POLÍTICA

São Paulo é o túmulo da Lava Jato

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Enquanto Curitiba, Rio e Brasília avançam, há muitos coveiros dispostos a enterrar a Lava Jato no Estado, como prova a manobra que beneficiou Geraldo Alckmin

Um brinde ao STJ: vice-procurador não viu nada de errado na relação de Alckmin com a Odebrecht (Foto: GOVESP)
Um brinde ao STJ: vice-procurador não viu nada de errado na relação de Alckmin com a Odebrecht (Foto: GOVESP)

Estado mais rico da União. Maior colégio eleitoral do país. Berço dos principais “movimentos populares” que levaram milhares de pessoas às ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. Há muitos predicados para São Paulo, mas o que mais interessa, neste momento, até por contradizer muito do que está nas linhas anteriores é um só: o de túmulo da Lava Jato. Enquanto as investigações, processos, condenações e prisões seguem em Curitiba, Rio de Janeiro e Brasília (seus principais braços), a Lava Jato paulista sofre entre a falta de recursos e, sobretudo, a falta de vontade de enfrentar suas verdades. O exemplo mais recente foi a vergonhosa manobra que livrou o ex-governador Geraldo Alckmin de ser investigado pela primeira instância.

Sem foro privilegiado desde que renunciou ao cargo para concorrer ao Planalto pelo PSDB, Alckmin foi favorecido pelo parecer do vice-procurador-geral da República junto ao STJ, Luciano Mariz Maia. No documento, Maia afirma que não encontrou indícios de que o tucano foi beneficiado pelo esquema de corrupção investigado pela Lava Jato. Por isso, em vez de recomendar o encaminhamento do caso para a primeira instância, optou por remetê-lo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A recomendação foi acatada pela ministra Nancy Andrighi, relatora do caso no STJ. Com isso, em vez de ser investigado por corrupção, Alckmin será, no máximo, julgado por caixa 2, algo que não está nem tipificado no Código Penal... dá ou não dá o que pensar?

E quais são os elementos que pesam contra Alckmin? Um dos delatores da Odebrecht na Lava Jato, Arnaldo de Souza e Silva, afirmou em juízo que era responsável por liberar dinheiro para a campanha de Alckmin em 2014, quando o tucano se reelegeu governador de São Paulo. O dinheiro saía das obras tocadas pela empreiteira no Estado. Segundo os delatores, entre 2010 e 2014, Alckmin teria recebido cerca de R$ 10 milhões para abastecer suas campanhas, via caixa 2.

Ninho de cobras?

Mas ele não é o único paulista que aparece nas delações da Odebrecht e de outras empreiteiras. Há nomes para todos os gostos, com destaque para os tucanos: os senadores José Serra e Aloysio Nunes Ferreira (ministro das relações exteriores de Michel Temer), e ex-parlamentares como José Aníbal, José Ricardo Franco Montoro e Roberto Massafera. Suspeita-se que o ninho tucano em São Paulo seja construído sobre um covil de desvio de dinheiro público. Uma primeira evidência foi o cartel de trens formado pela Alstom e pela Siemens, mas há nuvens sobre contratos de obras estaduais como a construção das linhas 2 e 5 do metrô paulistano. O mais perto que a Lava Jato chegou dos tucanos, até o momento, foi a prisão de Paulo Vieira de Souza, o “Paulo Preto”, ex-diretor da Dersa e apontado como o operador do PSDB paulista. Diz-se que a possibilidade de que feche um acordo de delação premiada tira o sono de muito tucano de alta plumagem.

Embora predominante, o PSDB não é único alvo da Lava Jato em São Paulo. O ex-prefeito Gilberto Kassab, atual ministro da Ciência e Tecnologia de Temer, por exemplo, é suspeito de receber R$ 21 milhões da Odebrecht como caixa 2 entre 2008 e 2012 – tudo desviado de obras executadas na cidade. O PT também não escapa das denúncias. O ex-prefeito Fernando Haddad e os ex-ministros José Genoíno e Alexandre Padilha, que concorreram ao governo do Estado em 2002 e 2014, respectivamente, também são citados pelos delatores da Odebrecht.

Locomotiva do país ou trem da alegria?

Resta, portanto, a tarefa de investigar fria e rigorosamente as denúncias, separar o que é boato do que é fato devidamente comprovado com evidências acima de qualquer dúvida razoável, como gostam de dizer as pessoas que atuam no Judiciário. Infelizmente, contudo, a má vontade da própria Justiça em apurar o que aconteceu em São Paulo é desanimadora. Deflagrada em 2014, a Lava Jato contou, por muitos anos, com apenas três procuradores em São Paulo. Somente em fevereiro deste ano (sim, quatro anos depois), o Conselho Superior do Ministério Público Federal concordou em elevar a equipe para 11 procuradores.

Mas números não são tudo. Há quem diga que a lentidão nos trabalhos também se deve à desconfiança dos líderes da força-tarefa da Lava Jato de que os procuradores paulistas estejam, na verdade, a serviço de quem deveriam investigar. Por isso, o compartilhamento de provas e informações passaria sempre por delicadas negociações. A única forma de resolver esse impasse e provar a credibilidade do braço paulista da Lava Jato é óbvia: dar mostras inegáveis de que está comprometido com a Justiça, e não com os que eventualmente assaltaram os cofres do Estado. A manobra que beneficiou Alckmin nesta semana, contudo, prova que há muitos coveiros dispostos a enterrar as investigações às margens do riacho do Ipiranga.