POLÍTICA

Submarino superfaturado: como seria investigar corrupção sob intervenção militar

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É, no mínimo, estranho que a Marinha não contribua para investigar as suspeitas dos procuradores de superfaturamento no projeto

Nas profundezas do poder: Marinha navega em águas turvas ao dificultar investigações (Foto: Carlos Magno/ GERJ)
Nas profundezas do poder: Marinha navega em águas turvas ao dificultar investigações (Foto: Carlos Magno/ GERJ)

Os mitômanos que defendem uma intervenção militar constitucional (seja lá o que isso signifique) argumentam que este seria o único caminho para moralizar a gestão pública, carcomida pela praga de corruptos que a infesta. Sua premissa é bem simples: os militares teriam uma formação moral e um senso cívico mais desenvolvidos. Portanto, seriam tão blindados contra a corrupção, quanto um tanque de guerra. Ainda que se insista que isso não passa de um conto de fadas, por vezes, algum exemplo surge para desfazer essas fantasias. Neste sábado (24), por exemplo, o UOL noticia suspeitas de superfaturamento de R$ 2,8 bilhões no programa de submarinos nucleares da Marinha – o programa militar mais importante do país.

É verdade que a Marinha não é a única responsável pela construção do submergível. A Odebrecht (sempre ela) é a empresa contratada para a empreitada e, dadas todas as revelações recentes sobre a indecorosa relação que mantém com poderosos de todos os partidos, patentes e países, é claro que chama a atenção. A Procuradoria da República do Distrito Federal (PR-DF) está à frente das investigações sobre supostas irregularidades no programa dos submarinos. O principal indício de superfaturamento, até agora, é a elevação da estimativa de gastos. Orçado inicialmente em R$ 27 bilhões, o programa já prevê despesas de R$ 31 bilhões. Para o procurador encarregado do caso, Ivan Cláudio Marx, o superfaturamento estaria nas obras do estaleiro de Itaguaí (RJ) onde as naves serão montadas.

Incontinência moral

Há duas considerações importantes sobre o caso. A primeira é que, por ora, não há suspeitas de envolvimento direto de militares no caso. As investigações concentram-se na Odebrecht. Mas, ainda que ninguém de farda tenha sujado as mãos com dinheiro de superfaturamento, a atitude da Marinha até o momento contradiz as crenças dos fanáticos apoiadores das Forças Armadas, segundo as quais sua simples presença inibiria desvios e malfeitos. Pior do que isso: Marx, o procurador, queixou-se publicamente, na reportagem, de que a Marinha dificulta a investigação, ao protelar ou simplesmente não fornecer documentos solicitados. É, no mínimo, estranho que os militares não colaborem de bom grado com a Justiça. Afinal, se eles não têm nada a esconder, por que dificultar a apuração das suspeitas?

A segunda consideração é que, se confirmado, o superfaturamento comprovará aquilo que é óbvio: o crime organizado de colarinho branco nunca se inibiu com quem está no poder. Há inúmeros casos de corrupção comprovada durante a ditadura. Mais recentemente, um almirante, Othon Luiz Pinheiro, passou dois anos preso por receber R$ 4,5 milhões de empreiteiras na construção de Angra 3, enquanto era presidente da Eletronuclear. Posto em liberdade pelo STF, o almirante atribuiu sua prisão a “interesses internacionais”. E nesta sexta-feira (23), a Polícia Federal desbaratou um esquema de tráfico de armas no Distrito Federal. A operação prendeu quatro militares do Exército e da Aeronáutica que seriam os líderes do grupo.

Agora imagine, caro fanático pelas Forças Armadas, se esses casos seriam descobertos, caso elas estivessem no poder? Se já é difícil apurar sua banda podre num governo civil, seria praticamente impossível fazê-lo num governo de coturnos. Nada poderia contrariar o interesse e a segurança nacionais. Leia-se: o interesse e a segurança de quem estivesse no poder.