DINHEIRO

Recorde da Bolsa brasileira é delírio coletivo dos investidores

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Nenhum fundamento macroeconômico justifica as sucessivas altas da bolsa nesta semana

Olhar viciado: por voluntarismo ou oportunismo, gestores brincam com nosso dinheiro (Foto: Matt Neale/Fickr)
Olhar viciado: por voluntarismo ou oportunismo, gestores brincam com nosso dinheiro (Foto: Matt Neale/Fickr)

Só uma coisa explica, realmente, os sucessivos recordes da bolsa de valores brasileira: delírio coletivo. Na mesma semana em que a Fitch, uma das maiores agências de classificação de risco do mundo, rebaixou a nota de crédito do Brasil, o Ibovespa, o principal indicador da bolsa, bateu em 87.293 pontos – o máximo que já alcançou na sua história. Os investidores simplesmente ignoraram os fatos preocupantes que minam a confiança na retomada consistente de nossa economia, e para os quais as agências de risco, a imprensa e outros observadores estão roucos de chamar a atenção. Na área de psicologia comportamental e ciências cognitivas, isso tem um nome: viés de refutação. Traduzindo para o português, é pura e simplesmente a negação da realidade. E é com base nela, que gestores e banqueiros brincam com o seu dinheiro.

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Esse é só um lado dessa história. Confira outro:

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Todos os investidores e gestores de carteiras entrevistados nesta semana afirmam que já haviam previsto tudo: o rebaixamento das notas de crédito, o fim da ilusão de que Michel Temer aprovará a reforma da previdência, o rombo fiscal deste ano etc. Com premonições de dar inveja a qualquer Mãe Dinah, economistas e analistas de mercado parecem ver o que não vemos e, portanto, seguem confiantes rumo à luz, onde nós, pobres mortais, só enxergamos trevas. Mas, sinceramente, creio que a capacidade deles de distinguir fantasmas de fadas-madrinhas é tão pequena, quanto a nossa.

Sem viseiras

Primeiro, alegam que os números da economia finalmente começaram a melhorar. Uma olhada desapaixonada (ou sem vieses ideológicos) mostra, porém, que essa melhora é bastante frágil. Basta ver o elevado número de desempregados e a má qualidade das vagas criadas nos últimos meses – informais e com menores salários. Já escrevi aqui no Storia, mais de uma vez, que o aumento do mercado informal nunca foi sinal de melhora econômica. Pelo contrário: trata-se de um eloquente grito de desalento da população. Diante da falta de empregos, resta-lhe apenas se virar para pagar as contas no fim do mês. “Ah, mas eles têm renda”... sim. Pouca, instável e que não lhes garante o acesso ao crédito para comprar um mísero liquidificador a prazo. Como a indústria de bens de consumo duráveis, por exemplo, aumentará as vendas, se os brasileiros não têm como demonstrar renda para obter crediário?

Segundo, o nosso PIB continua de má qualidade, pois nosso crescimento permanece extremamente concentrado na agricultura. A indústria e os serviços ainda patinam e mostram sinais ambíguos. E a agricultura só se sustenta, porque o mundo está retomando o crescimento e, por isso, há mais gente com dinheiro para comer. Frise-se: lá fora, não aqui no mercado interno. Portanto, quaisquer soluções da economia global, ou qualquer ação protecionista com base em regras sanitárias, e nossas exportações caem, derrubando, assim, nosso crescimento.

Mudam as moscas...

Terceiro, o governo Temer não arrumou nada de estratégico na área econômica. Qualquer que seja o novo presidente, já assumirá com a missão de cortar gastos, dado o fracasso do atual em aprovar a reforma da previdência. Nesta semana, por exemplo, o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, afirmou que o Orçamento proposto para 2019 embute um corte de R$ 14 bilhões. Como se sabe, esse dinheiro entraria na economia de várias formas: salários de servidores, bens e serviços adquiridos pelo governo, investimentos etc. Não é por acaso que o governo entra na conta do PIB, sendo um importante consumidor. Agora, imagine que quadro singelo: se já não há dinheiro para pagar salários atrasados de servidores (lembre-se de que o repasse de receitas aos Estados é responsabilidade da União), como ficaremos sem R$ 14 bilhões?

Nenhuma empresa é uma ilha. Os bons resultados dependem, goste-se ou não, de um ambiente macroeconômico saudável. Algo que só os investidores e gestores de carteiras conseguem enxergar no momento. Ou, então, estão blefando, a fim de atrair bobos para o mercado, valorizando suas ações, para que saiam poucos instantes antes de tudo desmoronar. Quem arrisca um palpite?