POLÍTICA

Por que parte da direita defende Lula?

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Como dizia o Millôr Fernandes, para o vírus, a vacina é uma doença

Por que parte da direita defende Lula?

Abraço dos afogados: Temer e parte da direita estão com Lula (Foto: Beto Barata/PR)

A condenação, por unanimidade, de Luiz Inácio Lula da Silva pela segunda instância da Justiça Federal, nesta quarta-feira (25), não comoveu apenas petistas e simpatizantes. Parte da direita também recebeu com tristeza a decisão dos desembargadores que, além de manter o veredito de Sérgio Moro, ampliou a pena de 9 anos e seis meses para 12 anos e um mês. Do prefeito de Salvador, ACM Neto, ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passando pelo presidente Michel Temer, há muita gente que, em tese, se opõe a Lula, mas que, neste instante, critica a Justiça em solidariedade ao petista. Trata-se de um caso óbvio de esquizofrenia? Uma epifania sobre a arbitrariedade dos tribunais brasileiros? Uma conversão à esquerda? Crise de consciência? Nada mais longe da verdade. Parte da direita defende agora Lula, porque teme que seja punida com o mesmo rigor aplicado ao ex-presidente.

Um exemplo claro é o de Temer. Mesmo antes do julgamento em Porto Alegre, o presidente declarara que preferia que Lula fosse derrotado pelas urnas – e não impedido de concorrer, por conta de uma condenação colegiada, o que o tornou ficha suja e legalmente impedido de disputar o pleito em outubro. O atual inquilino do Palácio do Planalto justificou-se, dizendo que excluir Lula da campanha seria dar pretexto para que ele se fizesse de vítima e perseguição política. É um argumento razoável, não fosse por um detalhe: Temer está enrolado até o pescoço com a Lava Jato. Só não está sob investigação, porque a Câmara rejeitou dois pedidos da Procuradoria-Geral da República, numa movimentação que custou muitos milhões de reais em emendas parlamentares.

Se vale pra Lula, vale pra todos

Mas, a partir de 1º de janeiro do ano que vem, Temer descerá do Planalto para a planície dos pobres mortais, perdendo o foro privilegiado e se expondo ao rigor das primeira e segunda instâncias de Justiça. Se a investigação sobre as denúncias que lhe pesam sobre os ombros for adiante, é possível que o atual presidente se complique ainda mais com a Lava Jato. Vai saber se, lá pelo fim de 2019, o emedebista não esteja condenado na primeira instância? Por via das dúvidas, é melhor e mais vistoso posar de defensor do Estado Democrático de Direito e criticar as supostas arbitrariedades de Moro e dos desembargadores gaúchos.

Rodrigo Maia, que acalenta o sonho de ser o sucessor de Temer na presidência, também tem muito o que explicar. Para quem não se lembra, o deputado aparece em delações e documentos do setor de operações estruturadas da Odebrecht (que se tornou conhecido como o setor de propinas do grupo). Seu apelido, nas planilhas, é “Botafogo”. Ele é acusado, por delatores da empreiteira, de receber dinheiro ilícito para sua campanha. Com Lula fora do jogo, a força-tarefa da Lava Jato passará a limpo outros casos, como o do próprio Maia. Se Lula, que ainda hoje é o maior líder da esquerda, capaz de atrair legiões de fanáticos defensores, foi condenado por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e ocultação de patrimônio, mesmo “sem provas”, como sustentam a militância raivosa e a defesa, imagine o que pode ocorrer com Maia...

Cura ou veneno?

Tudo isso é condensado, na imprensa, por “jornalistas” como Reinaldo Azevedo. Um ferrenho opositor da esquerda, o colunista da Folha de S.Paulo publicou um artigo, nesta sexta-feira (26), em que ataca a condenação de Lula por Moro e pelo Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. Para ele, simplesmente não há provas que justifiquem a decisão e, por isso, só restam dois caminhos ao Brasil: insistir no erro e enterrar o Estado Democrático de Direito, ou reconhecer os erros no caso de Lula e assumir que se tratou de um “julgamento de exceção”.

É claro que Azevedo não escreveu isso por dó do ex-presidente. O colunista é um dos que mais reverberam a voz da direita (incluindo, sobretudo, a sua banda podre) na imprensa nacional. Quem fala pela sua boca não é sua consciência, mas o medo de que o rigor judicial contra a corrupção atinja, agora, as suas fontes ou, para ser mais claro, os seus aliados. Afinal, como dizia o Millôr Fernandes, para o vírus, a vacina é uma doença...