LAVA JATO

Moro presidente: o Brasil quer Justiça ou justiceiros?

Author

No imaginário popular, Sérgio Moro deveria encarnar uma espécie de Vingador à brasileira – com aquela dose cavalar de violência do Capitão Nascimento

Moro presidente: o Brasil quer Justiça ou justiceiros?

(Foto: Lula Marques / AGPT)

Após mais de três intensos anos de Operação Lava Jato, é natural que os brasileiros tenham perdido a paciência com os corruptos que infestam a política e clamem por Justiça. O anseio ganhou ares dramáticos nos últimos meses, quando o contra-ataque do corporativismo suprapartidário pode permitir que quadrilheiros graúdos escapem pelos dedos do Judiciário, com a covarde complacência do Supremo Tribunal Federal (STF). É compreensível, portanto, que boa parte dos brasileiros acabe buscando, fora da política tradicional, pessoas capazes de desinfetá-la. E, entre esses nomes, destacam-se os ligados aos tribunais. Segundo o Instituto Paraná Pesquisas, quatro representantes do Poder Judiciário encabeçam a lista de quem os brasileiros gostariam de eleger em 2018, caso se candidatassem: Sérgio Moro (35% de citações), Joaquim Barbosa (11,1%), Deltan Dallagnol (6%) e Modesto Carvalhosa (2,1%). Mas isso é bom ou ruim, afinal?

A resposta, infelizmente, não é simples. É preciso, primeiro, entender o que os eleitores esperariam de Moro e companhia, caso fossem eleitos para algum cargo em Brasília. A resposta mais imediata é uma limpeza ampla, geral e irrestrita do cenário político. No imaginário popular, eles formariam uma espécie de Vingadores ou Liga da Justiça à brasileira – com aquela dose cavalar de violento autoritarismo com que o Capitão Nascimento enquadra traficantes nas sessões de filme e pipoca em família. É típico do Brasil confundir firmeza com truculência, devido às nossas origens regadas a genocídios indígenas, escravidão de negros, transformação da questão social em “caso de polícia” e outras lembrancinhas do capeta.

Sangue nos colarinhos brancos?

Neste sentido, os virtuais eleitores de Moro, Barbosa, Dallagnol e Carvalhosa não querem apenas Justiça. Querem o espetáculo da decapitação pública. Querem um esquadrão da morte formado por justiceiros que falam latim. Sim, é verdade que a cara de pau dos políticos pegos pela Lava Jato é de enlouquecer qualquer cristão. É claro que dá vontade de catar alguns pelo colarinho e esculachar. É compreensível. É humano. Mas é isso de que precisamos? E, sobretudo, é isso que os citados na pesquisa fariam?

Em diversas ocasiões, Moro e os demais afirmaram e reafirmaram que não há saída legítima para a crise brasileira, além do famoso Estado Democrático de Direito. Cada cidadão tem o dever de obedecer às leis, a possibilidade de ser punido, caso não o faça, e o direito de se defender. Tentar arrancar o país do buraco moral à força de medidas autoritárias é a mesma coisa que querer desatolar um carro, furando seus pneus. É improvável que, por mais firmes (e exemplares) que sejam, Moro e os demais se dispusessem a manchar sua biografia com decisões arbitrárias apenas para alegrar a massa.

Se Moro, Barbosa, Dallagnol e Carvalhosa forem mesmo sérios (e não há motivos para supor que não sejam), decepcionariam muita gente que esperaria ver um show de chibatadas públicas em criminosos de colarinho branco. Afinal, como eles gostam de repetir, ninguém está acima da lei - nem mesmo eles. O combate à corrupção continuaria tão monótono, reticente e árduo como atualmente. Trata-se, muito mais, de xadrez, do que de porrada.