POLÍTICA

Reforma trabalhista: a prova de que Temer não governa mais o Brasil

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Acuado pela Lava Jato, quem disse que Temer está preocupado em comandar o país? Há coisas mais urgentes, do seu ponto de vista, como evitar que o investiguem

Nem com reza brava: agenda de governo de Temer fracassou em praticamente tudo (Foto: Divulgação/PMDB)
Nem com reza brava: agenda de governo de Temer fracassou em praticamente tudo (Foto: Divulgação/PMDB)

O vexame sofrido pelo governo, com a expiração da medida provisória que tratava de pontos da reforma trabalhista, não é apenas um atestado de incompetência e um tremendo problema para trabalhadores e empresas, que já não sabem que lei, afinal, devem seguir. Trata-se, sobretudo, de uma prova de que a presidência da república está vaga desde 31 de dezembro de 2017. Michel Temer, agora, não passa de um zelador de luxo do gabinete à espera do próximo ocupante. O problema, como você já sabe, é que faltam oito meses para tanto...

É verdade que, há tempos, o Brasil está acostumado a governos que não governam nada, mas a diferença para a gestão (sic) Temer é que o emedebista quis, durante algum tempo, transformar suas fraquezas em vantagens estratégicas, e foi acompanhado por parte dos “cidadãos de bem” e, sobretudo, por muita gente do mercado e do empresariado. Neste sentido, ser recordista de impopularidade era vendido como um trunfo: Temer estaria livre para aprovar reformas amargas, mas necessárias, para recolocar o país nos trilhos. Ele seria o homem certo, na hora certa, para fazer o serviço sujo, liberando o caminho para que o próximo presidente colhesse os frutos de um tão desejado retorno à normalidade.

Mas, voluntarismo pouco é bobagem... Temer e seus aliados (os históricos e os por conveniência) subestimaram algo que deveriam conhecer muito bem: o voraz fisiologismo do Congresso, onde se compram e se vendem votos sob rapapés, palavrório empolado, vernizes ideológicos e preocupações sociais postiças. Deixando as aparências de lado, o combustível do Legislativo é a verba pública. Temer gastou o que pôde e o que não pôde para aprovar medidas nos primeiros meses, até ser abatido pela gravação em que incentivava o empresário Joesley Batista, dono do JBS, a manter a mesada a Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara preso pela Lava Jato, a fim de mantê-lo em silêncio.

Prioridade das prioridades...

Temer já escapou da abertura de dois processos, às custas da liberação de muito dinheiro público para a base. Não está descartada a apresentação de uma terceira acusação, por parte da Procuradoria-Geral da República. Nos últimos tempos, a situação de Temer só piorou. Amigos íntimos foram presos pela Lava Jato, como o coronel João Baptista Lima, suspeito de ser um dos operadores do presidente, recolhendo dinheiro sujo de acordos idem, e do advogado José Yunes, ex-assessor especial de Temer e igualmente suspeito de operar negociatas em seu nome. À medida que as investigações avançam, descobrem-se mais evidências sobre relações preocupantes entre os três, como a reforma paga na residência da filha de Temer e a transação de outro imóvel com Marcela, sua esposa.

Como já escrevi neste mesmo espaço do Storia, não importa o que Temer diga em público. Sua verdadeira preocupação, neste ano, será garantir que nada lhe acontecerá, quando descer a rampa do Planalto, no primeiro dia de janeiro. As ambiciosas reformas que o sustentaram no início da gestão, a recuperação da economia, a geração de empregos, a pacificação política... quem disse que isso importa ao presidente a esta altura do campeonato? Há coisas mais urgentes para Temer, do que governar o país.