POLíTICA

Se Bruno Covas não cuidou de São Paulo em um ano, por que cuidaria agora?

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Covas cuidou mal da cidade e foi remanejado de função por Doria. Pena que os paulistanos não poderão fazer o mesmo, caso ele assuma a prefeitura em abril

Se Bruno Covas não cuidou de São Paulo em um ano, por que cuidaria agora?

Os paulistanos realmente estão de parabéns. Eleitores contumazes do PSDB, eles estão prestes a ganhar, novamente, um prefeito que não elegeram. Na segunda-feira (12), João Doria, o atual ocupante do Edifício Matarazzo, apelidado de Palácio do Anhangabaú, finalmente assumiu que não quer continuar na prefeitura paulistana. Já que não conseguiu se cacifar para disputar a presidência da República, lançou-se oficialmente como pré-candidato do PSDB ao governo paulista. Qual o problema?, dirão alguns leitores. Afinal, faz parte da democracia. Sim, é verdade. Mas há duas observações. Primeiro: democracia não significa utilizar a maior cidade do país como trampolim político para projetos pessoais. Segundo: a gestão de São Paulo passará oficialmente para as mãos de quem já não cuidava dela - o vice Bruno Covas.

Neto do já lendário Mario Covas, que governou o Estado de 1995 a 2001, Bruno foi lembrado pela imprensa e pelos paulistanos, nos últimos meses, por dois motivos pouco engrandecedores. Um: era um papagaio de pirata constante nas aparições públicas de Doria, durante os mutirões do Cidade Linda, programa que virou o carro-chefe do tucano nos seus primeiros meses de gestão. Covas vestia uniforme como o chefe, sorria, cortava um ou outro pé de capim, plantava alguma muda de árvores, nivelava uma calçada e... e...? E nada mais.

O zelador desagradou o síndico

Seus defensores dirão que Covas estava cumprindo seu papel à risca. Afinal, é o vice-prefeito da maior cidade brasileira e, ainda por cima, era o secretário de Prefeituras Regionais, cuja tarefa é coordenar todo o trabalho do que, antes, se chamavam subprefeituras. É um cargo estratégico, pois lida diretamente com os serviços de zeladoria da cidade. Do asfaltamento e recapeamento de ruas à poda de árvores, coleta de lixo e limpeza urbana, Covas era o verdadeiro “cuidador” de São Paulo, numa gestão que aposta tudo num programa de zeladoria – não à toa, chamado de Cidade Linda. Covas era, portanto, uma peça fundamental para a cidade. Ou deveria ser...

O fato é que Covas durou muito pouco na função. Seu desempenho sofrível como zelador foi o principal queima-filme no início da gestão do chefe. A coleta de lixo, por exemplo, recuou 6% no primeiro semestre de 2017. Com planos mais altos, Doria não poderia se dar ao luxo de deixar alguém que não funciona num cargo tão estratégico. No fim de outubro – portanto, com apenas dez meses de gestão -, ele indicou Claudio Carvalho como novo secretário das Prefeituras Regionais. Para não ficar mal com Covas, o empresário e ex-apresentador de TV recorreu à criatividade: criou a secretaria da Casa Civil para acomodá-lo e esvaziou a secretaria de Governo, ocupada por Julio Semeghini. Desde então, Covas cuida da articulação política na Câmara municipal, e Semeghini ficou relegado às funções mais burocráticas da administração pública.

Se vencer as prévias do PSDB, previstas para o próximo domingo (18), Doria pretende renunciar à prefeitura já em abril para se dedicar à campanha ao governo. Logo, a capital paulista está, virtualmente, a poucas semanas de ganhar um novo gestor. Neste pouco tempo, Covas impressionou mal o chefe e foi remanejado. Terá outra chance, desta vez como prefeito. Pena que os paulistanos não poderão trocá-lo de função, caso os decepcione novamente.