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O dia em que tentei beijar uma amiga (e me sinto um canalha até hoje por isso)

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O fato de uma mulher ser sua amiga e compartilhar intimidades não quer dizer que ela pretenda ir além disso. Amigos, amigos... afetos à parte

O dia em que tentei beijar uma amiga (e me sinto um canalha até hoje por isso)

Queria uma namorada, mas saí com uma lição (O Beijo do Hotel De Ville/Robert Doisneau)

Eu ainda me lembro da primeira vez que a vi. Foi numa tarde ensolarada de inverno (o tipo de dia de que mais gosto) e uma luz difusa entrava pela janela, destacando sua pele branquinha, seus cabelos longos, loiros e ondulados, seu nariz fininho e seu olhar meio tímido. Para completar, ela vestia uma blusa muito branca e felpuda – um anjo trajando as mais alvas e nobres nuvens... simplesmente, eu não conseguia desviar os olhos. Ela estava um tanto longe, na outra ponta do andar, conversando com um dos editores sobre um frila que a revista lhe encomendara. Congelei tempo suficiente para que ela notasse minha cara de bobo e me olhasse com certa curiosidade. Tímido como uma porta, com a autoestima de uma ameba e com um histórico de fracassos amorosos digno de figurar no Guiness Book dos Losers, voltei à realidade, dei um pito nesse coração que só me faz passar vergonha e fui terminar o texto que estava na tela.

Mas, sendo Deus esse grande roteirista de sitcoms, calhou de eu encontrá-la, horas depois, no hall dos elevadores. Estávamos sozinhos. Nem me lembro para onde ia. Só sei que dar de cara com ela, ali, não estava nos meus planos. Já tinha passado vergonha demais encarando-a feito um idiota lá dentro. Contudo, um dos meus piores defeitos (ou uma de minhas maiores qualidades?) é que não consigo disfarçar o que sinto. Sou transparente demais, para o bem e para o mal. Até hoje, perco no truco por não saber blefar. É claro que minha cara de “Deus do céu, ela é um sonho” voltou. Cumprimentei-a timidamente com um engasgado “oi”. E ela me sorriu com uma simpatia sincera e contida e retribuiu baixinho o cumprimento. Jesus! Ela me deu uma risadinha! Deve ser assim que Deus anuncia cada alvorada no Paraíso – com um sorriso dela!

Globo de Ouro na categoria ironia

Tempos depois, adivinhe o que o Divino Roteirista aprontou. Sim, sim. Claro. Óbvio! Ela foi trabalhar no site em que eu já trabalhava. Aquele editor que costumava lhe pedir frilas gostava de seus textos, soube que havia uma vaga no meu setor e a indicou para a minha chefe. Batata... um dia, estou eu às voltas com o noticiário do dia, quando ela chega sorridente acompanhada pela minha editora. Sim, ela seria minha nova colega de redação. Apresentações feitas, engole a cara de idiota, respira fundo, profissionalismo... profissionalismo... foca no trabalho. Nada de cantar colegas. Rapidamente, ela se interessou por um cara da equipe, bonitão, encorpadão, de voz grossa, barba rala e surfista de fim de semana. Foram juntos à casa de praia dele. Rolou...

Trabalhamos alguns anos juntos, nos tornamos bons colegas e até chegamos a compartilhar algumas conversas pessoais. A convivência fez com que eu a esquecesse como mulher e a visse apenas como uma profissional com quem dividia as dores-de-cabeça do dia a dia. Ela era bem-humorada, estudava História na USP (e tomava cuidado para que seus colegas de faculdade não soubessem que havia uma jornalista da “mídia golpista” entre eles), gostava de animais. Então, ela conseguiu um emprego num serviço noticioso concorrente e partiu. Àquela altura, havia se formado um grupo de umas dez pessoas bastante unido na redação. Não éramos mais apenas colegas de trabalho, mas também saíamos juntos, íamos a baladas, festejávamos aniversários, assistíamos a jogos, zoávamos as derrotas dos times dos outros, desafinávamos juntos em sessões de Guitar Hero...

