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Lembrança das flores

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Tinha mil senhas na manga. José na conversa de bar se orgulhava de sua memória, lembrava-se de datas, dias e dentre tantas outras coisas nunca esqueceu das suas senhas, senhas que na multidão de contas que hoje todos temos, esquecemos. No almoço com os colegas de trabalho ou no bar com os amigos, mesmo entre familiares, fazia sempre uma brincadeira em que pedia para eles falarem eventos, documentos, etc e então ele respondia prontamente, ou quase, a numeração correspondente na hora. As vezes essa brincadeira de José dava certa, as vezes não.

· José então me diz a data de aniversário daquela minha ex-namorada que eu adorava e vocês só viram uma vez porque odiaram ela! - Disse Juca já enfadado com aquela meia hora de adivinhações e nenhum assunto novo.

· Fácil! Ela nasceu em setembro no dia 3, tem 29 anos e o dia que você apresentou ela foi no dia 20 de dezembro umas 20 horas que é quando devíamos estar no bar. Ela era loira dos 2 olhos verdes e seu nome era Florbela Pires! Tinha 3 pequenas pintas nas costas!

· Aha! José, ela tinha apenas duas pintas nas costas! E isso só eu posso confirmar! - Disse Juca esboçando certo contentamento por finalmente quebrar aquele ciclo de exibição do amigo.

· Não senhor Juca! Flor tinha 3 pintas! Uma na altura do ombro esquerdo, outro na lombar, na parte da esquerda, e uma bem escondidinha na lateral da sua cintura!

Ninguém se lembrava dessa mulher e ficaram assustados com tantos detalhes, Juca ficou extremamente sem graça pois José estava certo, então, Maria retrucou quebrando o silêncio:

· Como você sabe tanto dela José! Ninguém gostava dela mesmo! - Olhou rapidamente para o Juca - Desculpa Juca. - Voltou o rosto para José - Ontem mesmo, quando falamos do encontro conversamos até se Juca iria trazer alguém, você disse que até você perdera as contas das tantas namoradas do Juca! E ainda veio falando que estava com a memória fraca.

Maria sempre fora da turma e sempre teve um romance com José, mas só recentemente que estavam juntos. Juca estava com um pouco de suor na cara e meio sem reação, José era seu amigo, mas nunca lhe confidenciou esse tipo detalhe. Por mais que Juca fosse “agitado” não era pessoa que ficasse se vangloriando pelas mulheres com quem andava e, por ser ainda romântico, sempre estava apaixonado por todas que esteve junto.

· José, cara, você está certo. Esqueci dessa pinta na cintura dela… Quer dizer só via ela quando estávamos a sós. Como você pode reparar nessas pintas dela só vendo ela uma vez? - Disse Juca fazendo uma cara de quem não entende nada.

Todos na mesa esperavam uma resposta de José, ninguém ousava falar nada, quer dizer, olhe a situação: A atual namorada e amiga do lado de José, o amigo em sua frente olhando nos seus olhos, o casal de amigos confidentes, que sempre tem em turmas, sem jeito e outros amigos com o olhar perdido evitando o julgamento que se faz nas fofocas aos outros e não entre amigos. Maria encarava José, quase com desespero, ela não se lembrava de datas como José mas sabia que fora naquele dia, do encontro com a ex de Juca, que José e ela resolveram se juntar e também nesse mesmo dia José partira antes do apropriado pelo acontecimento, quer dizer, esperava-se que passaria a noite com ela porém o relógio acertando 00:00 fez José ir embora andando calmo apesar de parecer em fuga ao mesmo tempo, como uma Cinderela ou um agente secreto, alegava enquanto se vestia que precisava fazer umas contas para o trabalho ainda na madrugada tendo que entregar no mesmo dia. José antes risonho agora mantinha a seriedade vendo o encaminhar da situação, demonstrava frieza e tentou responder:

· Veja bem! Não esqueço números! E chamei ela de Flor só por fadiga, diminuir o nome! Se lembro do nome dela é porque tem o mesmo nome da minha madrinha que mora agora no interior! Você não se lembra dela Ma?! Disse para irmos viajar para lá, no feriado da semana retrasada, para você conhecer? - José torcia a cara.

· Lembro sim José! Mas o nome dessa madrinha que cuidou de você era Rosalinda não é?! O que diabos Florbela tem que lembra Rosalinda homem! E como sabe quantas pintas ela tem?! Não é possível que se lembre tanto de números assim para ver pintas por raio x!

