do direito, que deveriam utilizar seu conhecimento e sua profissão para estender o ampara da lei a mais gente, valem-se de seus cargos para fazer justamente o contrário: garantir que tudo fique como está. A lei e a ordem, para esses “cidadãos de bem”, não passa do direito de constrangerem, ofenderem e dominarem os mais fracos. E ai de quem reclamar contra tudo isso... sentirá o peso implacável da mão da Justiça. Da Justiça de Marília e seus iguais.