POLÍTICA

Tiros contra o PT: a guerra política deixou de ser metáfora para virar fascismo

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Trocar votos e palavras por balas de verdade significa emburrecer rapidamente

Fascismo: era mortalmente ridículo antes e continua perigosamente ridículo agora (Imagem: O grande ditador/Divulgação)
Fascismo: era mortalmente ridículo antes e continua perigosamente ridículo agora (Imagem: O grande ditador/Divulgação)

Algumas rápidas considerações sobre o atentado que deixou dois feridos no acampamento pró-Lula instalado em Curitiba desde a prisão do petista. Para quem pensa que, sim, apoiadores do ex-presidente merecem morrer por compactuar com a corrupção e a vergonhosa sangria de recursos públicos por empreiteiras, políticos, doleiros etc., cuidado: a raiva e o desejo de eliminação física de rivais chamam-se fascismo.

Filósofos de todas as crenças e inspiradores de correntes políticas tão antagônicas, quanto o liberalismo, o absolutismo e o socialismo, destacam que a política surgiu justamente para que conflitos sejam resolvidos sem recorrer à violência. O debate franco de ideias, mesmo que ríspido, mesmo que árduo, em busca de um acordo sempre foi a esperança para que a humanidade mudasse de patamar. Trata-se de uma aposta na nossa capacidade de renunciarmos à brutalidade e usarmos a inteligência para acomodar diferenças.

Para ser justo, é verdade que o PT foi um grande responsável pela polarização que vivemos hoje. Inspirados pelo marqueteiro e preso da Lava Jato João Santana, o partido inventou o “nós contra eles” para encobrir o fato de que, uma vez no poder, aliou-se a “eles” contra “nós”, o povo. A radicalização atingiu tamanha temperatura, que desembocou em metáforas bélicas. Basta ver as declarações de presidenciáveis, políticos em geral, colunistas e eleitores. Palavras como “guerra”, “eliminação”, “metralhadora”, “tiro”, “inimigo” são cada vez mais comuns no discurso político.

Franco-atiradores

Como nunca me canso de dizer para meus alunos de jornalismo, palavras criam realidades, ao determinar o jeito como encaramos o mundo. Dizer que um adversário não tem condições de governar, que suas propostas são inadequadas para o país e que ele é incompetente, por mais bem-intencionado que seja, é fundamentalmente diferente de afirmar que ele deve ser eliminado, abatido, morto politicamente.

É pior ainda, quando as pessoas transformam metáforas em ações concretas, tiros verbais em balas verdadeiras, guerra ideológica em combate corpo-a-corpo. É o que se vê contra o PT, nos últimos tempos. Dos tiros disparados contra a caravana de Lula pelo sul ao atentado contra o acampamento petista, não são apenas os espíritos que se armaram. Ninguém se torna mais civilizado, pregando cabeças em postes. Se você acha que o PT passou dos limites da decência (como eu acho), é simples: vote em outro partido. Sim, o PT merece ser punido, mas a melhor pena é seu ostracismo, não sua morte física. Esta é a linha que separa a civilização do fascismo.