LAVA JATO

Por que Lula se cercou de tantos “traidores” e “mentirosos”?

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Segundo Lula, Palocci é praticamente um psicopata; por que, então, o ex-presidente lhe deu tanto espaço, confiança e prestígio?

Por que Lula se cercou de tantos “traidores” e “mentirosos”?

(Foto: J. Freitas - Agência Brasil/Wikimedia Commons)

Léo Pinheiro, Emílio e Marcelo Odebrecht, Delcídio do Amaral, Michel Temer... o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva gaba-se de ser um dos maiores políticos da história do Brasil. Como se sabe, bons políticos são astutos, sagazes, enxergam antes o que a massa não veria nem com binóculos a um palmo do nariz e sabem, sobretudo, lidar com gente. Esta é uma habilidade essencial, numa carreira em que ser tapeado pode ser mortal. Se isso é verdade, ou Lula é um caso raro de genialidade política incapaz de perceber que esteve cercado de traidores e mentirosos durante toda a sua vida, ou está queimando em praça pública antigos aliados para se salvar da Lava Jato. O último alvo é seu ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

Como já se sabe, Lula aproveitou o depoimento a Sérgio Moro, nesta quarta-feira (13), para atacar um petista histórico, filiado ao partido desde 1981. Sua declaração, palavra por palavra, foi:

Lula - (...) Eu conheço o Palocci bem. O Palocci, se não fosse um ser humano, ele seria um simulador. Sabe? Ele é tão esperto, que ele é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. Palocci é médico, é calculista, é frio...

Sérgio Moro (interrompendo) – Nada... Nada daquilo é verdadeiro, então?

Lula (encavalando a fala com Moro) – ... E ele... Nada...

Sérgio Moro (encavalando a fala com Lula) – Certo...

Lula (prosseguindo) - ...Nada. A única coisa que tem de verdade ali é dizer que ele está fazendo aquela delação, porque ele quer os benefício (sic) da delação. Ou, quem sabe, ele queira um pouco do dinheiro que vocês bloquearam dele.”

Para mostrar que fala com autoridade sobre o assunto, o ex-presidente inicia seu ataque ao ex-companheiro, afirmando que é seu amigo há 30 anos. Elogia sua contribuição ao Brasil, afirma que foi um dos quadros mais qualificados deste país e arremata com o “Eu conheço o Palocci bem.” Só após esse preâmbulo, que mostra a Moro e aos presentes quanto Lula compreende sua personalidade, é que os ataques são desferidos: “simulador”, “frio”, “mentiroso”. Ou seja, aos olhos de Lula, Palocci é praticamente um psicopata.

Sabe de tudo, inocente!

Lula não pode, portanto, dizer que foi enganado por Palocci. Afinal, ele próprio afirmou que, após três décadas de convívio, já conhecia o lado sombrio de seu companheiro. A pergunta mais óbvia, então, é: por que Lula cultivou uma amizade com alguém tão sinistro? É verdade que, às vezes, a vida nos obriga a conviver com pessoas desagradáveis, malas sem alças que precisamos suportar por algum tempo. Mas, na grande maioria das vezes, não nos gabamos de sermos amigos de gente assim – no máximo, a toleramos. Lula, contudo, foi além: não apenas cultivou a amizade com um Darth Vader de Ribeirão Preto, como lhe concedeu um papel central em seu governo. Por que se expor assim?

De duas, uma: ou Palocci não é nada disso que Lula pinta; ou essas péssimas qualidades de Palocci lhe foram muito úteis em algum momento. No primeiro caso, o traidor seria Lula, ao abandonar o amigo fiel aos leões da Lava Jato para se salvar. No segundo, o verdadeiro Maquiavel da história seria o próprio Lula, capaz de explorar o que há de pior nos amigos em proveito próprio – como na coleta de propina, alianças repugnantes e conchavos vergonhosos. Vá saber agora...

(Assista às declarações de Lula sobre Palocci entre 18 minutos e os 22 minutos)