É agora ou nunca

Anos depois de ela mudar de emprego, nos reencontramos numa balada (não me lembro, mas provavelmente era o aniversário de alguém). Para variar, ela estava linda, sorridente e piadista. Para variar, eu voltei a me encantar por ela. Conversamos boa parte da noite, seja sozinhos, seja na rodinha de amigos. Bebo pouco e ela também. Mas o pouco que bebemos nos deixou meio altos. Na volta, ela me ofereceu uma carona. Não dirijo há muitos anos e ela (mais uma ironia dessa sitcom escrita por Deus...) morava a alguns quarteirões de mim. E foi quando aconteceu... ou quase aconteceu.

À medida que nos aproximávamos de casa, uma coisa martelava na minha cabeça: “Vai, tenta. Vai. Arrisca. Vai que ela também está a fim de você. Vai que, hoje, vocês começam uma coisa bacana juntos. Vai que este é o momento.” Nunca senti o coração bater tão forte. Nunca tinha tentado beijar uma menina, do nada, antes. Mas precisava tentar. Quando ela encostou o carro na frente de casa, apenas um pensamento veio à minha cabeça: “Se eu não tentar, me arrependerei pelo resto da vida. Passarei a vida toda pensando que fui covarde.” Assim que o rosto dela se aproximou para o famoso beijinho na bochecha de “tchau”, meus lábios foram na outra direção – na direção dos dela. Dizem que Neymar inventou um drible genial no PSG recentemente. Pois bem, diante do drible de boca que tomei dela naquele momento, Neymar deveria voltar para a escolinha de futebol. Nunca vi reflexos tão rápidos.

Uma dura, mas necessária, lição

Perplexa, ela me olhou: “Ei... ei... o que é isso??!!” Nunca me senti tão envergonhado, ridículo, idiota, imbecil, quanto naquele instante. E agora? Tudo o que consegui balbuciar foi um “Desculpe... eu gosto de você... você é uma menina legal... achei que a gente poderia...” e não completei. Eu queria dizer: poderia namorar, se conhecer, se apaixonar, ter uma vida juntos, um futuro, cachorros, filhos, perrengues, contas para pagar, olheiras e pés-de-galinha, mas fiquei quieto. Nada do que eu dissesse serviria naquela hora. Saí do carro pesado, embaraçado, de olhos baixos. Entrei em casa e sequer acendi a luz. Subi para o quarto. Tudo o que conseguia pensar era: “como pude ser tão trouxa? Tão idiota? Como me deixei levar? O que me passou pela cabeça, achando que aquela carona, aquelas conversas durante a balada...”

No dia seguinte, escrevi-lhe, via inbox do Facebook, que sentia muito. Que estava embaraçado. Que não gostaria que ela pensasse que queria me aproveitar dela. Eu gostava dela, queria namorá-la, queria investir numa relação séria. Ela me desculpou, mas disse que não me correspondia e que, acima de tudo, não estava interessada em namorar ninguém seriamente. Suas prioridades eram outras – carreira, faculdade etc. Aparentemente, não restaram mágoas daquele episódio. Nos vimos outras vezes, combinamos de fotografar a Virada Cultural juntos, jantamos para trocar fofocas do mercado jornalístico..., mas, até hoje, me sinto um canalha por ter tentado beijá-la. Sempre que a vejo, ainda sinto vergonha. Se há algo que aprendi disso tudo, é que o fato de uma mulher ser sua amiga e compartilhar afinidades e intimidades não quer dizer que ela pretenda ir além disso. Eu posso até me apaixonar por alguém que faça isso. Não mando no meu coração, infelizmente. Mas a consciência de que eu possa estar interpretando erroneamente os sinais me mantém atento agora. Amigos, amigos... afetos à parte.