LAVA JATO

O “resgate” de Roberto Jefferson nos custará mais de R$ 300 bilhões

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Para cada Roberto Jefferson da vida que chora de alegria, milhões de brasileiros angustiados riem de nervoso

O “resgate” de Roberto Jefferson nos custará mais de R$ 300 bilhões

Haja emoção: Jefferson vira "ministro indireto" de Temer (Imagem: Divulgação/YouTube)

Ao anunciar que sua filha, a deputada federal Cristiane Brasil, é a nova ministra do Trabalho de Michel Temer, o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, chorou e se mostrou de alma lavada. Pivô do escândalo do mensalão, que estremeceu o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e mandou para a cadeia os primeiros petistas graúdos, Roberto Jefferson foi condenado, em 2012, a sete anos de prisão por trocar o apoio do PTB ao governo Lula por R$ 20 milhões, dos quais, ficou com R$ 4 milhões. Perdoado em 2016 pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF, Jefferson assim se referiu à nomeação da filha nesta quarta-feira (3): “É um orgulho... a surpresa... a emoção que me dá. É o resgate, sabe? É um resgate [da família]. [O mensalão] Já passou. Já passou. Fico satisfeito.” E Jefferson tem bilhões de motivos para estar mesmo satisfeito. Para ser um pouco mais preciso, seu “resgate” custará aos cofres públicos mais de R$ 300 bilhões.

É esta a ordem de grandeza das cifras que serão administradas neste ano por Cristiane Brasil, no Ministério do Trabalho. Em linhas gerais, essa dinheirama virá de duas fontes: os R$ 83,5 bilhões previstos no Orçamento Geral da União deste ano, e Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), cujo saldo supera os R$ 270 bilhões. Para quem não se lembra ou não sabe, o FAT é alimentado pelo recolhimento do PIS/Pasep e seus recursos sustentam desde o pagamento do seguro-desemprego e dos abonos salariais, até programas de financiamento de bancos públicos. Há algum tempo, por exemplo, o FAT tornou-se a principal fonte de dinheiro do BNDES (sim... aquela outra caixa-preta do governo). Somente neste ano, estão previstos ingressos de R$ 79 bilhões no fundo. Parece muito, mas o aumento do desemprego e, principalmente, a má gestão e a politicagem já abriram um rombo no FAT. Estima-se que, para cobrir a diferença entre o que arrecada e o que gasta por ano, o Tesouro precisaria injetar R$ 79 bilhões no fundo até 2020.

Show do bilhão

De qualquer modo, mesmo deficitário, nenhum político abriria mão de influenciar na aplicação desses recursos. Sobretudo em ano de eleições para presidente, governadores, senadores e deputados federais. O mesmo vale para a gestão do FGTS, em cujo conselho curador a filha de Roberto Jefferson passará a ter um assento. Sob a guarda da Caixa Econômica Federal, o FGTS fechou o terceiro trimestre com um saldo de R$ 505 bilhões. É de lá que sai muito do dinheiro que banca projetos de saneamento básico e habitação pelo Brasil – duas áreas vistosas e que rendem muitos votos, diga-se de passagem.

Assim, não é por acaso que Jefferson foi às lágrimas ao ser cercado por jornalistas, na saída da reunião com Temer ontem. Como presidente nacional do PTB, ele é dono da sétima maior bancada da Câmara, com 17 deputados e, portanto, de um tempo de TV e de fundos partidários nada desprezíveis. Ideologicamente incolor, ele se tornou uma peça-chave para compor qualquer chapa para outubro, no momento em que o gelatinoso e fisiológico “centrão” bate cabeça para encontrar um candidato capaz de superar Luiz Inácio Lula da Silva, pela esquerda, e Jair Bolsonaro, pela direita. Ao presenteá-lo com a nomeação de sua filha como ministra, Temer o adula, na esperança de atraí-lo para a eventual chapa que apoiará.

Sua reabilitação política, porém, mostra que o Brasil é incapaz de tomar jeito. Para cada Roberto Jefferson da vida que chora de alegria, milhões de brasileiros angustiados riem de nervoso.