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Uma conversa franca com um ex-amigo petista que me mandou à m...

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“Te mando à m.. por insinuar que eu seja desonesto. Não sou. São essas simplificações ridículas que fazem boa parte do jornalismo brasileiro um lixo e ele sim desonesto...”, disse-me ele.

Uma conversa franca com um ex-amigo petista que me mandou à m...

Tiroteio: petistas atiram primeiro e pensam depois (Por um punhado de dólares/Divulgação)

Há alguns anos, quando as primeiras denúncias contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pipocaram na imprensa, um então amigo petista descarregou toda sua raiva contra os “golpistas” em posts no Facebook. Ele não era (e não é ainda) apenas um militante. Jornalista formado pela USP na mesma turma que eu, é um dos assessores mais próximos de Lula até hoje – daqueles que aparecem como papagaio de pirata em fotos do petista. A ponto, inclusive, de figurar em algumas notas de rodapé da Lava Jato. Naquele momento, contudo, já estávamos bastante afastados, mas mantínhamos algum respeito mútuo.

A coisa azedou quando ele atacou uma reportagem da revista Época escrita por um amigo meu, muito competente e com quem tive a honra de trabalhar por algum tempo. Ato reflexo, defendi-o e desafiei meu ex-colega de faculdade a provar que parte de seu salário, como assessor do Instituto Lula, não era pago por grandes empreiteiras. É oportuno relembrar o episódio, nesta quarta-feira (24), em que Lula é julgado pela segunda instância da Justiça Federal, em Porto Alegre. Muito dos ataques e dos “argumentos” petistas já estavam condensados nessa esclarecedora conversa de anos atrás. Eis o duro, mas revelador, diálogo que se seguiu no inbox do Facebook naquele passado remoto (mas ainda tão presente):

Ele faz o primeiro texto:

“Vou falar por aqui, Márcio. A Camargo Corrêa já declarou, publicamente, ter doado recursos ao Instituto. E assim faz ao FHC também. Mando te à m... por insinuar que eu seja desonesto. Não sou. São essas simplificações ridículas que fazem boa parte do jornalismo brasileiro um lixo e ele sim desonesto... ganho menos do que ganharia na iniciativa privada e trabalho para um cara que mora em um apartamento de classe média em São Bernardo do Campo. Não trabalho para a "XXXX" e não te pré-julgo por isso.

Mas vá tomar no c... seus questionamentos tacanhos e mesquinhos a mim, e sem procuração dele, ao XXXX. Entenda-se com seus problemas e recalques, Márcio. Tenho a consciência tranquila em trabalhar para um projeto político com seus acertos e erros, que qualquer um pode julgar politicamente, e o faço dentro do meu livre direito de trabalho e opinião. Lamento você ter se tornado esse ressentido. Se você ou qualquer outro colega me acha desonesto, cai fora do Facebook e não precisa me cumprimentar, melhor ir para o outro lado na rua. Minha mãe não me criou para isso e não preciso de mais dinheiro do que o que ganho com meu trabalho honestamente. Não tenho esse tipo de ambição vã, mas não julgo quem tem e a persegue de forma honesta. O dia que quiser ganhar dinheiro, saio disso aqui. Aprenda a ter respeito e se dar ao respeito, Márcio. Já passou da idade disso.”

Minha réplica:

“Talvez você não se lembre, mas um dia, na faculdade, você me indicou para uma vaga na assessoria de imprensa do XXXXXX, ainda quando ele era vereador. No dia da entrevista, você me recebeu e ficou me ciceroneando, enquanto esperávamos a hora. Você me disse que era legal, você estava aprendendo muita coisa. Mas, aí, você me falou algo que nunca saiu da minha cabeça: "você vai precisar ter estômago, porque você vai ter de fechar os olhos pra algumas coisas". Fui para a entrevista, sinceramente, torcendo para não ser aprovado. Dias depois, você me disse que haviam chamado a filha de um amigo dele, "porque, sabe como é... Eles conhecem ela". Disse-lhe que entendia, agradeci a força, mas respirei aliviado. Lamento, sinceramente, que você tenha aprendido tão bem a fechar os olhos, que se esqueceu de que anda às cegas. Não sei por que você lamenta que eu tenha chegado onde cheguei. Vou ser bem simples: sabe por que sou "esse lixo de jornalista recalcado"? Porque optei, num certo momento, por escrever sobre negócios para não me envolver com política. Sabe por quê?

