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Vem aí um PSDB de esquerda? Não seria nada mau, mas...

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Entre o poder e o sonho, a elite tucana promoveu uma fusão fatal: o sonho do poder

Vem aí um PSDB de esquerda? Não seria nada mau, mas...

(Imagem: Márcio Juliboni sobre foto de Wikimedia Commons)

Como se sabe, PSDB significa Partido da Social Democracia Brasileira. Atualmente, contudo, poderia significar, com muito mais acerto, “Partido Sem Direção, nem Bússola”, dada a total falta de orientação político-ideológica que arrasta os tucanos para a morte eleitoral. “Cabeças pretas” enfrentam “cabeças brancas” numa disputa para dar um rumo àquele que já foi o maior partido brasileiro, responsável pelo Plano Real e pelo fim de anos de hiperinflação, falta de horizontes etc. Embora a briga entre quem ainda tem pigmento no cabelo e quem não tem seja a principal, uma ala começa a perder a vergonha de se manifestar. Sim, ela existe: a esquerda do PSDB, que sonha em resgatar o espírito da social democracia que inspirou a sua fundação. Tucanos de esquerda? Não seria nada mau... mas é difícil acreditar que isso aconteça.

Agrupados sob o nome de Movimento PSDB Esquerda pra Valer, seus militantes são liderados pelo cientista social Fernando Guimarães e contam com, entre outros, com o presidente interino da legenda, Alberto Goldman. Em artigo publicado nesta quarta (15) no site da Carta Capital, Guimarães cita algumas das “bandeiras históricas” que sonha resgatar: a defesa do parlamentarismo, o fortalecimento de uma comunidade de países latino-americanos, a ampliação da democracia participativa, políticas ambientais sustentáveis e combate ao volátil capital especulativo.

Como se vê, não há nada de muito ameaçador aí para as elites. Nada de estatização, de fim da burguesia, de bolcheviques em Brasília. Trata-se apenas daquela mistura de práticas econômicas keynesianas com democracia participativa e parlamentarismo. Em última análise, são ideias que circulam há tempos pelo país, com mais ou menos aplicação nos últimos anos, mais ou menos resultados. E que deveriam continuar no debate público, sem ódios nem perdigotos (sim, é difícil encontrar alguém que não cuspa preconceitos hoje, com o pretexto de que apenas defendem enfaticamente boas ideias).

Pé esquerdo

Em qualquer país civilizado (infelizmente, são cada vez menos pelo mundo), um impulso para renovar um dos maiores partidos seria, pelo menos, visto com respeito. Mas a esquerda do PSDB já começou com o pé esquerdo (o trocadilho é horrível, mas irresistível). Aliou-se a ninguém menos que Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, pré-candidato à Presidência, possível comandante supremo do PSDB em 2018, mas, sobretudo, anti-esquerda. Não há nada, na trajetória pública de Alckmin, que sinalize simpatia pelas ideias defendidas pela esquerda da legenda. Pelo contrário!

Bastante conservador em costumes, é alinhado às correntes mais tradicionalistas da Igreja Católica; gente para quem o Papa Francisco é comunista. Em vários momentos, utilizou a Polícia Militar para reprimir violentamente manifestações populares. Um marco clássico foi a repressão aos protestos em junho de 2013. Lembrem-se de que os primeiros atos foram vistos com desconfiança pelos paulistas, que não entenderam bem (até hoje) o que significavam. O ponto de virada ocorreu, quando a PM atacou com brutalidade os manifestantes que ocupavam a avenida Paulista. As cenas foram tão fortes, que a opinião pública passou a apoiar os atos, que culminaram na marcha de mais de um milhão de pessoas, apenas na cidade, naquele distante mês.

Além disso, a esquerda do PSDB é tratada com desdém pelo grupo que domina o partido. João Doria, um nome em evidência, atacou duramente Goldman, a quem chamou de “frustrado de pijama”. Tampouco o decadente Aécio Neves, o valente Tasso Jereissati, o diplomático Fernando Henrique Cardoso, e o esperançoso José Serra parecem levar a sério as ideias de Guimarães, Goldman e companhia. É uma pena. Entre o poder e o sonho, a elite tucana promoveu uma fusão fatal: o sonho do poder. Como todos os partidos brasileiros, aliás.