POLÍTICA

O dia em que, finalmente, aceitei que sofro de depressão

Author

O pior preconceito não é o dos outros, mas o de nós mesmos, ao nos recusarmos a aceitar que sofremos de uma doença séria, mas bastante tratável

Tristeza não tem fim... mas pode ser muito mais tolerável, quando lidamos com ela do modo certo (Imagem: No Moulin Rouge/Toulouse-Lautrec)
Tristeza não tem fim... mas pode ser muito mais tolerável, quando lidamos com ela do modo certo (Imagem: No Moulin Rouge/Toulouse-Lautrec)

Na última quinta-feira (26), a Nature Genetics, uma das revistas mais respeitadas em genética, publicou os resultados de uma pesquisa sobre o peso da hereditariedade nos casos de depressão. O estudo foi conduzido por um consórcio de 200 cientistas de todo o mundo e identificou 44 genes relacionados à doença. O objetivo, claro, é desenvolver novos tratamentos. Não deixa de ser uma esperança para quem sofre de depressão – uma doença que desperta altas doses de preconceito, por ser confundida com fraqueza de espírito, indolência, falta de responsabilidade ou pura e simples frescura. Falo disso por experiência própria. Há anos sofro de depressão e... também era extremamente preconceituoso com a doença.

Demorou muito para que eu a aceitasse. Para mim, tratava-se apenas de fraqueza de espírito. De falta de fé. De mimimi. Nada melhor para curar baixo astral, pensava eu, do que levantar e trabalhar. Até que a doença começou a atrapalhar minha vida profissional. Até que acessos de raiva e apatia comprometeram meu desempenho e meus resultados. Se era verdade, como eu supunha, que manter a cabeça ocupada curava essa melancolia, de duas, uma: ou eu estava errado, ou estava trabalhando pouco. Na dúvida, aumentava minha carga de trabalho. Acumulava coisas para fazer. E nada... quanto mais fugia para dentro do trabalho, mais carregava a depressão para lá.

À deriva

Como era de se esperar, quem trabalha demais convive de menos com a família, os amigos. Minha vida familiar, social e afetiva foi minguando. Cadê o ânimo para ir encontrar o pessoal? Cadê o ânimo para paquerar? Cadê a vontade de tomar sol, papear, almoçar com pessoas queridas, trocar e-mails, mensagens de feliz aniversário, marcar viagens e visitas, trocar ideias? Na dúvida, à medida que me afundava na depressão, me entupia de trabalho. Inevitavelmente, meu casamento ruiu. Inevitavelmente, a ruína de meu casamento aprofundou minha depressão. Inevitavelmente, transformei minha primeira casa, de volta à solteirice, numa masmorra fria, suja e escura – a ponto de um amigo meu, certo dia, lavar voluntariamente o banheiro depois de uns três meses de abandono...

Sentia-me à deriva em mim mesmo. Lutava para manter minha cabeça fora das emoções turvas que me afogavam de tempos em tempos. Gastava cada vez mais energia tentando voltar à tona. Quando conseguia, estava tão desgastado, que tudo o que fazia era contemplar a vida como quem boia num lago ao pôr-do-sol. Tudo para que, em seguida, eu sentisse o mar agitar sob mim e uma nova vaga encobrir minhas parcas forças. É claro que meus familiares, minha ex-esposa e meu amigos tentaram me ajudar. Mas a vergonha, o sentimento de que tudo não passava de frescura minha, de fraqueza, de chororô me impediam de admitir que enfrentava um problema que não conseguiria resolver sozinho.

O Dia D

Meus acessos de raiva e angústia aumentavam. Até que, um dia, aconteceu. Estávamos na véspera da Copa de 2014. O Brasil já estava enfeitado para os jogos. As seleções já chegavam. O ufanismo já dominava. Tropeçava em adereços da Seleção Brasileira enquanto subia a rua Cayowá, no bairro paulistano de Perdizes, num dia qualquer à noite. Voltava do trabalho. Estava angustiado. Tinha a impressão de que um tigre enjaulado em meu peito dava patadas contra as grades para escapar, rasgando-me por dentro. Sempre detestei o bairro, com seus novos ricos que se acham mais importantes do que os outros. Num cruzamento, o semáforo fechou e iniciei a travessia. Um último carro, contudo, avançou até frear perto de mim. Por pouco, não me atropelou.

Sobressaltado, vi um casal de cerca de 20 anos. Ele, na direção. Ela, no banco do carona. Ambos de camisa da seleção. Ambos com latas de cerveja nas mãos. Gritei para tomarem cuidado. Ele, folgado, meio bêbado, me mandou tomar no cu. Como? Ele quase me atropela e eu é que tenho que me foder? O sangue ferveu... peguei meu celular e o fotografei com a cerveja e a placa do carro. Obviamente, ele percebeu a cagada. Em vez de ficar quieto, literalmente tacou a lata em mim. Eu, literalmente, dei um pontapé na sua porta.