Porque: 1) lá por volta dos anos 90, um amigo que trabalhava voluntariamente no diretório do PT de Itaquera foi ameaçado de morte. Ele descobriu, por acaso, um esquema de um cara de lá de achaque e intimidação de perueiros. Naquela época, eles eram autônomos e havia pressão para formarem cooperativas. Uma delas era do cara do PT, que virou, depois, importante na legenda. Até hoje, ouço coisas dele. 2) Um assessor próximo de Lula, no primeiro mandato, me disse, entre uma cerveja e outra, que "todo mundo rouba. A direita, pelo bolso; a esquerda, pela causa". 3) Quando fui ao batizado do neném de um então deputado federal petista, já havia estourado o mensalão. Ele me disse: "até aquele senador em quem você votou aceita caixa dois." 4) Se eu publicasse ou explorasse tudo o que ouvi, vi e passou pela minha mão, eu teria poucos amigos. Por "amor" à causa, resolvi que um mal menor vale um bem maior. 5) Tudo tem limite. Quando Fidel mandou fuzilar balseiros, o Saramago escreveu uma carta pública, rompendo com o regime. 6) O PT não tem mais projeto. 7) Não sou eu quem mudou. Nunca apertaria a mão de Maluf, Collor, Sarney. Nem ficaria torcendo para o Renan no Senado. 8) Pedi demissão três vezes da "XXXXX", por questões políticas - o apoio nojento ao Aécio. 9) Sou "malvisto", na "XXXX", e deixei de frequentar as reuniões de pauta, por minhas críticas, 10) Aceito o questionamento público e franco de ideias, como sempre o fiz. Ganho bruto XXXXX, como PJ. Entre os editores, é o menor salário. Nunca cresci na hierarquia, além de editor de site, por tentar levar bom senso para as redações, 11) Por falar em XXXXX, pergunte-lhe das vezes em que tentei emplacar pautas sobre trabalho escravo, fornecidas por ele, e lhe liguei constrangido, dizendo que estavam me acusando de "ser contra empresas" na redação. 12) A maior medida da falta de argumentos são palavrões e ofensas pessoais. 13) Ao contrário do que muita gente acha, não sou de direita; o que eu quero é uma esquerda melhor. Algo do qual, infelizmente, o PT, o Lula e todos abriram mão, para apertar as mãos de empreiteiros, conservadores políticos, empresários em geral, e latifundiários. Ops! Deu 13! E olha: não escrevi nenhum palavrão! Como dizia o Millôr: "desconfie dos heróis que lucram com seus ideais...”

A resposta dele:

“Não questionei você por ser da XXX, e não te chamei de lixo de jornalista recalcado. Ao contrário, disse que não te julgava por isso. Te chamei de recalcado por si só. Estás alucinando, lendo o que não escrevi. Não pedi procuração do XXXX, te disse pelo que já vi falar dele, e é por mim que digo. Saí do trabalho da Câmara. Esse é outro trabalho. Você nitidamente diz o que acha de mim. Quer me julgar sem saber, me julgue. Quer julgar o PT, direito seu. Sim, o partido tem problemas, mas também tem qualidades. Mas não venha falar assim comigo que não te dei esse direito. Se acha isso de mim, cai fora. Toca sua vida que eu toco a minha.”

Minha vez:

“Não te chamei de desonesto. Te chamei de parcial. Quanto a recalques... Bem, até Freud sabonetou, ao dizer que o charuto dele era só um charuto. Me acusar de algo que aflige 7 bilhões de viventes é como me recriminar por consumir ar... e a única vez em que questionei publicamente o XXXX foi quanto aos repasses de dinheiro do Ministério do Trabalho. A resposta padrão me surpreendeu: as contas tinham sido aprovadas pelo ministério e é isso que importa. Interessante... O que mais me preocupa, quando converso ou algum petista me manda tomar no cu, é o duplipensar orwelliano das pessoas. Afirmar negando. Atacar defendendo. Criticar repetindo a prática. Talvez eu realmente não tenha evoluído. Não consigo falar novilíngua nem duplipensar. Só pensar... Uma limitação séria, ao que parece. Seja feliz, tenha uma vida digna e, diante de Osíris, possa dizer que sua vida também fez outras pessoas felizes! Vou ficar aqui no cantinho do chorume com outros 7 bilhões de recalcados!”