POLÍTICA

Temer será o primeiro a ir direto do Planalto para a prisão?

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Temer vive uma espécie de condicional tutelada pelo Congresso, em troca de emendas parlamentares. Em 1º de janeiro, porém, sua caneta ficará sem tinta

Riso nervoso: polícia escoltará Temer após cerimônia de posse do sucessor. Resta saber para onde (Foto: Cesar Itiberê/PR)
Riso nervoso: polícia escoltará Temer após cerimônia de posse do sucessor. Resta saber para onde (Foto: Cesar Itiberê/PR)

Michel Temer pode ser o primeiro presidente brasileiro a ostentar uma vergonhosa distinção: o de sair diretamente do Palácio do Planalto para a prisão. É verdade que Luiz Inácio Lula da Silva está preso, mas é preciso lembrar que o petista passou alguns anos defendendo-se na Justiça, antes de ser encarcerado em Curitiba. Temer talvez não tenha nem esse tempo. Nesta terça-feira (8), a Polícia Federal deflagrou a 51ª fase da Operação Lava Jato, batizada de “Dejà Vu”. O objetivo é investigar crimes de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo um contrato de US$ 825 milhões fechado em 2010 entre a Petrobras e a Odebrecht. Entre os alvos, estão supostos operadores do MDB de Temer.

Trata-se de mais uma dor de cabeça para o emedebista, que está acuado pela investigação de pessoas de seu círculo íntimo. Somente nos últimos dias, um bombardeiro de más notícias o atingiu. Sua filha Maristela teve de depor na Polícia Federal sobre a reforma de sua residência em São Paulo. A suspeita é de que a obra tenha servido para lavar dinheiro, por meio do ex-coronel José Baptista Lima Filho, amigo pessoal de Temer há décadas. Outro míssil foi o depoimento do PM Abel de Queiroz, que trabalhava como motorista numa transportadora e declarou ter realizado, pelo menos, duas entregas de dinheiro vivo a Yunes entre 2013 e 2015.

Por ora, a maior ameaça a Temer é a investigação de supostos benefícios à Rodrimar, uma empresa do setor de portos, por meio de decreto assinado por ele. Mas, como a Operação Dejà Vu mostra, as frentes de investigação contra Temer podem aumentar. A situação é tão preocupante, que os advogados de Temer já cogitam, às claras, o pedido de medidas cautelares na Justiça para evitar que Temer seja preso assim que deixar a presidência. Em entrevista à rádio CBN nesta segunda-feira (7), o próprio inquilino do Planalto teve de comentar a possibilidade de prisão. Primeiro, afirmou que não tem medo de ser preso. Depois, disse considerá-la uma “indignidade” e lamentou que o assunto estivesse em pauta.

Na condicional

É bom que se lembre que Temer já escapou de dois pedidos de investigação, no ano passado, apresentados pela Procuradoria-Geral da República. O Congresso não o livrou por acreditar piamente em sua inocência, mas por barganhar até a sua alma em troca de emendas parlamentares. Oficialmente, em público, os deputados dividiram-se entre os que dizem acreditar na inocência de Temer, e os que defendem que a investigação apenas alimentaria mais turbulência política, num instante em que o país precisa de calma. Para estes últimos, tudo bem investigá-lo, quando deixar o gabinete presidencial.

A cinco meses da eleição e a sete do término de seu mandato, é improvável que Temer seja afastado pelo Congresso, como Dilma Rousseff, e preso ainda neste ano. Ele sobreviverá por absoluta conveniência de Brasília: para uns, mais vale um presidente morto-vivo pagando sua diária no Planalto na forma de dinheiro para emendas e campanhas, do que mais um preso na carceragem da Polícia Federal. Para outros, sua queda representaria abrir um buraco nos escudos pelo qual serão tragados mais tarde.

Seja como for, por ora, Temer vai ficar ficando, numa espécie de condicional tutelada pelo Congresso. Já é praxe que, após a cerimônia de transmissão da faixa presidencial, o ex-presidente seja gentilmente escoltado até a base aérea de Brasília, de onde embarca de volta para a vida na planície. Já pensou, se Temer quebrar o protocolo e sair de lá direto para uma cela?