POLÍTICA

Votei em Lula a vida toda, mas ele merece ser preso

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Lula, o líder que libertaria os pobres da penúria secular, na verdade limitou-se a pagar nossa fiança junto à elite econômica e política, às custas de muito dinheiro público

Hora de dizer adeus: Lula deu as costas ao povo para abraçar a atrasada elite política e econômica do país (Foto: Divulgação)
Hora de dizer adeus: Lula deu as costas ao povo para abraçar a atrasada elite política e econômica do país (Foto: Divulgação)

Ninguém de esquerda está comemorando a rejeição pelo STF, por 6 votos a 5, do habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na madrugada desta quarta para quinta-feira (05). A decisão libera a prisão de Lula no caso do tríplex do Guarujá, no qual foi condenado por corrupção passiva pelo juiz Sérgio Moro. A sentença foi ampliada em segunda instância, pelo TRF-4, de nove para 12 anos. Agora, Lula tem até as 17h desta sexta (06) para se entregar à Polícia Federal e iniciar o cumprimento de sua pena, conforme determinou Moro no início da noite. Estamos, portanto, a algumas horas para que o maior líder popular da redemocratização caia na vala comum dos corruptos. É triste para mim e para muitos que votaram nele a vida toda. Mas é merecido. E, mais do que tudo, necessário.

Primeiro, porque é pedagógico para a esquerda, que, de tempos em tempos, se deixa fascinar por líderes messiânicos. O mito do revolucionário foi construído, ao longo do século XX, com muito mais romantismo do que fatos. Dos bolcheviques russos a Che Guevara e Fidel Castro, passando pelos sandinistas da Nicarágua, Mao Tse Tung, as FARC e Hugo Chávez, a crendice esquerdista revelou toda sua inocência ao crer que a defesa dos excluídos e desvalidos, por si só, era um atestado incontestável de retidão moral. Como duvidar de alguém que luta pelos mais pobres? Como questionar sua honestidade? Embebidos pelo discurso (correto) da luta de classes, toda crítica aos revolucionários sempre foi recebida como ataques dos capitalistas e de seus cupinchas, como a mídia golpista.

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Esse é só um dos lados dessa história. Veja outro:

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Cegueira ideológica

Não é de hoje, porém, que a esquerda cai no erro de transformar em deuses meros mortais, tão falíveis quanto qualquer um. Basta lembrar do trauma causado pela revelação dos crimes de Josef Stálin, que mandou para a morte estimados 20 milhões de compatriotas. Ou do Khmer Vermelho. Ou dos fuzilamentos de balseiros determinados por Fidel Castro, que levaram o Nobel de Literatura José Saramago a romper, por meio de uma carta pública, com o regime. Ou da aliança das FARC com o narcotráfico. Ou do rompimento com a democracia promovido por Chávez e aprofundado por Nicolás Maduro. Em todos esses casos (e vários outros), a esquerda bovinamente alinhou-se aos seus messias, justificando as arbitrariedades em nome de um bem maior – a redenção social.

A construção da imagem pública de Lula seguiu o mesmo caminho. Muitos, durante quase 40 anos, viram o ex-metalúrgico, ex-líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) como o legítimo porta-voz dos que nada tinham, a não ser a esperança de que, um dia, o Brasil finalmente lhes daria uma vida digna e os acolheria como cidadãos de direito e de fato. Por uma série de motivos pessoais (minha infância, adolescência e juventude foram vividas numa dureza de dar dó) e ideológicas (cresci em São Mateus, um bairro pobre da zona leste paulistana, e sei que pobre não é pobre porque quer, mas porque é vítima de uma série de injustiças sociais), também segui Lula por incontáveis comícios. Bastava saber que ele iria participar de alguma manifestação, e lá estava eu berrando “Brasil, urgente, Lula presidente!”, ou “Olê-olê-olá, Lula, Lula!”. Ainda tenho, perdida em algum lugar das minhas bagunças, uma coleção de estrelinhas do PT, compradas naquela banquinha que ficava, nos anos 80 e 90, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo. O meu xodó é uma de metal esmaltada – cara para caramba naquela época para quem, como eu, não tinha literalmente R$ 1 para comprar o bandejão da USP e precisava da bolsa-alimentação fornecida pelo serviço social da universidade para comer.

