POLÍTICA

Temer quer ser candidato para defender o próprio legado. Mas qual??

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Se não estiver blefando e concorrer, de fato, à reeleição, terá muito o que explicar sobre o que não fez

Temer, o equilibrista: desafio de defender o que deixou de fazer ou o que fez pela metade? (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Temer, o equilibrista: desafio de defender o que deixou de fazer ou o que fez pela metade? (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O presidente Michel Temer voltou a alimentar a especulação em torno de seu próprio nome como representante do governo na eleição de outubro. Segundo o Estadão deste domingo (19), o emedebista já estaria avisando os aliados mais próximos de que pode concorrer à reeleição, caso ninguém se viabilize como defensor de sua gestão. Pode ser apenas um balão de ensaio (dos muitos que serão vistos até o registro das candidaturas em agosto). Pode ser um blefe, a fim de se cacifar como um importante cabo-eleitoral. Pode ser, enfim, que seja verdade. O problema, como sempre, está na premissa: Temer quer defender seu legado, seja pessoalmente, seja por meio de alguém que apoie. Mas o diabo é este mesmo: que legado?

Os 6% de brasileiros que o apoiam dirão que é claro que há um. A economia está crescendo, a inflação está baixa, empregos são gerados e os juros estão no menor nível da história. Além disso, a intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro mostra que Temer está atento ao que aflige o dia a dia da população. Seria um conjunto perfeito de argumentos para sustentar uma campanha. Sim, sim... uma campanha em que só um falasse: o próprio Temer. Se houvesse alguém para contradizê-lo, o discurso ensaiadinho cairia bem rápido. Que tal olharmos mais de perto as “realizações” de Temer?

Crescimento econômico

Sim, é verdade: à fria luz dos números, o país cresceu 1% no ano passado, encerrando um biênio de recessão – a pior que já enfrentamos. Mas olhe com calma, caro leitor. Nota algo de errado? Sim, sim... trata-se de uma retomada totalmente distorcida, porque foi sustentada por um único setor: a agricultura. Enquanto esse setor cresceu 13%, o de serviços ficou praticamente estagnado, com 0,3%; e a indústria, literalmente, não cresceu nada.

Assim, sejamos francos: se você não participa diretamente da cadeia produtiva de milho (cuja safra disparou 55% no ano passado) e soja (alta de 19%), é improvável que tenha sentido, na prática, os efeitos do “fim da recessão”.

Retomada de empregos

Onde está a retomada de empregos? Segundo o próprio IBGE, a taxa média de desemprego ficou em 12,7% no ano passado, ante 11,6% em 2016. Trata-se da maior taxa desde 2012. Mesmo a criação de vagas informais (aquelas sem carteira assinada) não foi suficiente para compensar a perda de postos formais. Segundo o próprio Ministério do Trabalho, em 2017, quase 21 mil vagas formais foram eliminadas.

Juros baixos

A taxa básica de juros (a famosa Selic) está em 6,75% ao ano. É verdade que se trata do menor patamar desde sua criação. É verdade, também, que essa mínima recorde pode ser renovada na reunião do Copom da próxima semana, quando o mercado já dá como certa uma redução para 6,5%. É motivo para estourarmos um champanhe? Não tão rápido, caro amigo!

Há bastante tempo, o maior nó deixou de ser os juros básicos da economia. O que realmente atravessa a garganta são os juros ao consumidor, ainda na casa de escandalosos três dígitos ao ano, conforme a modalidade de crédito. E com o detalhe engraçadinho de que, após 17 “recuos” consecutivos, as taxas ao mercado voltaram a subir em fevereiro, segundo a Anefac.

Só para constar: os juros do cartão de crédito bateram em 318,50% ao ano no mês passado. No comércio, os juros médios são de 88,83% ao ano. Para as empresas, a taxa média ficou em 63,08% ao ano. Pergunta básica: os juros estão no patamar mais baixo da história para quem, cara-pálida?

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Não é à toda que Temer enfrenta dificuldades para delegar a defesa de seu governo a terceiros. Se não estiver blefando ou se for levado, pela pura e simples falta de opções, a disputar a reeleição, terá muito o que explicar sobre o que não fez – e não sobre o que fez.