POLÍTICA

PT revisa a História e conclui que Collor não merecia o impeachment...

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A dúvida é: não merecia, porque era um caso insignificante em si mesmo; ou porque provou ser “café pequeno”, diante do mensalão e do petrolão?

Elle não está mais só: o senador petista Paulo Paim agora é seu companheiro (Foto: Marcos Oliveira/Ag. Fotos Públicas)
Elle não está mais só: o senador petista Paulo Paim agora é seu companheiro (Foto: Marcos Oliveira/Ag. Fotos Públicas)

Só faltava essa: uma figura proeminente do PT faz desgravo público ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, primeiro eleito após a redemocratização e primeiro cassado após a redemocratização. Segundo o Estadão deste domingo (18), em sessão no Senado, o petista gaúcho Paulo Paim interrompeu um discurso de Collor para fazer um mea-culpa. O senador do PT afirmou que, se fosse hoje, “pensaria dez vezes antes de votar” pelo seu impeachment, cuja maior prova material foi um veículo Fiat Elba. Ao que Collor emendou: “uma carroça”. A que Paim concordou: “uma carroça.” Como não houve reprimenda pública da direção nacional do PT a Paim, é de se supor que a avaliação é compartilhada pelos companheiros ou, pelo menos, Collor não é mais o bicho-papão de outrora. É bom lembrar ainda que Collor é pré-candidato à presidência pelo nanico PTC.

Mais do que uma pitoresca nota política dominical, a declaração de Paim é mais um atestado da deterioração moral e ética do PT, que, por muitos anos, representou a esperança de milhões de brasileiros de mais responsabilidade no trato da coisa pública. Sob o pretexto de que o exercício do poder não comportava idealismos juvenis, os petistas subiram a rampa do Planalto com uma “realpolitik” de orelha de livro, de verbete de Wikipedia, defendendo alianças indefensáveis com os demônios que exorcizavam até pouco tempo atrás. Collor foi um deles. Em algum ponto dos governos petistas, o “ex-caçador de marajás” se transmutou num aliado do ex-presidente e ex-rival Luiz Inácio Lula da Silva, para perplexidade de muitos que acreditavam que o PT traria algo realmente novo ao governo.

Tempo, senhor da Razão?

Paim foi um dos mais aguerridos defensores de Dilma, durante o processo de impeachment que a tirou do poder em 2016. Em 1992, quando votou pela cassação de Collor, era deputado federal. Viveu, portanto, os dois lados do processo: como oposição e como tropa de choque de um governo em vias de ser defenestrado pelo Congresso. Vinte e quatro anos depois, o desagravo a Collor mostra o quanto o PT regrediu. Antes, um veículo comprado para o presidente, e pago com dinheiro de corrupção, era motivo para pô-lo para fora do Planalto (ainda que o carro fosse uma “carroça”). Agora, isso seria apenas uma escorregadela, aos olhos do petista.

É de se perguntar se Paim reviu suas convicções porque, desde então, testemunhou muitos e mais sérios crimes contra os cofres públicos, ou se, realmente, concluiu que a cassação de Collor foi um ato extremado em si mesmo. Ou, em bom português: Collor era apenas um “café pequeno”, diante dos mensalões e petrolões posteriores, ou sempre foi um bom moço injustiçado inclusive pelo PT. Alguém arrisca um palpite?