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William Waack, Deneuve, Kevin Spacey e outros merecem perdão por suas obras?

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Ou, pelo contrário, os livros do jornalista e obras como Belle de Jour e House of Cards devem ser banidos, junto com seus protagonistas?

William Waack, Deneuve, Kevin Spacey e outros merecem perdão por suas obras?

Quem sujou as mãos? Underwood ou Spacey? (House of Cards/Divulgação/Netflix)

O jornalista William Waack, recém-demitido pela Globo após o vazamento de um comentário racista feito em 2016, aproveitou este domingo (14) para se defender. Em artigo publicado pela Folha de S.Paulo, Waack basicamente realizou três movimentos: a) afirmou que disse o que disse (“...é preto. É coisa de preto...”) na brincadeira; era apenas uma piada; b) os “canalhas do linchamento”, no entanto, a interpretaram como manifestação literal de seu racismo; c) sua obra, fruto de 48 anos de jornalismo, prova que ele não é racista. Tais argumentos foram entremeados por mea culpas (Waack admitiu, apenas, que foi uma piada “idiota”), reconheceu que piadas podem ser discriminatórias e evocou amigos que testemunharam sobre sua boa índole – entre elas, a também jornalista, e negra, Glória Maria. O texto já se tornou o mais lido, comentado e compartilhado pelos leitores da Folha hoje, com enfáticas manifestações tanto de apoio quanto de recriminação. Mas, até que ponto, a obra de alguém deve ser banida por seus pecados? E até onde a obra é suficiente para absolvê-lo?

Respondamos, então, à primeira pergunta: até que ponto a obra de alguém deve ser banida, devido aos pecados de quem a concebeu? Para irritação dos binários, a resposta mais sincera é: depende. Isto porque, há, pelo menos, dois graus de relação entre artista e obra. O primeiro grau é aquele em que a obra é extremamente autoral; reconhece-se nitidamente um estilo, uma personalidade que a moldou. São exemplos, os escritores, compositores, artistas plásticos, dramaturgos, diretores de cinema, ensaístas, articulistas e parte dos jornalistas. Uma página de Saramago é tão característica e inconfundível, quanto uma de Guimarães Rosa, ou um quadro de Dalí ou um filme de Almodóvar.

Quando estamos diante de obras deste tipo, só há duas situações possíveis. A primeira é uma identificação perfeita entre as crenças mais íntimas do autor e o que ele expressa em sua obra. Ele realmente vive aquilo que prega. Neste caso, só nos resta uma atitude: aceitar ou rejeitar criador e criação em bloco. Ou você ama, ou você odeia Hitler e o seu livro “Minha Luta”.

Quem é o autor?

Mas há um segundo grau de relação entre artistas e autores e suas obras. Trata-se daquele em que suas crenças íntimas não estão representadas, necessariamente, no produto. Talvez, essa seja até a situação mais corriqueira. Atores frequentemente dão vida a personagens que detestam; ghost-writers registram ideias com que não concordam; músicos tocam canções de que não gostam; arquitetos criam projetos sob encomenda; jornalistas escrevem aquilo que a chefia espera... O que fazer? O problema é que, nesses casos, criadores e criações descolam-se e complicam a vida de quem gosta de respostas simples. Pode-se aprovar o criador e condenar a obra ou vice-versa, por exemplo.

Um caso concreto de grande repercussão mundial foi o afastamento do ator Kevin Spacey da série House of Cards, produzida pela Netflix, na qual interpretava o maquiavélico e implacável Frank Underwood, cuja ambição de chegar à Casa Branca o leva a uma série de atos hediondos. No fim do ano passado, o site americano Buzzfeed publicou um relato do ator Anthony Rapp, que acusou Spacey de assédio sexual em 1986, quando Rapp era um adolescente de 14 anos e o ex-astro de Hollywood tinha 26. Na tentativa de se justificar, Spacey assumiu ser homossexual. A manobra pegou mal com a comunidade LGBT, que o acusou de oportunista. O ator, hoje, é um pária no mundo artístico.

Mas, em que, a conduta imprópria de Spacey arruína a história de House of Cards, seu roteiro e sua capacidade de retratar a brutal luta pelo poder – seja na Casa Branca ou, numa versão ainda mais rocambolesca, no Brasil? Para mim, a série continuará como uma ótima crônica do que se passa nos bastidores de Washington. Não se trata de isentar o ator (nem qualquer outro envolvido em assédio e demais escândalos), mas de entender que a importância da obra o supera.

Longe dos olhos, tudo bem?

Da mesma forma, é bem provável que, a partir do manifesto em que defendeu o direito dos homens de “importunar” as mulheres em nome da liberdade sexual, a atriz francesa Catherine Deneuve também seja proscrita das antologias cinematográficas. Quem até agora enxergava, na sua Séverine do clássico “Belle de Jour”, dirigido em 1967 por Luis Buñuel, uma metáfora da tentativa da mulher se libertar das amarras morais burguesas, ao se prostituir durante as tardes, enquanto o marido trabalha, enxergará agora o quê? Apenas Deneuve, a “aliada dos porcos”. Mas, sinceramente, não se trata de ser reducionista demais?

Se é verdade (pelo menos, para mim), que não podemos condenar uma obra, simplesmente porque contou com a infeliz participação de alguém que, mais tarde, revelou-se um crápula, é hora de ver o outro lado. E a obra? Ela pode redimir alguém, como pretende Waack, em seu artigo na Folha de hoje? Esta pergunta só tem sentido, quando se observa seu pressuposto: a vida e as crenças particulares não precisam coincidir com a vida e a obra públicas. Uma piada racista, segundo essa lógica, seria perdoável, desde que seu autor tivesse uma conduta social irrepreensível. Mas já sabemos, há muito tempo, o que essa separação entre público e privado pode esconder. Como colocado por Waack, trata-se do mesmo princípio que permite que um sujeito espanque a mulher, na privacidade de seu quarto, e seja respeitado pela sua religiosidade nas missas de domingo.

Quando Waack evoca a sua obra para inocentá-lo, assume que ela é autoral, isto é, reflete aquilo que efetivamente pensa e defende. Se a obra é autoral, esse argumento só é válido, quando corresponde também às atitudes em sua vida privada. Isto porque, como alguém já disse, nosso caráter se revela pelo que fazemos, quando ninguém nos vê. Sob os holofotes, fazer algo que não corresponde às nossas reais crenças não é caráter – é hipocrisia. E Waack pagou caro por ela.