São Paulo precisa de um prefeito que queira ser prefeito

São Paulo precisa de um prefeito que queira ser prefeito

A cada dois anos, a cidade fica à mercê de interesses políticos cujo foco passa ao largo dos graves problemas de seus moradores

Ó, abre alas: Doria vê uma avenida livre entre ele e o Palácio dos Bandeirantes; já os paulistanos só enxergam os buracos na via (Foto: Secom/Prefeitura de São Paulo)

João Doria engavetou os planos de disputar a presidência da República, mas isso não significa que pretenda ficar na prefeitura de São Paulo até o fim do mandato, em 2020. O tucano já articula, sem segredo, sua candidatura ao governo paulista, no lugar de seu padrinho político Geraldo Alckmin. A julgar pelos números divulgados nesta terça-feira (27) pelo Instituto Paraná Pesquisas, as chances de Doria sucedê-lo são grandes. O prefeito lidera todos os cenários propostos com intenções de voto oscilando entre 30% e 39%. Se é animador para ele, deveria ser preocupante para os paulistanos. Há tempos, os prefeitos da maior cidade do país encaram o cargo como mero trampolim para voos mais ambiciosos, seja por vontade própria, seja por pressão de seus aliados. Com isso, a cada dois anos, a cidade fica à mercê de interesses políticos cujo foco passa ao largo dos graves problemas de seus moradores.

A capital paulista conta com cerca de 9 milhões de eleitores. Sua diversidade, complexidade, poder econômico e projeção nacional transformam a cidade num verdadeiro laboratório para ensaios políticos. Ser bem-sucedido em sua gestão é um belo diploma de competência. É compreensível, portanto, que seja cobiçada por quem deseja se projetar no cenário estadual e (por que não?) nacional. Mas esta é, também, a sua maldição. A pressa em subir logo na hierarquia política faz com que a prefeitura seja encarada como um mal necessário pelos seus ocupantes – praticamente um estágio de luxo para os cargos que realmente importam: governador do Estado e presidente.

Só pensa naquilo...

Doria, por exemplo, foi vítima de suas próprias ambições no início de seu mandato. Às vezes mais discreto, às vezes não, o prefeito gastou seu primeiro ano muito mais preocupado em se gabaritar para furar a fila – leia-se, ignorar as ambições de Geraldo Alckmin – e se candidatar logo ao Palácio do Planalto. Tudo seguia esta lógica: dos vídeos com ataques ao petista Luiz Inácio Lula da Silva às ações de marketing do Cidade Linda, à viagem para o círio de Nazaré, passando pelas excursões ao exterior, o que menos preocupava Doria era encontrar soluções para os problemas paulistanos. Sua cabeça já operava no modo pré-candidato a presidente.

A má avaliação de seus primeiros 12 meses como prefeito e a estagnação nas pesquisas foram um choque de realidade. Doria precisou, enfim, se lembrar do básico: ele é o gestor da maior cidade do país e é com isso que deve se preocupar. Mas se engana quem pensa que isso o sossegou. Basta ver o bombardeio de publicidade da prefeitura nos intervalos comerciais de todos os canais de TV, para entender que Doria tenta, a todo custo, convencer os paulistanos de que está trabalhando – algo fundamental para manter viva a chance de suceder a Alckmin no Palácio dos Bandeirantes e se posicionar para disputar, daqui quatro anos, o Planalto.

Enquanto isso, a São Paulo real continua sofrendo com os problemas de sempre. Restringindo-nos apenas aos pertinentes à prefeitura, temos: postos municipais de saúde caindo aos pedaços; creches prometidas e não inauguradas, deixando mães e crianças na mão; transporte público superlotado, lento e caro para o baixo nível de serviço que oferece; grandes trechos de iluminação pública apagados, gerando insegurança; semáforos defeituosos a cada chuva (e, às vezes, mesmo sem ela); asfalto de má qualidade e ruas onde se escolhe em que buraco se quer cair; problemas de barulho e falta de fiscalização; a persistente ausência de atividades culturais diversificadas na periferia; etc. Nada disso é novidade. Nada disso é difícil de resolver. Basta apenas uma coisa: um prefeito que queira, de fato, ser prefeito de São Paulo. Algo que não vemos há muito tempo.

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