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R$ 191 milhões para te convencer de que as Forças Armadas também têm corrupção

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“As Forças Armadas não estão imunes à corrupção. O crime existe. Tanto existe, que nós estamos aqui”, diz o procurador-geral do MPM, Jaime Cassio de Miranda

R$ 191 milhões para te convencer de que as Forças Armadas também têm corrupção

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A honestidade inabalável das Forças Armadas é um dogma defendido até à morte por duas das seitas políticas mais fanáticas dos últimos tempos: a dos adoradores da Sagrada Intervenção Militar Constitucional (também conhecida como a Igreja dos Últimos Dias da Democracia) e a dos apóstolos de São Jair Bolsonaro, cultuado pelo Templo dos Patriotas do Brasil que Nunca Houve. Em comum, seu livro sagrado prega que militares são imunes ao pecado capital da avareza – aquele apego excessivo aos bens materiais. Para eles, a farda, como o hábito dos monges e a túnica papal, seria uma proteção automática às tentações mundanas. Mas, para seu desespero, não param de surgir exemplos de profanadores dessas autodeclaradas verdades eternas. A última é uma reportagem especial publicada pela Folha de S.Paulo deste domingo (22), que constatou, pelo menos, R$ 191 milhões em fraudes e corrupção nas casernas.

Os números não foram passados por nenhuma melancia (verde por fora, vermelha por dentro) infiltrada nos quartéis. Saíram do Ministério Público Militar (MPM) e do Superior Tribunal Militar (STM), os supremos guardiães da moralidade no trato com o dinheiro público, dentro das Forças Armadas. Os casos vão desde cobrança de propinas, desvio de dinheiro e de combustíveis, roubo de peças até o surreal casamento de um sogro, militar aposentado prestes a morrer, com a nora para que ela herdasse sua pensão. Mais Nelson Rodrigues do que isso, impossível... “As Forças Armadas não estão imunes à corrupção. O crime existe. Tanto existe, que nós estamos aqui”, afirmou o procurador-geral do MPM, Jaime Cassio de Miranda, à Folha.

A situação faz (mesmo) o ladrão

A bem da verdade, Miranda reforçou que, até o momento, não há indícios de corrupção sistêmica nas Forças Armadas – algo como uma grande organização criminosa, embora o procurador também diga que pequenas organizações foram desbaratadas. Alguém, obviamente, usará esse trecho para praguejar contra este jornalista, dizendo que, mais uma vez, tentam agredir a honra militar baseado em poucos casos de exceção (tudo isso, claro, permeado de palavrões e erros de português, gramática e outros barbarismo com a língua que eu, particularmente, acho muito mais ofensivos – mas é a vida...). A eles, recomendo a leitura de um belo livro sobre como pessoas boas podem fazer maldades terríveis. Trata-se de O Efeito Lúcifer, do psicólogo comportamental americano Philip Zimbardo e publicado no país pela Record.

Trata-se de um extenso relato de um estudo clássico: o Experimento da Prisão de Stanford. Nos anos 60, Zimbardo liderou uma equipe de pesquisadores com o objetivo de descobrir como se davam as relações de poder entre guardas e prisioneiros. Para tanto, simulou uma prisão no subsolo do Departamento de Psicologia de Stanford e recrutou voluntários por meio de anúncios de jornal. Após avaliá-los detalhadamente, selecionou aqueles mentalmente saudáveis e sorteou seu papel no experimento com base no cara-e-coroa. A simulação deveria durar duas semanas, mas foi interrompida ao fim da primeira. Por quê? Porque Zimbardo descobriu muito mais do que esperava. Até seu estudo, havia um consenso de que a maldade era um traço de personalidade, isto é, nascia-se bom ou mau. O que Zimbardo encontrou foi outra coisa: a força das circunstâncias leva pessoas “boas” a cometer crueldades dignas de nazistas.

Quando o mal vira normal

O que isso tem a ver com a corrupção nas Forças Armadas e com o dever de nunca idealizarmos sua honestidade? Simplesmente tudo. Primeiro: tendemos a violar a lei, quando nossa individualidade é diluída numa grande corporação, por meio de uma grande cadeia de comando. Há vários motivos para isso – da garantia de impunidade até a transferência da responsabilidade para terceiros (o famoso “estava apenas cumprindo ordens”). Segundo: grandes organizações tendem a reforçar nosso sentimento de que somos “mais humanos” que os que não pertencem a ela. Há vários exemplos na História: de jesuítas defendendo que negros e indígenas não tinham alma e, portanto, castigá-los era o mesmo que chicotear um animal, a nazistas matando judeus e hutus exterminando tutsis em Ruanda. Nada melhor, para alguém com baixa autoestima, do que lhe dizerem que ele está no time dos “vencedores”, não é mesmo? Mesmo que os vencedores sejam corruptos.

E, para que não haja dúvidas, Zimbardo dedica algumas páginas à tortura no Brasil na época da ditadura. Em vez de sádicos compulsivos, Zimbardo e sua equipe observaram que os torturadores entrevistados eram perfeitamente normais, psicológica e psiquiatricamente. “Suas transformações foram inteiramente explicáveis como consequência de uma série de fatores situacionais e sistêmicos, tais como o treinamento que lhes foi dado para poderem representar esse novo papel”. Resumindo: você, intervencionista, bolsonarista ou saudosista da ditadura, pode até achar que está imune ao mal; pode até ser um bom pai, marido e cidadão, mas nunca se esqueça de que a farda é uma camuflagem com o objetivo de nos confundir com o ambiente. Se o ambiente começar a se tornar gradualmente mais corrupto, lá pelas tantas, sua farda estará da cor de notas de dinheiro – e você estará matando quem tiver a coragem de denunciá-lo, em nome da "ordem, da moral e dos bons costumes".