POLíTICA

Por que Bolsonaro pode se tornar irrelevante, mas pelo motivo errado

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Maioria das bandeiras de Bolsonaro virou realidade em apenas um ano – e isto não é um mérito do Brasil. Muito pelo contrário...

Por que Bolsonaro pode se tornar irrelevante, mas pelo motivo errado

O presidenciável Jair Bolsonaro vive o momento mais delicado, até aqui, no caminho para o Planalto. De um lado, seu principal alvo na disputa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está bem mais perto de ser preso, do que de um terceiro mandato. Integrantes da Lava Jato e petistas graúdos admitem que são grandes as chances de que Lula vá para a prisão em março. De outro, a adoção de medidas fortes para combater a criminalidade foi encampada pelo governo de Michel Temer e expressa na intervenção na área de segurança pública do Rio de Janeiro. Sem ter quem atacar, nem bandeira a empunhar, a campanha de Bolsonaro periga murchar. Quem me acompanha aqui no Storia sabe da minha repulsa à sua candidatura e a tudo o que representa. E, justamente por isso, minha dúvida é se o Brasil está se transformando num imenso Bolsonaro – a ponto de não precisar mais do original.

Há, basicamente, três elementos que inflaram Bolsonaro para além do que merece: o antipetismo radical; o conservadorismo moral; o avanço da bandidagem (seja a do colarinho branco, seja a dos pés-de-chinelo). Vejamos o primeiro item. Como todo movimento que se aglutina em torno de palavras como “anti” e “contra”, os milhares de “cidadãos de bem” que desfilaram alegremente suas camisas verde-amarelas em grandes avenidas, Brasil afora, descobriram o óbvio: só havia uma coisa que os unia – a ojeriza ao PT, que passou a representar, para essas pessoas, tudo o que de mais execrável havia no país. Consciente ou inconscientemente, o antipetismo estabeleceu três objetivos: o impeachment de Dilma Rousseff; a prisão de Lula; o banimento político do partido (no limite, sua extinção judicial).

Balão de gás

Tais itens foram o estopim das mobilizações de rua lideradas por neófitos políticos, como Kim Kataguiri, Rogério Chequer, Alexandre Frota, Joice Hasselmann e outras figuras tão exóticas e grotescas, quanto os tempos atuais. Aglutinando todos os matizes da direita – de movimentos moderados de centro, a extremistas de direita como os anarcocapitalista e os intervencionistas que pregam um golpe militar, passando por monarquistas (?!?!), pastores evangélicos neopentecostais e os conservadores católicos da Opus Dei -, o “Fora Dilma” foi um prato cheio para populistas como Bolsonaro. Como dizem, a maré alta eleva qualquer barco – seja ele uma canoa furada, como o ex-militar, ou um transatlântico. Neste sentido, Bolsonaro foi apenas mais um que teve a sorte de ser elevado além de suas condições naturais pelas correntes de ar ascendente daqueles tempos quentes de antipetismo aguerrido.

O rápido ocaso das lideranças do impeachment (por onde andam Kataguiri, Chequer, Frota, Hasselmann e outros baluartes daqueles dias?) já sinalizava a falta de outras bandeiras que unissem a direita radical. Bolsonaro, no entanto, sobreviveu ao comprar (e vender) a ideia de que é o porta-voz desse movimento mais apto a representá-lo nacionalmente – e, sem nenhuma modéstia, lá do gabinete presidencial no Palácio do Planalto. Com Lula liderando a corrida eleitoral, o antipetismo passou para seu segundo objetivo – bani-lo da política nacional. Votar em Bolsonaro, neste sentido, era a melhor estratégia para esse pessoal, já que a via judicial parecia distante. Agora, com Lula perto de ser preso, mais um item da agenda comum será ticado.

Restaria o combate impiedoso às organizações criminosas – tanto as que infestam os morros cariocas, quanto as que infestam Brasília e os governos estaduais e municipais. A calamidade pública que atingiu o Rio de Janeiro neste ano era a última chama a alimentar a campanha de Bolsonaro. Somente um ex-capitão do Exército, no imaginário dos bolsonaristas, teria pulso firme e peito para enquadrar a bandidagem. Da mesma forma, somente ele, desvinculado de grandes partidos, teria coragem de aprisionar políticos graúdos por corrupção. Mas a Lava Jato, depois de um escorregão chamado Fernando Segovia, volta aos trilhos com Rogério Galloro. O presidente Michel Temer, sem opção, determinou a intervenção no Rio, criou o Ministério Extraordinário da Segurança Pública e colocou as tropas nas ruas.

O que lhe resta?

Em meio a tudo isso, Bolsonaro está mais perdido do que cego em tiroteio. Inicialmente, criticou a intervenção. Depois, se calou, por não saber o que dizer. A população carioca, horrorizada com a situação, está agradecendo o Exército (com ou sem razão). Criticar a medida, sem propor nada melhor, soa a oportunismo eleitoral e birrinha política. Bolsonaro voltou-se, então, para outra de suas zonas de conforto: atacar o PT. Viu, porém, seu arqui-inimigo abatido, prestes a ser preso. Não havia mais alvo para abater. Escolheu, agora, dispersar o bombardeio em alvos secundários – Ciro Gomes, Álvaro Dias e o governo Temer. Nada, porém, se igualaria à força de mobilizar todos contra Lula.

Resta-lhe apenas o conservadorismo dos costumes, mas isso nunca foi suficiente para eleger ninguém no País do Carnaval. Agarrado aos eleitores evangélicos, precisa posar de baluarte da moral e dos bons costumes – algo extremamente difícil para alguém que adora ser sexista (não estupra mulher que não merece ser estuprada; usa o auxílio-moradia para comer gente e outras idiotices...). O conservadorismo é irmão siamês do machismo, do sexismo, da homofobia etc etc. Mas Pablo Vittar é um sucesso nas paradas musicais, o machismo é tratado a merecidos pontapés por movimentos contra o assédio sexual e pelo empoderamento feminino; e conservadores de verdade detestam gente boca suja que fica “comendo gente” por aí.

A ironia da trajetória de Bolsonaro, nesta eleição, é que talvez o ex-militar se torne uma peça inútil na campanha até outubro, simplesmente porque a maioria de suas bandeiras virou realidade – e isso não é nenhum mérito do Brasil. Muito pelo contrário...