Juca olhava atento não parecendo querer participar dessa discussão, ele sempre fora calmo e de conversa mansa, por isso não sabia como indagar José e nem sabia se queria. Gostara de Florbela, mas será que o amigo estava com Florbela na mesma época que ele? Ela terminou com ele por causa dele? Florbela foi a primeira namorada que terminou com ele e não o contrário. Ou ele esteve com ela depois? Se fosse depois, mesmo se afeiçoando por todos os seus relacionamentos, o que ele teria a ver com essa história? José teria tido coragem de trair Maria? Trairá não só namorada mas como amiga deles de tanto tempo? Juca, na sua atenção, tinha os olhos cabisbaixos.

· Amor, Rosa é uma flor bela e flores são lindas! Nenhuma flor, aliás, descreve você - tentava amaciar a situação - Não vamos estragar o clima com besteiras… Lembrei de flor e lembrei de rosa ué! Como aquelas associações de desenhos dos psicólogos, não vamos discutir essas bobeiras… Vi as pintas delas de relance, aposto que nenhum de vocês lembram que ela estava com uma regata naquele dia! Lembro também que você, amor, estava de regata, eram duas regatas! Ela estava ainda com uma regata curta, a cor não lembro, tá vendo só, não lembro disso! e da sua lembro! - exclamou José como se triunfasse- a cor da sua era a vinho que eu gosto - disse sorridente - Já que ela estava com a regata curta vi a pinta no ombro e a na cintura, quase escondida na calça, na lateral, já a da lombar descobri porque uma hora que ficamos sozinho, que Juca ia no banheiro, lembra Juca!? Brinquei com ela de que sabia tanto de números que podia adivinhar o que ela quisesse e então ela perguntou o número de pintas dela, errei e então ela me corrigiu... - Agora José já falava sem parar tentando se explicar apesar de ainda parecer calmo - Viu gente como o que falo é verdade?! Parem de olhar para mesa assim! Parece até que querem dizer que fiz alguma coisa! Ah, meu amigo Juca sabe que isso é loucura! Vocês ein! São fogo viu!

Maria olhava meio consternada com aquela desculpa, mas seu coração havia amolecido com aquele comparação das flores com ela, sabia que aquilo fora muito estúpido, mas gostava muito de José e era seu amiga também fazia tempo, não queria brigar.... Mais calma viu que não só os amigos que compartilhavam a mesa estavam de cabeça baixa como tinham atraído alguns olhares de outras mesas.

· Tudo bem José, conversamos disso outra hora. Você sempre teve uma memória boa mesmo, deve estar certo. Desculpa essas perguntas de repente. Admito que desconfiei mas acho que por ciúmes… - José olhava para ela carinhosamente e tentava segura sua mão.

Maria disse acreditando até certo ponto em suas palavras, mas conseguia engolir no seco tudo. Nesse dia engoliu tudo junto com um só gole da sua cerveja: lágrimas, raiva, vergonha, orgulho e a cara de pau de José com aquela desculpa. Deu-se por vencida, não sabia se tocaria no assunto tão cedo ou mesmo de novo. Juca já não mais atento e com um olhar triste, cansado, sentenciou:

· Esse José! Só ele mesmo, não desconfiei de nada meu camarada! Você está com a Maria desde sempre no fundo e Florbela foi uma flor passageira na minha vida! Não é como se tivesse em amores por ela ainda e, além disso, nossa cerveja amiga acima de tudo! - Disse Juca com o coração dando pontadas e levantando um brinde com todos pensando em melhorar o astral. Pelo menos acabou o show de José com seus números por um tempo, ocorreu rapidamente na cabeça sem querer.

A noite durou mais um tempo e todos voltaram ao humor e a conversa que se tem normalmente em bares. O único outro acontecimento para citar foi pela primeira vez José ter errado a senha do cartão na hora de pagar a conta, colocou a data de aniversário de Florbela em vez da data da data de sua madrinha Rosalinda, justificou o erro com voz baixa para ninguém escutar, os que ouviram ignoraram, pela paz e anunciaram que José esquecia senha como todos normalmente.

Juca, talvez, amava mesmo Florbela. Maria, talvez, amava mesmo José. José amara mesmo Juca, Maria e, talvez, as flores.