Ah... a realidade!

Lembro-me de que, já formado jornalista, consegui entrar na coletiva de imprensa em que Lula se apresentou como presidente eleito em 2002, no hotel Intercontinental da Alameda Santos. Estava de folga e, portanto, não escalado para cobrir a coletiva, mas o desejo de assistir àquele momento histórico levou a mim e a outro colega (que, mais tarde, integrou a Secretaria de Comunicação sob Franklin Martins) a arriscarmos. Para nossa sorte, não havia lista de credenciados e a entrada na sala do hotel era uma bagunça tão grande, que bastou apresentar nossos crachás funcionais para participarmos. E foi uma felicidade, quando seu então porta-voz, André Singer, apresentou Lula como “presidente eleito”. Ele discursou, quase chorei, fui para a avenida Paulista e fiquei até de madrugada comemorando – e, de quebra, ainda encontrei com o futuro ministro Guido Mantega andando alegremente por lá, misturado entre os populares, numa felicidade só.

Era a nossa hora! Mas... a realidade! Ah... a realidade...

Rapidamente, Lula se uniu àquilo que havia de mais podre na política. Selou pactos com empreiteiros corruptos e corruptores, paparicou José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e tantos outros. Fez as pazes com Fernando Collor. Reuniu, em seu ministério, uma mostra significativa do que havia de mais fisiológico e deteriorado na política nacional. Acovardou-se ao não combater poderosos interesses econômicos, como a concentração bancária que nos obriga a pagarmos 300% de juros ao ano no crédito pessoal, enquanto a taxa básica de juros está no seu nível mais baixo. Apertou alegremente as mãos de latifundiários. Optou, como o próprio Singer afirmou posteriormente em livro, por um pacto conservador e por reformas graduais. Culminou naquele odioso aperto de mãos com Paulo Maluf para abençoar a candidatura de Fernando Haddad à prefeitura paulistana. Um tapa na cara de qualquer petista. Um aperto de mãos com a corrupção, o atraso, o passado. Se Lula andaria de mãos dadas com políticos como Maluf, eu estava fora.

O feijão e o sonho

Seus defensores ferrenhos passaram anos dizendo que isto é política, ou seja, é preciso compor com adversários em nome da governabilidade. É a tal realpolitik de botequim que evocam. Mais tarde, esse pragmatismo político revelou-se um verdadeiro balcão de negócios: loteamento político de estatais, desvio de dinheiro público para campanhas eleitorais e favores pessoais, ataques e coerção a quem não concordasse... Lula, o líder que libertaria os pobres da penúria secular, na verdade limitou-se a pagar nossa fiança junto à elite econômica e política, às custas de muito dinheiro público. Está aí o ex-governador fluminense Sérgio Cabral, um aliado leal de Lula, nos bons tempos, para provar. Lula aceitou mimos e favores. Aceitou tríplex reformado de frente para o mar. É questão de tempo para que seja condenado também pelo sítio de Atibaia. É questão de tempo, ainda, para que a Operação Zelotes apure suas responsabilidades no caso das emendas provisórias.

Lula perdeu o rumo e, com ele, a esquerda. É hora, portanto, de escolhermos entre a reconstrução da esquerda e da esperança de um país melhor, ou de envelhecermos atados a velhos e enganosos sonhos. Por tudo isso, Lula merece ser preso. Por se corromper e pactuar com a elite que deveria combater. Por mostrar à esquerda que é necessário cuidado redobrado com líderes messiânicos que podem nos cegar. Por abrir caminho para o surgimento de novas e (espera-se) melhores lideranças. Por representar uma estabilidade jurídica que garante que ninguém, seja de direita ou de esquerda, está acima da lei. Por evitar, finalmente, que sua liberação representasse a porteira aberta pela qual escapariam, também, figuras tenebrosas da República, como Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e também condenado em segunda instância.

Como disse, é triste. Mas é também pedagógico. A esquerda deve lutar por um país mais igualitário (em que ricos não tenham privilégios e pobres tenham oportunidades) e justo (em que ricos sejam punidos pela lei com o mesmo rigor dos pobres – mesmo que seja um ex-presidente de esquerda que poderia entrar para a história como um dos maiores líderes populares do país).

Atualizado às 19h30 com o mandado de prisão de Lula por Moro.