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Por que a intervenção do Exército no Rio não acabará com a violência

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Não se trata de mau agouro. Infelizmente, trata-se apenas de distinguir um placebo de uma verdadeira cirurgia. É preciso muito mais para salvar o Rio – e o Brasil

Por que a intervenção do Exército no Rio não acabará com a violência

Cara feia não basta: intervenção não é nenhuma bala de prata (Fernando Frazão/Agência Brasil)

A esta altura, você já deve saber que o presidente Michel Temer decretou uma intervenção federal na área de segurança pública do Rio de Janeiro. O texto, assinado no começo da tarde desta sexta-feira (16), ainda precisa ser aprovado pelo Congresso, que deve fazê-lo a toque de caixa nos próximos dias, e foi negociado com o governador fluminense, Luiz Fernando Pezão. Com a medida, toda essa área passa ao comando do general Walter Braga Netto, que se reportará diretamente a Temer. Roberto Sá, que até esta manhã era secretário de Segurança do Rio, já pediu demissão. As primeiras reações à intervenção vão da esperança dos cariocas ao ceticismo dos críticos de formação esquerdista. Seu principal argumento é que o Exército é treinado para matar e, portanto, está decretada uma guerra que deixará mais mortos do que paz no Estado. Particularmente, vejo com desconfiança a intervenção, mas por outro motivo: simplesmente, ela não resolverá o problema.

Antes que chovam pedras, gostaria de deixar bem claro que compreendo e me solidarizo com os fluminenses. Se estivesse em seu lugar, também ficaria desesperado pela minha vida e das pessoas que amo, toda vez que saísse na rua para comprar pãozinho, sabendo que crianças morreram com balas perdidas justamente nesse trajeto trivial da casa até a padaria. Também clamaria por ordem, se um arrastão me alcançasse ou se criminosos fizessem uma blitz na minha rua para assaltar moradores. É humano, é compreensível, e só quem é vítima da violência cotidiana ou perdeu um ente querido – seja um civil, ou um policial – sabe o tamanho dessa dor. Isto posto, e em respeito a essa dor e a essa legítima busca por paz, é que afirmo que a intervenção do Exército terá efeitos mais midiáticos, publicitários, do que efetivos, no combate à bandidagem.

O espalha-roda

Primeiro, porque, até onde a vista alcança, as ações serão concentradas na cidade do Rio de Janeiro, a fim de retomar o controle de comunidades disputadas, literalmente, a tiros entre facções rivais de traficantes e milicianos. Mas, como você já pode adivinhar, a falha dessa estratégia é básica: apenas espalhará o tráfico para outras áreas do Rio e, depois, para outros estados. Nunca é demais lembrar que, já nestes dois primeiros meses, disputas de traficantes foram notícias em Angra dos Reis, num confronto que durou meio mês. Isso mostra o óbvio: a criminalidade precisa de um plano nacional de combate, e não de ações localizadas e espetaculosas. Caso contrário, tudo o que Temer e seu ministro da Defesa, Raul Jungmann, farão é espantar os criminosos de um lado para outro do Brasil. Depois que a capital fluminense for “pacificada”, quanto tempo demorará para que outro foco de violência estoure em alguma parte do país? O que dizer de Fortaleza, que, recentemente, foi palco de uma chacina com 14 mortos?

Segundo, a intervenção do Exército é apenas um torniquete vistoso para estancar uma hemorragia, cujas causas são mais amplas. Além da necessidade de um plano nacional de combate ao crime organizado, neste ponto é necessário escutar o que os críticos de esquerda dizem: a violência e a criminalidade não são apenas frutos da má índole de algumas maçãs podres. Elas nascem de um contexto bem maior. No caso do Rio, ele envolve décadas de exclusão social; uma forte queda na arrecadação de impostos nos últimos anos, decorrente da recessão e do recuo dos royalties do petróleo; uma casta de políticos corruptos que sambava de guardanapo na cabeça pelas ruas de Paris; uma polícia apodrecida e carcomida pela corrupção e pela bandidagem fardada; policiais honestos, mas mal equipados e ameaçados de morrer; e uma população espremida entre poucas opções de ganhar a vida – lembre-se de que, embora seja a segunda economia mais rica do país, o Rio depende muito de dois setores: petróleo e serviços públicos.

Cadê a bala de prata?

Amplie esse quadro para todos os estados brasileiros, com as devidas adaptações, e se pergunte: em que, honestamente, uma intervenção do Exército melhorará as perspectivas de emprego de alguém nascido numa comunidade carente? Como os soldados resgatarão a arrecadação de impostos, a fim de financiar melhorias na educação, saúde e segurança? O que, de prático, mudará nas vidas das comunidades sob intervenção? A resposta mais sincera é: haverá apenas uma sensação ilusória de segurança. O tiroteio, os traficantes ostentando fuzis, as mortes por balas perdidas sairão de cena, é verdade. Mas, não porque a criminalidade acabou, nem as graves condições que a geram, e sim, porque serão empurradas para debaixo do tapete. Assim que o Exército deixar o Rio, muito provavelmente, a violência, os tiros e a insegurança voltarão.

Não se trata de mau agouro. Infelizmente, trata-se apenas de distinguir um placebo de uma verdadeira cirurgia. É preciso muito mais para salvar o Rio – e o Brasil. A intervenção só será justificável se, rapidamente, as verdadeiras raízes da violência foram atacadas. Mas Temer, Pezão, Jungmann e companhia não parecem nem cientes, nem dispostos, a tanto.

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