POLÍTICA

Quem comemora prisão de Lula também não sabe votar

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Desde 1989, todos os candidatos apoiados pelos “cidadãos de bem” devem tantas explicações à Justiça, quanto Lula. A pergunta, portanto, é: estão rindo de que, mesmo?

Lembra dele? Por onde andam os 51 milhões de "cidadãos de bem" que votaram em Aécio, aquele que pediu R$ 2 milhões à JBS? (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)
Lembra dele? Por onde andam os 51 milhões de "cidadãos de bem" que votaram em Aécio, aquele que pediu R$ 2 milhões à JBS? (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, consumada por volta das 23h de sábado, quando finalmente chegou à sede da Polícia Federal de Curitiba, mereceu mais foguetório, buzinaço e gritos de viva que a vitória do Corinthians sobre o Palmeiras, no dia seguinte, sagrando-o campeão paulista de 2018. Pelo menos, aqui no bairro de classe média paulistana para o qual me mudei seis meses atrás. É de se supor que, diante das imagens da prisão do “chefe da organização criminosa”, os “cidadãos de bem” sentiram-se de alma lavada. Mas, francamente, não deveriam – nem de longe. Há vários motivos para sentirem-se tão envergonhados quanto os petistas, mas vamos ficar no mais básico do básico: os “cidadãos de bem” votaram em candidatos tão enrolados na Justiça, quanto Lula, desde a redemocratização. Em suma, são os sujos malhando os mal lavados.

Comecemos pela primeira eleição da Nova República, aquela em que Fernando Collor de Mello derrotou Lula no segundo turno com 53% dos votos válidos. Além do desastre do confisco da poupança, que traumatizou a classe média e alta que o haviam posto lá, viu-se depois que Collor dividia-se entre caçar marajás para entreter os eleitores, enquanto levava uma vida nababesca na Casa da Dinda, sua residência em Brasília, reformada com dinheiro desviado dos cofres públicos por seu braço-direito, o nebuloso Paulo César Farias. Ato contínuo, foi denunciado pelo próprio irmão, Pedro Collor, e flagrado com uma Elba (que ele ainda insistiu, recentemente, tratar-se de uma “carroça”) comprada com dinheiro sujo. Renunciou para escapar do impeachment nos últimos minutos da votação, mas não escapou do processo e da perda de seus direitos políticos. Corrupção 1 X 0 “Cidadãos de Bem”...

Privataria

Veio Fernando Henrique Cardoso, derrotando Lula já no primeiro turno com 54% dos votos válidos em 1994. Quatro anos depois, repetiria a dose com 53%. Há o grande e inegável mérito de FHC e sua equipe econômica terem, finalmente, derrotado a hiperinflação – o pior dos castigos para os mais pobres. Mas as privatizações conduzidas em seu governo ainda são cercadas de suspeitas, teorias de negociatas escusas alimentadas pelo vazamento de conversas entre ministros, nas quais citavam-se nominalmente consórcios que deveriam participar. Para deleite da esquerda, cunhou-se o termo “privataria tucana” para definir os ainda mal explicados passos das privatizações. Por fim, houve o vergonhoso episódio da compra de votos para aprovar a emenda da reeleição de FHC, que contou com o apoio do então todo-poderoso presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, que admitiu ter acesso à lista de votação dos parlamentares – algo que, na época, deveria ser secreto justamente para evitar pressões indevidas. Corrupção 3 X 0 “Cidadãos de Bem...”

Veio, então, a era petista. Lula foi eleito e reeleito em 2002 e 2006. Dilma, sua invenção, venceu em 2010 e em 2014 – para se tornar a segunda presidente da redemocratização a sofrer um impeachment. Corrupção 3 X 1 “Cidadãos de Bem”...

Mas nos concentremos nos derrotados: os tucanos José Serra (2002 e 2010), Geraldo Alckmin (2006), e Aécio Neves (2014). Nos jornais do fim de semana e desta segunda-feira (09), começaram a circular as preocupações tucanas com a prisão do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, mas, sobretudo, conhecido por ser o operador dos tucanos no esquema de propinas nas obras do rodoanel de São Paulo. A possibilidade de uma delação premiada gela a espinha sobretudo de Alckmin e Serra, já que as obras foram feitas no Estado que dominam há anos. Mas há outros episódios de corar velhinhas empurrados para baixo do tapete pela mídia e pelos “cidadãos de bem”: o cartel de trens montado com a Alstom e a Siemens, por exemplo. Corrupção 5 X 1 “Cidadãos de Bem”...

Goleada

Já Aécio, o tucano que chegou mais perto de acabar com a era petista, acuando Dilma até o último minuto da eleição de 2014 e conquistando 48% dos votos válidos, está enrolado com seus próprios malfeitos. De maior líder da oposição pós-outubro de 2014 à ojeriza pública, bastou que fosse divulgado o áudio de uma conversa bastante descontraída com o empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS e já preso pela Lava Jato. Entre palavrões (descobriu-se que, no aconchego de sua vida privada, o senador tucano é um grande boca-suja), pediu descaradamente R$ 2 milhões para Joesley – e recebeu! Agora, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, tenta convencer o STF a torná-lo réu na Lava Jato. Por onde andam os 51 milhões de camisas verde-amarelas que votaram nele? Evaporaram... Corrupção 6 X 1 “Cidadãos de Bem”...

Ah, mas a prisão de Lula redimiu todos os pecados! O bode expiatório (ou o sapo barbudo expiatório, conforme a cor da camiseta que o leitor veste) levou junto todos os crimes do Brasil para sua cela de 15 metros quadrados em Curitiba. A partir de agora, revogam-se todos os malfeitos, desvios e patrimonialismos! Corrupção 6 X 2 “Cidadãos de Bem”...

Convenhamos... a pergunta mais simples é: estão comemorando o que mesmo?