POLÍTICA

Temer, o presidente-vampiro, é grave, mas não é o maior problema do Brasil

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Temer é apenas o atual mestre-sala da Acadêmicos da Esculhambação Nacional; atrás dele, vêm incontáveis alas das vergonhas brasileiras

Temer, o presidente-vampiro, é grave, mas não é o maior problema do Brasil

Ó , abre alas! Temer, sozinho, não faria todo esse Carnaval (Imagem/Reprodução/YouTube)

Geralmente, não gosto de desfiles de escolas de samba. Prefiro, muito mais, os bloquinhos de rua. São mais espontâneos, democráticos e, para mim, é onde o verdadeiro Carnaval acontece. Não há fantasias caras, celebridades fingindo uma proximidade com o povo que nunca tiveram, turistas que, antes de pagarem para desfilar, sequer cumprimentariam alguém da comunidade que passará as próximas horas ao seu lado. Mas, de tempos em tempos, a Marquês de Sapucaí ou o Sambódromo do Anhembi abrem alas para aquilo que anda engasgado na nossa garganta. É o caso do histórico desfile da Beija-Flor, em 1989, com o samba “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”. Com uma tacada só, o carnavalesco Joãozinho Trinta irritou a igreja e os poderosos de então. Já é, também, o caso da Paraíso Tuiuti, que desfilou no grupo especial do Rio na madrugada deste domingo (11) para segunda (12).

Aproveitando uma efeméride – os 130 anos da Lei Áurea -, a escola criticou as graves injustiças sociais que ainda castigam o Brasil, com o samba-enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” Da comissão de frente, que nos lembrou dos negros escravizados, ao protesto contra a reforma trabalhista, nada escapou – inclusive os paneleiros que marcharam pelas ruas com camisas da Seleção Brasileira, defendendo o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a manipulação da mídia (com a Rede Globo em destaque) e os patinhos amarelos da Fiesp. Pode-se, claro, discutir o papel de cada um desses elementos na conjuntura que terminou com a cassação do mandato da petista. Podemos, mesmo, relembrar as barbeiragens da pupila de Lula que ajudaram – e muito! – a cavar sua própria cova política. Mas, como manifestação popular, é um recado e tanto sobre o mau humor que pipoca nos morros e favelas com a mesma contundência das balas perdidas.

Atrás daquela mala, só não vai quem já morreu

O ponto alto do desfile da Tuiuti foi o último carro-alegórico, chamado de “Navio Neotumbeiro”. O destaque foi o professor de História Léo Morais. No alto do carro, Léo encarnou um presidente-vampiro, cuja faixa presidencial ostentava uma guirlanda de dinheiro. Ninguém na escola assume que é um retrato feito e acabado do atual inquilino do Palácio do Planalto, Michel Temer. Para dizer a verdade, nem seria necessário. Não é de hoje que a caricatura mais popular de Temer é a de um vampiro, dada sua aparência esbranquiçada como um cadáver político. Com uma popularidade pífia, uma agenda de governo não aprovada pelo povo e reformas polêmicas para tocar – como a trabalhista, criticada na avenida, e a ainda mais espinhosa reforma da previdência -, Temer faz por merecer a péssima imagem que tem junto ao povão.

Temer, o presidente-vampiro, é grave, mas não é o maior problema do Brasil

Patinhos na avenida: os fantoches te lembram alguém? (Reprodução/YouTube)

O problema, como sempre, é o risco de sermos reducionistas. Embora Temer encarne toda a justa indignação de nossos tempos emburrecidos e radicais, é preciso lembrar do básico: o presidente é apenas o mestre-sala de toda uma escola de corruptos e corruptores que samba há séculos na cara do povo. É mera ilusão de Carnaval supor que, findo o mandato do emedebista no Planalto, tudo mudará e o Brasil amanhecerá numa grande apoteose. Atrás de Temer, vêm incontáveis alas de empreiteiros corruptores, ministros que guardam malas de dinheiro em apartamentos, senadores e deputados em atos pornográficos de desvio de verbas, juízes camaradas que transformaram habeas corpus em um “liberou geral”, assessores obscuros, doleiros sombrios. E, o pior de tudo: uma massa de brasileiros delirantes, que acreditam piamente que quem critica tudo isso joga no outro time, é inimigo do Brasil e não merece crédito. São eles, em última instância, que sustentam o desfile de barbaridades que nos envergonha mais do que genitálias desnudas fazendo pirocóptero. Temer não é o único integrante da Acadêmicos da Esculhambação Nacional. Você também pode estar fazendo papel de bobo na avenida, cantando :”Desvia que é bom / Quero o meu / Atrás daquela mala, / Só não vai quem já morreu...”