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O Facebook finalmente assumiu que é, na verdade, o “Fakebook”

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Ainda há gente séria tentando fazer bom jornalismo por aí. Pena que, com as mudanças do Facebook, isso será cada vez menos visto pelos usuários – literalmente

O Facebook finalmente assumiu que é, na verdade, o “Fakebook”

Veja essa: seu primo tosco é mais importante que um jornalista (Divulgação/Laranja Mecânica)

Desde que Mark Zuckerberg anunciou, há cerca de um mês, que o Facebook mudaria seu algoritmo para privilegiar a visualização de posts de amigos e familiares, uma angústia indignada atormenta as empresas de jornalismo: a alteração vai reforçar, na prática, o compartilhamento de notícias falsas, em detrimento do conteúdo verdadeiro? É claro que a maior rede social do mundo, com seus mais de 2 bilhões de usuários, jura que as chamadas fake news não serão privilegiadas pelo novo algoritmo. Já os especialistas em mídia afirmam que acontecerá exatamente o oposto: a exposição de mentiras vendidas como verdade explodirá. Isto porque, a maior fonte de divulgação de fake news é, justamente, o círculo de parentes e amigos de cada um. De qualquer modo, as empresas de mídia começam a trocar as queixas por atitudes concretas. A Folha de S.Paulo, por exemplo, anunciou nesta quinta-feira (8) que simplesmente abandonará a atualização de sua página no Facebook.

Segundo o jornal, já em janeiro, o volume de interações das dez maiores páginas de jornais brasileiros no Face despencou 32% sobre igual mês de 2017. Na conta, entram comentários, curtidas, reações e compartilhamentos de conteúdo pelos usuários. Mas o problema não se restringe apenas ao que ocorre dentro da própria rede, entre veículos de comunicação e os seus seguidores. A menor exposição das notícias causou, também, uma queda na audiência dos sites de notícia. Em janeiro do ano passado, a rede social representava, em média, 39% dos acessos aos serviços jornalísticos. Agora o percentual recuou para 24%.

A Trump-lândia é aqui

Ao mesmo tempo, de acordo com a Folha, o engajamento dos usuários do Face com notícias falsas ou sensacionalistas disparou 62%, medido por curtidas, comentários e compartilhamentos. O período analisado abrange do último trimestre de 2017 até o momento, e foi baseado na análise de 21 sites conhecidos por disseminarem fake news e sensacionalismo no país. O jornalismo profissional, por outro lado, perdeu 17% de engajamento no período.

O debate sobre o tratamento dispensado pelo Facebook ao conteúdo jornalístico torna-se ainda mais importante, quando se lembra que a empresa é considerada o segundo maior grupo de mídia do mundo, medido pelas receitas geradas com publicidade. De acordo com a consultoria Zenith, em 2016, a rede de Zuckerberg faturou invejáveis US$ 27 bilhões somente com anunciantes. Perdeu apenas para a Alphabet, holding que controla o Google, com seus quase US$ 80 bilhões. Para se ter uma noção de como a mídia tradicional está tomando um banho das empresas digitais, basta ver que a Comcast é o grupo de comunicação convencional mais bem colocado no ranking. Em terceiro lugar, ela faturou US$ 13 bilhões com publicidade.

Olho em todo mundo

Dado o imenso poder de influenciar o debate público de questões fundamentais para a sociedade, como a política, o combate ou reforço de estereótipos e preconceitos, e a livre circulação de ideias, estudiosos, parlamentares e ONGs há muito tempo tentam impor limites e induzir alguma ética nas grandes empresas de comunicação tradicional. É mais do que hora de ampliar essa cobrança para as plataformas digitais, como Facebook, Google, Twitter e congêneres. Sem produzir uma única notícia, sem contar com um único jornalista apurando, redigindo, editando ou fazendo a curadoria de conteúdos, o Facebook hoje tem muito mais influência do que vários jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV. Sem contar a grande fatia de receitas publicitárias que abocanha, dificultando imensamente a vida dos grupos de mídia que desejam manter boas equipes de reportagem, fazer um trabalho jornalístico digno e que respeite a pluralidade de opiniões e a inteligência do público.

É claro que haverá cínicos que dirão que o fake news sempre existiu, e era um habitué de muitos veículos da velha guarda. Sim, é verdade. A mentira vendida como fato é tão antiga, quanto a mentira em si – seja ela transmitida pelo boca-a-boca, ou via uma página de jornal. Mas ainda há gente séria tentando fazer um bom trabalho por aí. Pena que, com as mudanças do Facebook, isso será cada vez menos visto pelos seus usuários – literalmente.