Ele saiu. Não era muito maior do que eu, que meço 1,67m, mas um pouco mais gordo (ou forte). Pensei: isso não está acontecendo. Mas estava. Sei lá por que, decidi que não iria brigar. Claro que ele não compartilhava de minha decisão. Partiu para cima de mim e tudo o que fiz foi me defender. Como uso óculos, fiquei protegendo o rosto, enquanto era socado em tudo o que ele alcançava. Senti que meu celular e minha carteira ameaçavam cair dos bolsos e, enquanto, com uma mão, resguardava o rosto, com a outra tentava segurar meus pertences.

Em algum momento, ele me jogou no chão. Em algum momento, lembro-me de pontapés. Em algum momento, decidi que já era demais. Agarrei seu pé e, sabe Deus como, o puxei para o chão. Iria montar nele para enchê-lo de porrada, quando alguém me tirou de cima para... me dar um soco... percebi que me tornara o alvo de outros malucos, ávidos por descarregar em mim raivas, recalques e frustrações. O dono da padaria da esquina, um homem alto, velho, mas forte, nos apartou. Comecei a berrar que a vítima lá era eu. Que eles haviam bebido. Que estavam defendo os bandidos. O homem que tentou me socar mandou que eles saíssem, antes que eu chamasse a polícia. Entraram no carro e cantaram os pneus. Ele, que tentou me esmurrar, voltou para o seu e arrancou.

Um tapa na cara

Fiquei estatelado na calçada por algum tempo. Senti o corpo inteiro moído. Tinha arranhões, mas, considerando tudo, até que estava bem. Como morava com a minha irmã, na dúvida, arranjei uma história de que havia caído na rua. Não precisei me explicar muito. Talvez ela não tenha acreditado, mas preferiu não dizer nada. De qualquer modo, fiquei alguns dias me perguntando como, raios, eu chegara naquele ponto. Eu, literalmente, poderia ter morrido. Poderia ter me aleijado. Poderia ter matado alguém. Ou aleijado alguém.

Foi quando, finalmente, percebi que a verdadeira briga, aquela que eu precisava vencer, não era contra um mauricinho rico de Perdizes tentando impressionar a periguete que catava. Era contra mim mesmo. Contra a depressão que me exasperava, que me sugava para um buraco negro de dor e exaustão. Eu ainda tinha vergonha, dúvidas e incontáveis preconceitos quanto à doença. Tinha medo de que os remédios “estragassem” minha cabeça. Que me deixassem dopado, como naqueles filmes de manicômio. Que eu perdesse de vez a consciência. Que meu desempenho no trabalho piorasse, a ponto de ser demitido. Que, no fundo, somente os fracos de espírito se rendem à depressão.

A contragosto, revoltado comigo e com o mundo, culpando tudo e todos pelo meu estado, marquei uma consulta com um psiquiatra que já era um velho conhecido da família (brinco, dizendo que ele pode ser o nosso biógrafo oficial). Cada passo a caminho de seu consultório, no dia marcado, aumentava em uma tonelada o peso de minhas pernas. Desabei no sofá indignado. Era o mundo que me adoecia. Não eu. A culpa não era minha. As pessoas é que eram piradas e me enlouqueciam. Ele escutou, escutou, escutou... com sua experiência, receitou-me um ansiolítico e um sonífero – e me mandou voltar na semana seguinte.

O remédio e a cura

Entrei na farmácia para comprá-los com a vergonha de quem vai a uma boca de fumo. Para mim, a receita equivalia a carimbar “doido” na minha testa em letras brilhantes. Cheguei em casa revoltado. O mundo conseguira: me enlouquecera. Parabéns a todos os envolvidos. Só Deus, minha irmã e meus pais sabem o que foram os primeiros meses de tratamento. Aceitar a doença e parar de culpar tudo por isso são as partes mais difíceis. Perdi amigos, um casamento, algumas oportunidades de emprego, muito dinheiro, chances de recomeçar, simplesmente porque não conseguia perder a vergonha de reconhecer o problema, e o medo de que a cura me prejudicasse.

Pouco importa se a depressão é genética. É claro que tratamentos mais eficazes são sempre bem-vindos. Mas, o que importa, mesmo, é pedir ajuda enquanto é tempo. Sem isso, nem todos os cientistas do mundo, pesquisando todos os genes humanos para encontrar a cura definitiva, serão capazes de devolver a nossa vida. Tomei, literalmente, muitas porradas para entender isso. Algo pelo qual espero que você, que também sofre de depressão, não precise passar. Vai por mim – é melhor pular essa parte e ir direto para a cura!