ECONOMIA

Quase 27 milhões de pessoas querem trabalho. Isso é melhorar a economia?

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Por trás das otimistas planilhas de Brasília, estão milhões de pessoas em condições precárias

Quase 27 milhões de pessoas querem trabalho. Isso é melhorar a economia?

(Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Cada vez que o presidente Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, batem bumbo anunciando que saímos do inferno econômico e estamos às portas do paraíso do crescimento, aparece um número para desmenti-los. Nesta sexta-feira (17), foi a vez do IBGE informar que a tão badalada queda da taxa de desemprego não merece tanto foguetório. O motivo é, mais uma vez, a baixa qualidade dos empregos que foram gerados nos últimos meses. Segundo o instituto, 26,8 milhões de pessoas procuravam alguma ocupação ou gostariam de trabalhar mais horas por dia. O contingente representa 23,9% da força de trabalho – aquela constituída por pessoas com 14 ou mais anos.

É verdade que a taxa de desocupação (o popular desemprego) vem baixando. No fim de setembro, 12,9 milhões de pessoas não exerciam nenhuma atividade remunerada, ante os 13,4 milhões em junho. Mas, como já insisti em outros textos para o Storia, é preciso muito cuidado com o que os números escondem. Primeiro, já se sabe que a queda do desemprego é puxada, sobretudo, pelo aumento do mercado informal de trabalho – o famoso “sem carteira assinada”. Seja por um bico, seja por um emprego temporário ou qualquer outro meio, os brasileiros simplesmente estão se virando para ganhar algum dinheiro e tocar a vida.

O que os números não contam

O que os números desta sexta mostram é a quantidade de pessoas que não conseguem se desenvolver plenamente nesta “retomada” da economia. A taxa de subutilização do IBGE é composta por três números. O primeiro é o total de desocupados – aqueles 12,9 milhões. Mas eles representam apenas 48% do total de subocupados. O segundo maior componente são os 7,525 milhões de pessoas que querem trabalhar, mas nem se animam a procurar um emprego, dada a crise. É o que, antigamente, se chamava “desemprego por desalento”. A pessoa simplesmente desistiu de buscar uma oportunidade, depois de tantas portas fechadas. É bom que se diga que esse número está subindo, a cada trimestre, desde o período de julho a setembro de 2014, quando 4,084 milhões se encontravam nessa situação.

O último dado que completa o quadro são os 6,3 milhões de pessoas que trabalham menos do que gostariam. São o que o IBGE chama de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas. Em bom português: gente que está sobrevivendo de empregos de meio período, ou remuneradas por hora, cumprindo jornadas pequenas que não geram renda suficiente para atender as suas necessidades. Trata-se de outro número que subiu trimestre a trimestre, desde o período entre abril e julho de 2014, quando era de 4,439 milhões.

Retomando, temos então: desemprego caindo às custas de trabalho precário e informal; gente que desistiu de procurar uma ocupação, embora queira voltar ao mercado; pessoas trabalhando menos do que precisam ou querem; e quase 13 milhões de desempregados. O problema de Brasília é que planilhas de Excel não têm cheiro, cor, voz, rosto, nem contas para pagar, famílias para sustentar, uma vida para tocar, nem sonhos para realizar. Trazem apenas números esterilizados, assépticos, que não sentem medo do futuro, nem fome. São eles que alegram Temer e Meirelles. Mas são os 26,8 milhões de subocupados que votarão em 2018. Quem conseguirá convencê-los de que a economia melhorou mesmo?