POLíTICA

Marielle Franco: terceira vítima da execução é a própria intervenção no Rio

Author

Vai que tanta comoção e falatório de autoridades não deem em nada, como já cansamos de ver no Brasil, e a intervenção sangre até a morte...

Marielle Franco: terceira vítima da execução é a própria intervenção no Rio

Manifestações contra a execução da vereadora carioca Marielle Franco mobilizaram milhares de pessoas nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo nesta quinta-feira (15). Como já se sabe, o carro em que estava, ontem, foi alvejado por pelo menos nove tiros – dos quais, quatro atingiram sua cabeça. Outros atingiram e mataram seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Diante das fortes reações públicas, políticos de todos os calibres (federal, fluminense e carioca) condenaram veementemente o assassinato e prometeram mundos e fundos para punir os culpados. É o mínimo que se espera, diante da gravidade do fato. Outro grande problema é que o crime deixou uma terceira vítima em estado grave: a própria intervenção federal na área de segurança pública do Rio, comandada pelo general Walter Souza Braga Netto.

Como bem observou a jornalista Michelli Nunes, minha colega de Storia, é impossível não politizar o ocorrido. O primeiro e mais óbvio motivo é que Marielle era... política. Filiada ao PSOL, quinta vereadora mais votada na capital fluminense em 2016, militante dos direitos humanos, empenhada na causa negra e das mulheres, ela incomodava no bom sentido – aquele que nos obriga a deixarmos a preguiça e os preconceitos para nos tornarmos mais humanos e mais sensíveis aos outros. Mas, infelizmente, para alguns, ela incomodava no mau sentido – o de ameaçar privilégios, denunciar a violência policial etc.

Quadrilhas fardadas

E é aí que os executores de Marielle alvejaram em cheio a intervenção federal no Rio. Desde 28 de fevereiro, ela era a relatora da comissão da Câmara municipal para acompanhar as ações da intervenção. Há alguns dias, ela denunciou enfaticamente abusos policiais na comunidade do Acari. Escreveu: "Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior."

Nunca é demais lembrar que a intervenção federal só terá sucesso, se enfrentar de frente as milícias e as quadrilhas que infestam a própria polícia civil e a polícia militar. A relação entre a banda podre das polícias e a bandidagem dos morros varia entre uma pornográfica cumplicidade a uma mortal briga por poder. Se não estão fornecendo armas, munições e segurança para os chefes do tráfico, policiais corruptos estão disputando com os mesmos o controle das comunidades, a fim de coagir os moradores a comprar seus serviços – de botijões de gás ao gatonet, passando por taxas de segurança. E, claro, as bocas de fumo.

Laviano é recebido a tiros

Nunca é demais lembrar, também, que Marielle foi executada no mesmíssimo dia em que a Polícia Militar do Rio trocava de comando. Consequência da intervenção federal, a tropa agora é liderada pelo coronel Luís Cláudio Laviano. Em seu discurso de posse, o ex-comandante do Bope (sim, a faca na caveira) prometeu pegar pesado com os milicianos que se escondem atrás das fardas. “Os milicianos atuam onde há um vácuo de poder. Um espaço do município e do estado. Essas pessoas não podem estar convivendo aqui dentro. Aqui não há espaço para elas”, afirmou.

É verdade que o destino, muitas vezes, é um roteirista maluco, criando as mais inverossímeis coincidências. Pode ser que, por uma tremenda conjuntura astral, Marielle foi assassinada por um ladrão comum que fugiu sem levar nada e, ainda por cima, descarregou toda sua munição, dias depois de a vereadora falar duro contra PMs que abusam de moradores em Acari – PMs, estes, que ganharam um comandante mais durão no mesmíssimo dia de seu assassinato. Tudo isso, num Rio sob intervenção federal. Pode ser... a vida é cheia de coincidências que envergonhariam roteiristas incompetentes.

Vai que...

Mas.. vai que PMs de Acari se sentiram ameaçados por Marielle e resolveram retaliar do modo mais truculento possível. Vai que se anteciparam à mudança de comando da PM, a fim de dar um recado: lá, quem manda, são eles. Vai que o novo chefe da PM, o coronel Laviano, não consegue localizar e punir os responsáveis, dado o altíssimo grau de cumplicidade entre a bandidagem fardada. Vai que isso desmoraliza o novo comando da PM e o novo secretário de Segurança Pública do Rio, o general Richard Fernandez Nunes. Vai que Nunes não consegue justificar como sua equipe não encontrou os culpados de um crime que chocou o país, levou milhares de pessoas às ruas e repercutiu internacionalmente. Vai que seu chefe, o general Braga Netto, seja questionado sobre isso e não tenha uma boa resposta, bem como Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública de Michel Temer...

Vai que tanta comoção e falatório não deem em nada, como já cansamos de ver no Brasil. Neste caso, a desmoralização da intervenção federal e sua morte perante a opinião pública não serão meras coincidências. Assim como, muito provavelmente, a execução de Marielle.