ECONOMIA

Você, patriota, torce por Trump contra a China? Que tal torcer pelo Brasil?

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Brasil é o quarto maior credor da dívida externa dos EUA; a China, nossa maior cliente. Um duelo entre chineses e americanos tem tudo para nos atrapalhar

Você, patriota, torce por Trump contra a China? Que tal torcer pelo Brasil?

Essa briga não é nossa: paz entre EUA e China é o melhor para o Brasil (Foto: Divulgação)

Em 2016, parte dos brasileiros quase pediu cidadania americana para votar em Donald Trump. A torcida organizada do republicano, por aqui, enxergou nele o prenúncio de tempos antiglobalização, combate ao capitalismo financeiro mundial, nacionalismo e o fim do politicamente correto. Os trumpistas verde-amarelos também acreditaram (e acreditam) que sua eleição é uma premonição da própria mudança de rumo do Brasil em 2018. Nisso, a ligação óbvia é com Jair Bolsonaro. Mas, se você é patriota mesmo, deveria, na verdade, torcer para que Trump não atrapalhe o Brasil – e há muitos motivos para temê-lo. Para começar: sabia que somos o quarto maior credor da dívida externa americana? Além disso, a China é o país que mais compra nossos produtos, num momento em que nossas exportações batem recorde. Logo, qualquer piripaque na economia dos EUA ou da China, causada por uma barbeiragem de Trump, nos deixará mais pobres.

De acordo com o Departamento da Fazenda americano, em outubro (dados mais recentes), o Brasil detinha US$ 270 bilhões em títulos públicos daquele país. À nossa frente, estavam apenas a China (US$ 1,189 trilhão), Japão (US$ 1,093 trilhão) e Irlanda (US$ 312 bilhões). Parece pouco? Uma mixaria? Mas considere o seguinte: segundo o Banco Central, em dezembro de 2016, nossas reservas internacionais eram de US$ 372 bilhões, sendo que 81% estavam investidos tem títulos públicos dos EUA. Se você ainda não percebeu, as reservas são o nosso escudo contra crises mundiais, ataques especulativos e outras sacudidas da economia mundial. Em último caso, o Brasil vende os títulos americanos, pega o dinheiro e quita compromissos.

Arruaceiro

Para facilitar, imagine que esses papéis são um apartamento que você comprou para investir e lucrar com o aluguel. Logo, esse imóvel representa principalmente duas coisas para você: uma forma de poupar dinheiro (reserva), um investimento (seu valor pode subir com o tempo e, além disso, você receberá pelo aluguel enquanto for seu proprietário). Agora, imagine que, por azar, o imóvel foi alugado para uma pessoa totalmente desequilibrada e irresponsável, que cria caso com a vizinhança, gasta mais do que ganha e, ainda por cima, quer brigar com o amigo que mais lhe empresta dinheiro no fim do mês e a quem mais deve na vida. O que pode acontecer? Várias coisas: esse inquilino-mala pode depredar seu patrimônio, quebrando o apartamento e, por tabela, desvalorizando-o. Segundo: pode simplesmente deixar de pagar, já que, no limite, aquele amigo com quem arrumou briga se cansará e deixará de ajudá-lo.

Soa familiar? Sim. Este é Donald Trump, o novo inquilino de um imóvel de US$ 270 bilhões em nome do Brasil – aquela montanha de dinheiro em títulos públicos americanos que possuímos. O aluguel, por analogia, são os juros que esses papéis nos pagam. Nesse caso, a valorização do nosso patrimônio ocorre sempre que a confiança dos investidores internacionais no governo dos EUA crescer, já que fica mais fácil “vender esse imóvel” chamado carteira de títulos americanos. Quem não quer um inquilino que paga em dia e não cria caso? O problema é que Trump está criando muito caso – alguns, com gente grande.

O melhor exemplo é o da China. Nesta segunda-feira, ao expor seu plano de segurança nacional, o republicano falou duro e acusou os chineses de serem “rivais” que disputam o poder global com os EUA. E mais: os americanos responderão à altura. Se fosse apenas mais uma incontinência verbal de Trump, já seria preocupante. O que arrepia, nisso tudo, é que os EUA dependem duplamente da China. O país é seu maior credor externo e seu maior parceiro comercial. Transformar os chineses de parceiros em inimigos é se arriscar a, no limite, ficar sem o dinheiro deles para financiar... o próprio governo Trump.

Ai, caramba!

E, se Trump não tiver dinheiro, quem vai querer emprestar para ele? Sem poupança interna, o Brasil não tem condições de se tornar um megafinanciador da máquina pública americana. Tampouco outros países. De duas, uma: ou Trump deixará de honrar compromissos ou fabricará dólares para quitá-los. No primeiro caso, nossas reservas internacionais viram pó. No segundo, à medida que houver mais dólares no mundo, o nosso real pode até se valorizar e dar a impressão de que ficamos mais ricos e viajaremos mais vezes à Disney. Pura ilusão! Na outra ponta, nossos produtos exportados ficarão mais caros. Como não temos produtividade, nem tecnologia de ponta, perderemos competitividade e clientes. Nunca é demais lembrar que a débil retomada da economia brasileira é sustentada, atualmente, sobretudo pelo mercado externo: exportações de produtos agrícolas e minerais, carros etc. Isto porque, o emprego e a renda ainda demorarão para se recuperar – e, por tabela, o consumo das famílias.

Logo, se você adora, quando Trump posa de caubói moderno e desafia a China para um duelo, pense duas vezes. Para o republicano, você é apenas aquele chicano anônimo no canto da cena que pode tomar um tiro de bobeira. Ele soprará a fumaça do cano da pistola e sairá chacoalhando as esporas. E você? Sangrará sorrindo até uma morte gaiata?