ECONOMIA

Quer acabar com o Bolsa Família? Exija ensino público de qualidade

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A baixa escolaridade é, de longe, o principal grilhão que prende essas pessoas à pobreza e, por tabela, à ajuda do Estado

Quer acabar com o Bolsa Família? Exija ensino público de qualidade

Escola para todos: a riqueza vem daí (Foto: Gercom Barreiro/Prefeitura de BH)

Maior legado dos governos petistas, o Bolsa Família enraizou-se como o principal programa social brasileiro dos últimos anos. O cuidado com que os políticos se referem a ele foi visto, por exemplo, na campanha presidencial de 2014. O tucano Aécio Neves e os demais rivais de Dilma Rousseff fizeram o possível para assegurar que não mexeriam no programa, ao contrário do que os marqueteiros petistas propagavam. Mesmo após o naufrágio de Dilma, o Bolsa Família segue seu caminho sob Michel Temer, mas é inevitável que seja duramente questionado por alguns candidatos ao Planalto no ano que vem, arrastando parte do eleitorado. Seus argumentos não serão novidade. Talvez você seja um deles. Mas, se quiser mesmo acabar com o Bolsa Família, há um modo muito mais responsável e produtivo: exija pesados investimentos para que o Brasil tenha um ensino público de primeiro mundo.

É o que mostram os números divulgados nesta quarta-feira (29) pelo IBGE. Nada menos que 62,4% dos beneficiados pelo programa não completaram o ensino fundamental – sendo que, destes, 11% não cursaram nem um ano sequer. A baixa escolaridade é, de longe, o principal grilhão que prende essas pessoas à pobreza e, por tabela, à ajuda do Estado. Há dois motivos óbvios para isso. O primeiro é que parte das crianças e adolescentes pobres simplesmente abandona a escola (ou sequer entra em uma) para trabalhar e ajudar no sustento da família.

Antes que os ogros de Facebook babem bobagens como “só não estuda quem não quer”, aí vai um dado: o mesmo IBGE divulgou também que 1,8 milhão de meninos e meninas trabalham atualmente, quando deveriam estar na escola preparando-se para um futuro melhor. Por último, se mesmo isso não convence o hater de rede social, uma pergunta simples: que condições físicas e mentais tem essa criança, após uma jornada de trabalho, para estudar e absorver tudo o que viu? “Trabalhar e estudar não mata ninguém”, gritarão. É verdade. Este jornalista, durante muito tempo, trabalhou e estudou à noite. Eu deveria ser uma prova viva de como esforço e vontade nos levam longe. Mas aí, entra o segundo fator: a péssima qualidade do ensino público.

Anemia educacional

Ao contrário da maioria da população, tive a sorte de cursar boas e raríssimas escolas públicas (não, não fui filhinho de papai que estudou em escola particular). Mas a realidade é que as redes estadual e municipal, que (des)educam o grosso da população, estão abandonadas há décadas. A última pesquisa Pisa, maior referência do mundo sobre educação, colocou o Brasil em 63º lugar entre 70 países pesquisados. Somos um vexame em qualquer área avaliada: leitura, ciências e matemática. Então, mesmo que a coitada da criança se esfalfe o dia todo num trabalho (o que já é errado) e consiga chegar minimamente acordada para um curso noturno, tudo o que verá é sistema de ensino falido, com professores mal preparados e mal remunerados, desmotivados e sem recursos. Isso, quando a escola não for fechada pelo toque de recolher de algum traficante da favela, ou não for roubada.

É muito fácil, para os pretensos defensores do Estado mínimo e do liberalismo econômico radical, praguejar contra programas sociais. Evocam princípios de uma meritocracia que, na verdade, é darwinismo social para justificar a diferença entre ricos e pobres. Não percebem, infelizmente, que ao demonizar o Estado, opõem-se ao único instrumento capaz de reverter essa situação e arrancar uma parcela significativa da população da pobreza, por meio de uma educação digna. Só assim, um dia, assistiremos ao fim do Bolsa Família – e pelas vias certas.