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Rachel Sheherazade repudia Bolsonaro: esquizofrenia ou hipocrisia?

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Quem não se lembra da campanha “Adote um bandido”, lançada pela apresentadora para criticar os direitos humanos?

Rachel Sheherazade repudia Bolsonaro: esquizofrenia ou hipocrisia?

Cadê o espelho? Sheherazade é mais parecida com Bolsonaro do que diz (Foto: Divulgação)

Só faltava essa: em entrevista à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo desta sexta-feira (19), a apresentadora Rachel Sheherazade afirma que “nunca teve empatia política” pelo presidenciável e ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro. Uma das âncoras do telejornal SBT Brasil, como se sabe, Sheherazade foi alçada ao posto de uma das mais conhecidas e influentes vozes da extrema direita no Brasil, devido à sua defesa de temas como o fim do estatuto do desarmamento, a firme repressão policial ao crime, as virulentas críticas ao PT e à esquerda em geral, e a defesa do cristianismo. Era natural que os eleitores de Bolsonaro se identificassem com suas ideias. Essa lua-de-mel, contudo, acabou há alguns dias, quando ela compartilhou, nas redes sociais, reportagens da Folha denunciando graves desvios do presidenciável. Sheherazade passou a ser atacada impiedosamente pelos fanáticos bolsonaristas – o que não deixa de ser irônico, já que está agora provando do próprio veneno da intolerância.

O fato, contudo, é que a apresentadora (me recuso a chamá-la de jornalista e, portanto, de minha colega de profissão) é uma das grandes responsáveis por alimentar o clima de retrocesso conservador que infla a candidatura de Bolsonaro. Desde 2011, quando chamou a atenção do “patrão” Silvio Santos e ganhou a bancada do SBT Brasil, Sheherazaede caiu nas graças de conservadores, intervencionistas, reacionários, cristãos radicais e demais grupos desse naipe. E não é por menos. Basta lembrar de algumas de suas declarações mais polêmicas.

Bolsonaro de saia

Em fevereiro de 2014, por exemplo, ela causou um verdadeiro reboliço ao apoiar o linchamento de um homem acusado de roubo no Rio de Janeiro. Sua imagem, amarrado nu a um poste, chocou entidades de direitos humanos mundo afora. A apresentadora, como era de se esperar, deixou bem claro o que pensava na ocasião. Em seu blog e na bancada do programa do SBT, disparou: “aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho no poste, lanço uma campanha: ‘Façam um favor ao Brasil. Adote um bandido!’”

Soa familiar? Será que Bolsonaro diria a mesma coisa? Será? Será? Este não é o único ponto em comum entre os dois. Sheherazade é contra o aborto, contra a legalização das drogas e adora provocar ateus. Cristã, em uma dessas ocasiões, afirmou que os ateus não sabem o que dizem porque, sem Deus, eles sequer estariam no mundo. Sem dúvida, é um direito de qualquer um sustentar publicamente suas crenças, por mais controversas que sejam e por mais que discordemos de muitas ou de todas. Faz parte da democracia. O que causa estranheza, aqui, é a falta de coerência de Sheherazade. É um direito seu não votar em Bolsonaro (para mim, aliás, é até um favor), mas falta uma bela e sonora autocrítica da apresentadora do SBT. Por acaso, ela não se deu conta de que suas ideias e manifestações naquela bancada foram importantes para alimentar essa criatura que agora rejeita? De duas, uma: ou ela é clinicamente esquizofrênica, ou é hipócrita mesmo. Façam suas apostas.