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Recorde de juros baixos: só o governo e os bancos agradecem

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Dos pobres mortais, porém, não se ouve um pio. Estão ocupados demais arrumando dinheiro para quitar dívidas com juros de agiota da máfia

Recorde de juros baixos: só o governo e os bancos agradecem

Juros escandalosos: o novo pato que os brasileiros pagam (Foto: Márcio Juliboni)

Nunca antes, na história deste país, a taxa oficial de juros (a famosa Selic) foi tão baixa. Na noite desta quarta-feira (7), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou um corte de 0,25 ponto percentual, trazendo a Selic para 6,75% ao ano. Trata-se da menor taxa, desde que o sistema de metas de inflação foi criado em 1999. É, também, a menor da série histórica do BC, iniciada em 1986. Maravilha, então, né? Agora o Brasil deslancha de vez e recuperamos os dois piores anos de recessão que já vivemos. Infelizmente, a resposta é não; nem de longe. A nova Selic só beneficia dois atores econômicos: o próprio governo, que reduzirá os gastos com o pagamento dos juros da dívida pública; e os bancos, que “compram” dinheiro cada vez mais barato, devido à pequena Selic, e o “revendem” por preços desaforadamente altos, expressos nos juros pornográficos cobrados aos clientes. Nós, pobres mortais, só sabemos que os juros oficiais estão baixos pela imprensa.

Comecemos pelo governo. No início de dezembro, quando os analistas ainda esperavam a decisão do Copom que reduziria a Selic para 7% ao ano, a Instituição Fiscal Independente (IFI) estimou que, entre setembro de 2016 e outubro do ano passado, a redução gradual dos juros oficiais de 14,25% para 7,50% permitiu uma economia de quase R$ 52 bilhões no período. É dinheiro para dedéu, num país que precisa de cada centavo para cobrir o rombo da máquina pública e da previdência social. O problema, como sempre acontece por aqui, é que esse dinheiro não se traduziu em melhorias efetivas das condições de vida da população. Continuamos vivendo o Juízo Final a cada dia, com problemas para todos os gostos: falta dinheiro para hospitais, escolas, delegacias e grupamentos de policiais, pesquisa e, daqui a pouco, para quitar os benefícios dos aposentados. Alguns Estados, como o Rio de Janeiro, estão quebrados. É provável que boa parte dessa grana volte para os bancos na forma de pagamento de juros e recompra de títulos públicos. Basta lembrar que, com a pesada crise das finanças estaduais, os governadores e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, propõem a criação de um fundo de investimentos para o qual seriam transferidas as dívidas públicas estaduais e cujo "investidor" seria o governo federal.

Negócio de pai pra filho

E, por falar nos bancos... o Itaú fechou 2017 com lucro líquido de “apenas” R$ 24 bilhões – um crescimento de 11% em relação ao ano retrasado. Segundo a instituição, a dinheirama provém da redução da inadimplência e da maior eficiência na gestão do banco, com cortes de gastos e tal. Pode até ser que isso tenha ajudado mesmo, já que o volume total de crédito, medido pelo tamanho de sua carteira, subiu apenas 0,4%, para R$ 564 bilhões. Mas, convenhamos: trata-se de apenas uma parte da história. A outra é que, apesar da queda dos calotes e do dinheiro mais barato, as instituições financeiras continuam praticando juros de agiotagem em suas linhas de crédito. De acordo com a Anefac, associação que reúne profissionais de finanças, apesar do corte da taxa básica para 6,75%, os juros dos produtos financeiros continuarão superando, em muito a cifra. O cartão de crédito cobrará, em média, 12,72% ao mês (sim, ao mês); o cheque especial sairá por 12,12%; e as prestações de um automóvel embutirão 1,99% ao mês.

Assim, ao cortar a Selic pela 11ª vez consecutiva, o Banco Central pode até estar, legitimamente, perseguindo o menor custo possível para o dinheiro, dentro dos limites de não reacender a inflação. Na prática, porém, tudo o que consegue é ampliar as margens de lucro das instituições financeiras e facilitar a gestão da dívida pública pelo governo. É claro que tanto o governo, quanto os banqueiros elogiaram a medida. Dos pobres mortais, porém, não se ouve um pio. Estão ocupados demais arrumando dinheiro para quitar dívidas com juros de chantagista de filme da máfia.