LAVA JATO

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita

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No obscurantismo brasileiro, quem pensa diferente deve ser destruído, em vez de ouvido. Onde isso vai parar? Nas urnas em 2018...

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita

(Imagem: Reprodução)

Vergonha alheia: ofensas são o novo argumento dos "esclarecidos" 

Há duas frases do Millôr Fernandes (1923-2012) que adoro e que me guiam como jornalista e como pessoa: “Livre pensar é só pensar” e “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Millôr, para quem já se esqueceu ou não conhece, foi um dos mais provocativos e brilhantes intelectuais do Brasil, com uma extensa produção literária, ensaística e jornalística. Também foi um profícuo cartunista. Junto com um timaço formado, entre outros, por Ziraldo, Paulo Francis, Henfil e Flávio Rangel, criou o lendário "O Pasquim", que infernizou a ditadura e revolucionou a linguagem e a prática jornalísticas. Mesmo após o fim do período militar, Millôr continuou afiado, satirizando as contradições nacionais, onde quer que estivessem. Nos dias de hoje, seria aquilo que muitos, desdenhosamente, chamariam de “isentão”. Seria, portanto, um poderoso ímã do discurso de ódio que nivela, por baixo, bem por baixo, esquerdistas e direitistas.

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita

O fato é que, nos tempos obscurantistas em que vivemos, onde as redes sociais se tornaram um octógono em que tudo o que se deseja é destruir quem pensa diferente, Millôr seria execrado a torto e a direito. A suprema ironia é que os ataques são feitos a partir da cobrança de “isenção”. Palavrões, ameaças, ataques pessoais, desqualificações particulares são lançadas a quem, supostamente, distorce a verdade (deixo, no meio deste texto, alguns exemplos postados na minha página profissional no Facebook). Em teoria da comunicação, essa exigência de que o jornalismo reflita fielmente a realidade é chamada de “teoria do espelho” – tudo o que caberia ao jornalista seria reportar, tim-tim por tim-tim, aquilo que se passa. É o pressuposto radical da separação entre sujeito (imprensa) e objeto (fato noticiado), que cobra do profissional uma objetividade matemática. Há, é claro, diversas correntes que questionam a capacidade do jornalismo de apenas espelhar o mundo, mas vamos imaginar que isso seja possível.

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita

O que os haters, trolls, MAVS, mortadelas, coxinhas e bolsonaristas cobram é “isenção”. O que isso significa para eles? Apresentar as coisas como são. E como elas são para eles? Simples! São como pensam que são. São como enxergam, como acreditam, como querem ver. Se um leitor é lulista, adorará tudo o que endosse o ex-presidente petista e odiará qualquer crítica. Se é bolsonarista, idem em relação ao ex-militar. São os tais vieses de reforço e de refutação que já cansei de comentar aqui no Storia. A suprema ironia, nisso tudo, é que esquerdistas e direitistas cobram dos jornalistas uma objetividade que eles próprios não têm. E não têm, simplesmente porque acreditam que a verdade é apenas aquilo que defendem com unhas, dentes, perdigotos e grosserias.

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita

Não há nada que alguém assim odeie mais, do que um “isentão”. É uma ofensa, a seus olhos, que uma pessoa não faça parte de sua panela. Mais engraçado ainda é o tacanho pensamento binário que lhe ocorre. Se alguém não pertence ao seu time, por um raciocínio para lá de simplista, só pode ser do outro time – o dos contras, os inimigos, os adversários, os concorrentes. Nunca lhe ocorre que o “isentão” pode, pura e simplesmente, ser... “isentão”, alguém que tenta ponderar o que há de bom e ruim em todos os lados. Alguém que busca um meio termo, no melhor sentido da dialética: tese, antítese e síntese. Essa deveria ser a postura mais construtiva, neste momento em que o Brasil precisa urgentemente se articular para sair do fundo do poço e garantir um futuro digno para seu povo.

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita

Mas não interessa às principais lideranças políticas unir a população. Os grandes patrocinadores do discurso do ódio são os que desejam, na realidade, o poder, e não, como dizem, o bem do país. Neste sentido, os maiores responsáveis pelo ódio nas redes e nas ruas são Luiz Inácio Lula da Silva, com a estratégia do “nós contra eles” lançada para eleger e reeleger Dilma Rousseff; os patrocinadores do impeachment de Dilma (MBL, VemPraRua, Revoltados OnLine e os partidos que os apoiaram no Congresso); Jair Bolsonaro e intervencionistas, entre outros. As estratégias são conhecidas, mas difíceis de se combater: sites de fake news, perfis falsos, exércitos de militantes virtuais pagos, click farms...

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O que preocupa, contudo, é que tudo isso acaba cooptando gente de carne e osso, cidadãos comuns que se rendem ao fanatismo e ao ódio para atacar simploriamente quem pensa diferente. A intolerância está emburrecendo a direita, a esquerda, o centro e o que mais houver no cenário político brasileiro. Onde isso vai parar? Para horror dos que ainda não perderam o juízo, a resposta é: nas urnas, em outubro de 2018.

O ódio emburreceu você de esquerda, e você de direita