POLíTICA

Supremo Trambique Federal livrará Lula e acabará com a Lava Jato?

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Enquanto isso, os “cidadãos de bem”, que poderiam protestar contra a manobra, estão ocupados em comemorar a morte de Marielle Franco

Supremo Trambique Federal livrará Lula e acabará com a Lava Jato?

Segundo a coluna de Eliane Cantanhêde, no Estadão deste domingo (18), o STF caminha rapidamente para mudar seu nome de Supremo Tribunal Federal para Supremo Trambique Federal. Isto porque, de acordo com a jornalista, estaria em curso uma articulação para, com uma única cartada, acabar com a prisão em segunda instância, livra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da cadeia, permitir que condenados na Lava Jato se safem e, por fim, ferir de morte a própria operação. O mentor intelectual de tamanha desfaçatez seria o ex-presidente do STF e atual advogado de Lula, Sepúlveda Pertence. Considerada “engenhosa” pelos ministros, a manobra tem como mérito unir todos – quem é contra Lula se beneficiaria também, e quem é a favor de Lula consideraria que salvá-lo é mais importante que afundar a Lava Jato.

Em linhas gerais, a manobra pretende reverter o resultado da própria votação do STF que autorizou, por 6 votos a 5, a prisão em segunda instância, realizada em dezembro de 2016 com base numa liminar de outubro daquele ano. Como o acórdão daquela votação só foi publicado agora em 7 de março, abriu-se o prazo legal para embargos de declaração. E – que coincidência! – não é que um embargo foi apresentado pelo Instituto Ibero Americano de Direito Público em 14 de março? Esse será o “cavalo de troia” que permitirá ao STF mudar seu entendimento sobre a prisão em segunda instância. O pressuposto é que o ministro Gilmar Mendes mude de lado, como já avisou que faria, invertendo o placar para 6 a 5 contra a prisão.

Esse pressuposto já é dado como certo. Gilmar Mendes nunca se intimidou com a opinião pública. A pretexto de zelar pela lei, sente-se à vontade para se pronunciar conforme as suas conveniências. Já escrevi, aqui no Storia, que ainda veríamos Lula agradecer a Gilmar (um desafeto histórico) por livrá-lo da cadeia. Parece que, infelizmente, estamos mais perto disso do que supomos.

Tal líder, tal liderado

O segundo pressuposto é que a população assista a tudo quietinha. Ao que parece, também parece factível, dada a convergência de interesses políticos em torno do assunto. Da direita à esquerda, praticamente todos os partidos estão enrolados com a Lava Jato. Logo, pouquíssimos teriam a isenção ou o interesse de convocar manifestações contra essa maracutaia. O problema, aqui, é que os partidos “isentos” são meros serviçais das legendas maiores. É improvável que protestem contra tudo isso.

Restar-nos-iam, portanto, os movimentos “independentes” que mobilizaram as ruas durante o impeachment de Dilma Rousseff. Mas, há tempos, as máscaras dos supostos “líderes populares” apodreceram, expondo o que são na verdade: uma barafunda de interesses particulares, delírios messiânicos, narcisistas patológicos e vaidades de Facebook. Os mais “sérios” aliaram-se com o que há de mais duvidoso na política. Basta ver um dos mais destacados líderes do MBL, Fernando Holiday, eleito vereador em São Paulo pelo DEM, cujo ex-presidente, José Agripino Maia, caiu em desgraça e perdeu poder na legenda, após virar réu na Lava Jato em dezembro passado.

Os “cidadãos de bem” bem que poderiam, espontaneamente, voltar às ruas contra esse acordão tramado no STF para livrar todo mundo. Bem que poderiam desfilar suas camisas verde-amarelas com a mesma fleuma com que marcharam pelo impeachment de Dilma. Mas, ah, é verdade: os “cidadãos de bem” estão ocupados demais comemorando a morte da vereadora Marielle Franco por “defender bandidos” em vez dos “cidadãos do bem”. Alguém já disse (há dúvidas se foi De Gaulle) que o Brasil não é um país sério. Começo a desconfiar que o Brasil não é, sequer, um país...