ECONOMIA

O ano de Temer se resumirá a isso: evitar a Justiça a partir de 2019

Author

O futuro do Brasil será a última das preocupações do presidente nos próximos meses

O ano de Temer se resumirá a isso: evitar a Justiça a partir de 2019

Nada a esconder? Temer jura que não... (Foto: Beto Barata/PR)

Reforma da previdência, reforma tributária, recuperação da economia, socorro a Estados quebrados, redução do desemprego... creia, tudo isso será a menor das preocupações do presidente Michel Temer nestes últimos meses de governo. Aliás, é possível até que, no aconchego do Palácio do Jaburu, quando pousa a cabeça no travesseiro, pense que esses assuntos não passam de aborrecidos contratempos que o desviam daquilo que realmente lhe interessa: garantir que não seja investigado pela Lava Jato, a partir de 2019, e, eventualmente, indiciado, processado, julgado e (quem sabe?) condenado. Não é pouca coisa. Tampouco, trata-se de paranoia do emedebista. Temer tem razões concretas para se preocupar: só escapou de ser investigado pela Polícia Federal porque a Câmara, à custa de muito dinheiro público, mandou arquivar os processos – por duas vezes!

Muitos deputados, constrangidos com a situação e cientes de que os eleitores o acompanhavam na transmissão ao vivo das votações, alegaram que Temer não deveria ser investigado naquele momento apenas para não tumultuar ainda mais a política e a crise econômica. Arremataram, afirmando que as suspeitas e denúncias contra ele deveriam ser apuradas, sim, mas só depois que deixasse o Palácio do Planalto, lá pelo meio do dia 1º de janeiro do ano que vem, quando – espera-se – transmita o cargo para seu sucessor eleito em outubro.

“Guerra moral”

A disposição de Temer de salvar seu pescoço ficou clara na entrevista que concedeu à Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (20). A conversa girou em torno da demora em afastar os vice-presidentes da Caixa Econômica Federal acusados de corrupção, dos depoimentos de delatores e testemunhas à Lava Jato envolvendo seu nome, e da lentidão com que respondeu às 50 perguntas formuladas pela Polícia Federal sobre seu envolvimento nisso tudo. A certa altura da entrevista, Temer declara: “... o que estou fazendo nos últimos tempos é recuperar os aspectos morais da minha conduta. Fico impressionado com a guerra de natureza moral.”

Logo depois, ele emenda que não se considera “perseguido”, mas sim “mal entendido” e continua: “há uma tentativa brutal de desmoralizar o presidente. Neste ano, vou me dedicar, entre outras reformas, à minha recuperação moral. O que fizeram comigo foi uma coisa desastrosa.”

Falcatruas? Eu?!?!...

Sem dúvida, é direito de qualquer um – do mais humilde brasileiro ao presidente da República – defender sua honra e sua inocência perante a opinião pública e a Justiça. Mas, tudo o que Temer faz, neste momento, é se apresentar como vítima de conspiradores e pessoas que, deliberadamente, distorcem a situação para incriminá-lo. Sim, você já viu esse filme, estrelado por outros políticos de grosso calibre e dos mais diversos matizes ideológicos. O que Temer, por razões óbvias, não admite é que muitos dos investigados, denunciados e presos pela Lava Jato eram seus fiéis aliados – incluindo Geddel Vieira Lima, o emedebista mais graduado pego, até agora, pela força-tarefa. Conhecido pelos R$ 51 milhões descobertos em malas num apartamento em Salvador, Geddel dá sinais de que pode fazer uma delação premiada. Se, de fato, contar tudo o que sabe, é possível que Temer apareça em situações muito pouco republicanas. Sem a retaguarda do foro privilegiado que seu atual cargo lhe confere, o futuro ex-presidente cairia direitinho nas mãos de Sérgio Moro ou outro juiz igualmente casca-grossa que toca a Lava Jato.

Em outro instante, Temer insiste na sua meta para 2018: “não vou sair da Presidência com essa pecha de um sujeito que incorreu em falcatruas. Não vou deixar isso.” Com certeza, no que depender dele, não vai mesmo. A questão é: como? Só há duas formas. A primeira e correta é provar sua inocência. A segunda é dar um jeito de acobertar eventuais escândalos. Somente os próximos meses dirão qual será sua estratégia. A única certeza, por ora, é que o futuro do Brasil é a última de suas preocupações neste ano.