ECONOMIA

Por que Trump deveria baixar o topete ao falar da China

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China é a maior credora do governo americano. Já imaginou se o país para de financiar o governo Trump?

Por que Trump deveria baixar o topete ao falar da China

Topetudo: Trump dá passos temerários diante dos chineses (Foto: Divulgação/Facebook)

Para quem achava que Donald Trump não tinha mais sustos a oferecer ao mundo em 2017, o presidente americano provou o contrário. Nesta segunda-feira (18), Trump apresentou sua política de segurança nacional. O que se viu foi um festival de patriotismo de quinta categoria, mas o mais preocupante foram os “inimigos” escolhidos pelo republicano. Nada de fundamentalistas islâmicos, terroristas ou narcotraficantes. Os rivais na sua mira são a China e a Rússia. Segundo Trump, ambas “estão determinadas a se tornar economias menos livres e menos justas, a expandir suas forças militares e a controlar informações e dados para reprimir suas sociedades e expandir sua influência.” Fiel ao seu bordão de campanha (“America First”, ou “América em Primeiro Lugar”, numa tradução livre), Trump tem todo o direito de escolher o rival que quiser. O problema é que, no caso da China, os EUA estão mordendo a mão que os alimenta. Os americanos dependem muito mais dos chineses, do que a fanfarronice de Trump leva a crer.

Há dois principais modos de um país depender de outro: comercialmente e financeiramente. O primeiro caso refere-se, sobretudo, às trocas comerciais entre empresas privadas – a boa e velha balança comercial de produtos e serviços. Há, pelo menos, 20 anos que os americanos registram crescentes déficits comerciais com a China. O dado mais antigo do Departamento de Comércio dos EUA é de 1985. Naquele ano, as perdas americanas foram de irrisórios US$ 6 milhões, compostas por US$ 3,856 bilhões em exportações e US$ 3,862 bilhões em importações. Desde então, porém, o prejuízo disparou. Em 2016, o rombo foi de pouco mais de US$ 347 bilhões. Já no acumulado até outubro deste ano, o prejuízo com a China soma US$ 309 bilhões, oriundos de US$ 103,982 bilhões exportados e US$ 412,970 bilhões importados.

Made in China

O fato é que, hoje, a China é a maior parceira comercial dos EUA – bem como de grande parte do mundo. Traduzindo: muito do que os americanos compram é fabricado pelos chineses por uma série de motivos, como a mão-de-obra barata. Até mesmo ícones do capitalismo americano, como a Apple e a Nike, fabricam lá e apenas vendem a seus conterrâneos. Trump disse, claramente, que pretende impor pesadas taxas de importação a produtos chineses, com o objetivo de desestimular seu consumo. O objetivo, claro, é incentivar a indústria local. Não há nada de errado nisso, mas há custos. O mais óbvio é que o consumidor pagará mais caro por aquilo de que precisa. Tarifas de importação só funcionam, quando tornam as mercadorias estrangeiras mais caras que as nacionais. Assim, se a Nike consegue importar um tênis da China e vendê-lo nos EUA, com lucro, por US$ 10, só há três saídas.

Na primeira, a Nike assume o aumento da taxa de importação, corrói seu lucro e mantém o preço final de US$ 10 ao consumidor. Neste caso, os americanos são penalizados, ao verem uma empresa com sede no país lucrar menos, pagar menos impostos etc. A alternativa é a Nike manter sua margem de lucro e repassar a taxa de importação aos compradores. O preço sobe, as vendas caem, menos gente tem renda para comprar tênis. Há inflação, exclusão de consumidores e, no limite, menos lucro, menos impostos. A última opção é ampliar a produção de tênis nos EUA, como deseja Trump. Prós: geração de emprego e renda. Contras: para arcar com custos maiores de produção no país, a Nike cobra mais caro dos consumidores ou abre mão de parte do lucro. No limite, o país continua com uma produção ineficiente, que se traduz em preços mais altos para os clientes ou menor lucratividade – exatamente o oposto do que uma economia de mercado busca.

Por último, é óbvio que os chineses não assistirão sentados à imposição de sobretaxas a seus produtos. A forma mais simples e imediata de reação é... aumentar as tarifas de importação das mercadorias americanas. Neste ponto, quem sai perdendo são os EUA. Como justificar, para os empresários locais, a perda de competitividade em seu maior mercado externo? Para onde os EUA desviarão as exportações retaliadas pela China, se Trump insiste em uma política comercial isolacionista? Tentará forçar a barra na América Latina? Na Europa? Na África? Qual o interesse dessas regiões em comprar produtos americanos mais caros que os chineses? Lembrando que a China é, hoje, a maior compradora de artigos do mundo. Estrategicamente, nenhum país quer se indispor com ela, sob o risco de perder um cliente e tanto.

Manda quem tem dinheiro

A segunda forma de dependência de um país é a financeira. Também neste ponto, os EUA estão em desvantagem. A China é, atualmente, a maior credora externa do governo americano. Em outubro, os chineses detinham nada menos que US$ 1,189 trilhão (sim, trilhão) em títulos públicos americanos. O Japão vem em segundo lugar, com US$ 1,093 trilhão. Em bom português, é o dinheiro da China que financia grande parte do funcionamento da máquina pública dos EUA. Sem o capital de seu “inimigo”, os americanos estariam na pindaíba. Não custa lembrar que a previsão é que a gestão Trump encerre 2017 com um déficit fiscal (tudo o que o governo arrecada, menos tudo o que gasta) de diabólicos US$ 666 bilhões.

Se Trump insistir em hostilizar a China, terá de fazer um belo número de malabarismo fiscal, digno dos melhores circos chineses. Já imaginou se Xi Jinping resolve, apenas por curiosidade, deixar de comprar títulos públicos americanos? Além disso, o presidente chinês é a maior esperança americana para conter o maluco ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-Un. Apenas para refrescar a memória: trata-se daquele “gordo e baixo” (palavras de Trump) que desenvolve um programa nuclear e cujos mísseis já podem atingir o Japão, segundo maior financiador da dívida americana. Sun Tzu, o general chinês que viveu há 2 mil anos e virou guru de gestão de executivos americanos, dizia que a melhor vitória é aquela em que se vence o inimigo sem sequer lutar. Trump resolveu cutucar um dragão com vara curta. Precisa, com urgência, de um pouco de sabedoria chinesa.