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Reforma da Previdência: o novo presidente é quem deve comprar essa briga

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Simplesmente, é uma covardia que os presidenciáveis fujam desse duro, mas necessário, debate, e torçam para que Temer faça o “serviço sujo”

Reforma da Previdência: o novo presidente é quem deve comprar essa briga

"Má vai prá lá!" Debate sobre reforma não deve ser um show de calouros (Foto: Divulgação/SBT)

O presidente Michel Temer continua apenas mantendo as aparências, para fingir que tem algo a fazer no governo até passar a faixa para o sucessor. A reforma da Previdência é o seu suposto cavalo de batalha – seria questão de honra aprová-la. É claro que, por mais lábia que se tenha, é impossível hipnotizar a plateia por todo o tempo, e o próprio Temer já reconhece que, talvez, quem sabe, pode acontecer, vá lá... a aprovação da reforma não ocorrerá em seu mandato. É o que voltou a dizer, em entrevista à Rede TV na noite desta segunda-feira (5). Fevereiro é o limite prático para que a matéria seja votada pela Câmara, a fim de se sonhar com sua apreciação pelo Senado até o fim do ano.

Isto porque, a partir de março, a única preocupação em Brasília serão as eleições de outubro. Que político, em sã consciência, quererá se atrelar a uma das reformas mais polêmicas que se pode tocar? Mas, sinceramente, o fracasso de Temer seria o melhor para o país, não porque enterraria a reforma, mas porque a colocaria no centro do debate entre os candidatos à Presidência. Quem quer que subisse a rampa, em janeiro, teria a obrigação de deixar claro o que pretende fazer com a aposentadoria dos brasileiros e as contas públicas. Isso, sim, se chama democracia.

Afinal, os brasileiros querem mudanças na previdência pública? Sim? Não? De que tipo? Em que prazo? Com quais regras? Com qual abrangência? Acabando com privilégios ou os mantendo? É claro que essas questões são discutidas há muito tempo (e já deveriam ter sido respondidas), mas hoje, efetivamente, os únicos que têm poder efetivo de transformar suas respostas em leis são os deputados e senadores desta legislatura, bem como o governo que assumiu após o impeachment de Dilma Rousseff e que, portanto, não foi sequer sabatinado pelos eleitores e pelos rivais para saber o que pretendia fazer a respeito. Convenhamos: há muito em jogo para deixar isso nas mãos de Temer e de seus “aliados”.

Cães de aluguel

Pessoalmente, defendo um certo tipo de reforma da Previdência, não porque eu seja um sádico que deseja condenar velhinhos a trabalharem até a morte, ou porque deseje vê-los mendigando pelas ruas. Sou favorável a mudar as regras, justamente porque, se nada for feito, os velhinhos trabalharão até a morte para se sustentarem, ou os veremos mendigando cada vez mais pelas ruas. Simplesmente, chegará um momento em que não haverá dinheiro para pagar os benefícios de todos. De duas, uma: ou o governo deixará de pagar, ou pagará tão pouco, que o dinheiro não servirá para nada. Espere... já vimos esse filme antes, não? Pois é... infelizmente, a maioria dos aposentados já não consegue se sustentar com o que ganha, e é obrigada a completar sua renda trabalhando (mas não era a reforma que os condenaria ao trabalho eterno?). Outros, em pior situação, são vistos pelos semáforos e calçadas pedindo esmolas (mas isso não ocorreria apenas se a reforma fosse aprovada?) ...

Isso mostra a que ponto o debate sobre a reforma da Previdência se tornou passional, irracional ou, sendo bem franco, burro. E é por isso mesmo, que essa pauta deve ser passada a limpo na campanha presidencial. Qualquer um que deseje assumir o comando do país tem a obrigação de esclarecer o que pensa sobre isso e como pretende encontrar dinheiro para proporcionar uma vida digna aos aposentados de agora e do futuro. Simplesmente, é uma covardia que os presidenciáveis fujam desse duro, mas necessário, debate, e torçam para que Temer faça o “serviço sujo”. Até porque, na ânsia de fazê-lo, Temer e seus “aliados” correm o risco de entregar uma reforma tão pífia e casual, que atrapalhará muito mais do que ajudará o Brasil. Com o detalhe de que, para aprová-la, cobrarão muito, mas muito caro mesmo, na forma de emendas parlamentares, cargos em estatais e outras coisinhas mais...