POLíTICA

Você se casaria com uma criança, porque a lei deixa? Quem defende Moro, talvez...

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Está difícil para as facções mentais entenderem o básico: não é porque algo é permitido por lei, que é moral

Você se casaria com uma criança, porque a lei deixa? Quem defende Moro, talvez...

Perdendo a cabeça: apoiadores de Moro ignoram a lógica (Foto: Lula Marques / AGPT)

Desde que a Folha de S.Paulo revelou que os juízes Marcelo Bretas e Sérgio Moro, baluartes da Lava Jato, recebem auxílio-moradia mesmo sendo donos de imóveis, uma turba de internautas os defende e, por tabela, ataca e xinga (mesmo) quem os critica. O artigo que escrevi para o Storia, por exemplo, postado em alguns grupos do Facebook, está sendo metralhado. Há, basicamente, três tipos de “argumentos” (muitas aspas, por favor): 1) é lei, portanto, não há nada errado; 2) ele merece, pela luta que trava contra a corrupção; 3) embora imoral, divulgar o benefício de Moro é municiar os ataques da esquerda e, por isso, é inconveniente.

Cada um desses “argumentos” (multiplique por dez as aspas) esconde armadilhas que não ajudam em nada o Brasil a se tornar um país melhor, pois, se aplicados a rigor, gerariam ainda mais injustiças. E, convenhamos, o povo já está cansado disso. Que tal colocar um pouco de juízo na discussão e parar com essa mania de transformar debate público em guerra de traficantes mentais pelo controle de morros no Facebook?

Com a esperança de ainda haver vida inteligente na internet, vamos lá...

Argumento 1: se está na lei, não é errado

Esse é, de longe, o mais citado por quem defende que Sergio Moro receba o auxílio-moradia, mesmo sendo proprietário, desde 2002, de um apartamentão em Curitiba. Então, precisamos voltar ao básico: lei e moral são duas coisas bem diferentes. Não é porque uma coisa é permitida por lei, que ela é moralmente aceitável. Lembre-se de que muitas injustiças e absurdos foram e são sustentados até hoje, no mundo inteiro, porque alguém simplesmente os colocou num papel. O apartheid era sustentado pelas leis sul-africanas. Um negro que se sentasse no lugar errado no ônibus, ou entrasse indevidamente em um local reservado apenas para brancos, era punido pela Justiça. Era lei. Pelo pensamento de quem defende Moro, é, portanto, certo.

Nos rincões da Ásia Central, lá pelas zonas rurais do Paquistão, Índia, Afeganistão e adjacências, as leis islâmicas autorizam homens a se casarem com meninas que, muitas vezes, mal deixaram as fraldas. Responda sinceramente: se você tivesse o direito a se casar com uma criança de 12 anos, porque a lei permite, você o faria? É claro que você dirá que não, “onde já se viu”, “não viaja”, “tá forçando” etc. Mas, creia, se você tem algum resquício de lógica dentro dessa sua cabeça de facção, entenderá que é o mesmo princípio: pode até ser lei, mas é imoral e sua índole não o permitiria fazê-lo (a menos, claro, que você seja um pedófilo em busca de oportunidades). Da mesma forma, você expulsaria um negro dos bancos dianteiros de um ônibus, e o obrigaria a sentar no fundo, só porque a lei determina? Se você defende o auxílio-moradia para Moro, e é suficientemente honesto com sua própria lógica, será obrigado a dizer que sim...

Argumento 2: ele merece, porque luta contra corrupção

É claro que temos que valorizar quem luta contra corrupção, sobretudo quando enfrenta alguns dos mais poderosos políticos e empresários do Brasil. É algo a ser comemorado. Mas há várias formas de prestigiar Moro, sem ofender a lógica, nem a moralidade. De condecorá-lo com medalhas de honra ao mérito e erguer bustos em sua homenagem, a engajar-se na melhoria das condições de trabalho de juízes, promotores e desembargadores, há um campo enorme de opções. Mas, sinceramente, nenhuma delas deveria envolver a tolerância com desvios éticos. Juízes devem ganhar bem, até para não caírem na tentação de se corromperem. Sim, é verdade, seus salários não são reajustados desde 2015. Mas o auxílio-moradia não é salário, não deve ser usado como complemento de renda e ponto.

Acrescente-se o fato de que a Resolução 199 de outubro de 2014, publicada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), determina que cada juiz seja responsável por requerer o próprio benefício. Moro o recebe, não porque é obrigado. Não porque, simplesmente, cai na conta dele e não pode fazer nada a respeito. Moro só ganha uns trocados a mais, porque, um belo dia, tirou algum tempo de seu expediente, preencheu deliberadamente um requerimento e o despachou aos responsáveis. Teve, portanto, tempo para amadurecer a ideia, pesar prós e contras e não detectar nenhuma imoralidade – mesmo sendo dono de um apartamento de 256 metros quadrados em Curitiba desde 2002. Resumindo: ser conivente com um desvio ético de Moro, porque ele combate a corrupção, é a mesma coisa que tolerar o traficante, porque ele pacifica o morro.

Argumento 3: embora imoral, criticar Moro agora é dar munição aos ataques do PT e da esquerda. Logo, é inconveniente falar disso

Esse é o argumento da facção do Comando Verde-Amarelo, em sua violenta guerra contra a facção do Comando Vermelho-Petista pelo domínio dos morros brasileiros. Desculpem-me, mas não estou em guerra nem com a direita, nem com a esquerda. Luto apenas por um país mais justo. Insisto naquela frase do Millôr: "jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados". Eu também gosto daquela (aliás, gosto mais): "Livre pensar é só pensar".

Critico os descaminhos do PT com a mesma convicção com que critico os descaminhos de quem quer que seja. Quero um país melhor, não uma facção ou outra no poder. Cansei de facções. Minha facção é o Brasil. Esse é o papel da imprensa. Em caso de dúvidas, assista ao "The Post", em cartaz nos melhores cinemas, e pergunte a si mesmo: se você fosse amigo íntimo do Robert McNamara, como Katy Graham era, e de John Kennedy, como seu editor-chefe, Ben Bradlee, era, você não publicaria as coisas erradas que fizeram para encobrir a fraude da Guerra do Vietnã? Pelo visto, muitos dos que defendem Moro não publicariam, com o argumento de que é jogar a favor do inimigo - no caso, os petistas e a esquerda em geral. Se for isso, lamento: essa é a diferença entre quem entra para a história e quem vira poeira.