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O General

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Ele se alojou no Hotel durante o pôr do sol e até o nascimento do sol no dia seguinte ele tomou conta do hotel. Era uma cidade pequena e o hotel era mais uma taberna que alugava quartos. Ninguém sabia bem o que o General fora fazer ali naquelas terras em que o nada era notícia. Ele estava já aposentado e sua aparência indicava muitas primaveras vividas, desde que chegara trajava sempre a mesma roupa, bem semelhante com um uniforme, suas medalhas no peito, sua patente orgulhosa e seu cap. Trazia consigo apenas uma mala de mão, verde, com alças grossas, não parecia caber muitas trocas de roupas e todos pensaram que ficaria só de passagem pela noite. Chegara sem transporte algum e ninguém havia deixado ele, dona Cidinha, que sempre estava em sua janela, alegava que vira ele entrando na cidade caminhando, apareceu assim de repente em meio de um silêncio de tudo contido. Acordava metodicamente todos os dias e passava tarefa para todos uma tarefa. Desde o preparo do café da manhã até sobre como varrer o estabelecimento ou como melhorar a economia nacional. Sempre que conversava era sobre instruções, falava sempre tentando mostrar-se amigável e solícito, porém, seja por receio ou respeito, todos escutavam como ordens e cumpriam severamente as palavras do general. “Foi o General que determinou! Ele entende o que é melhor.” “Preciso disso para agora. Que lugar é esse que o General precisa esperar!”. O General não precisava falar muito para ser convincente, seus olhos grandes e firmes emanavam aquela segurança que só algumas pessoas firmes dão. Tinha uma barba bem feita, indicava que fosse feita todas as manhãs e de ordem. Seu nariz era grande e pontudo aonde lhe dava um ar de importância e superioridade. Seu queixo pontudo era harmônico com o rosto comprido e traços ríspidos que só cabiam em um General. A taverna, em um aspecto geral, era a mesmo de toda pequena cidade, entretanto, era localizada em uma casa com um espaço grande, e tinha uma porte grande, antiga, que separando ela bem do universo da rua aonde tornava tudo, de certa forma, mais reservado. Essa sensação de reserva permitia não só os homens aparecerem na taverna mais tranquilos, como mulheres, umas poucas ficavam lá e aprenderam a adotar o mesmo comportamento meio marrento que os homens assumem nesses lugares. O General pusera um jeito em tudo. Mulheres não deveriam estar naquele bar, mas sim, cuidando de suas famílias e os homens de verdade deveriam estar lá somente em seu descanso, pois deveriam trabalhar pelas suas famílias. Ninguém, seja homem ou mulheres de respeito, deveria estar ali se embebedando e desperdiçando seu tempo. No começo o dono do espaço pensava em responder esses dizeres do General, pois eram seus clientes, mas quando o General se dirigia para ele, apenar respondia: “Sim, senhor, meu bom General! O Senhor sabe das coisas!”. O bar quase não era mais frequentado, estava sempre limpo e muitas das bebidas dali foram jogadas fora sendo substituídas por quadros com as variadas bandeiras tanto dos Estados como de cidades ou do Brasil de vários tamanhos. Três grandes bandeiras ocupavam uma parede inteira do lugar: do exército, da cidade e do Brasil. As bebidas de destaque do lugar o General escolhera: gostava de tomar um café com leite e, para esquentar, uma branquinha. Essas bebidas sim eram os líquidos nacionais! A cana o General não se pronunciava, pois estava em dúvida se ela era para consumo da máquina metal ou máquina homem. O bar, coloquemos o nome mais conhecido, agora era um local de encontro de intelectuais e figuras respeitosas da pequena cidade. Lá iam os donos de terra da região, o prefeito, o padre, o chefe de policial, etc, todos ficavam ao redor do General. “Esse era o homem que com fibra deu um jeito na cidade”. Sempre que podiam eles iam lá e cercavam o General com glórias e questionando o General dos mais diversos assuntos, esperando mais comentários, que no fundo viriam a ser instruções. O diretor da escola

sempre que aparecia lia poemas eloquentes ao General, feito por ele e pelas crianças, sobre o heroísmo do General heroísmo que alavanca a cidade. Logo, o prefeito propôs que a cidade mudasse seu nome para o nome do General, pois o nome do santo que a cidade continha não convinha mais. O General fizera muito mais no bar pela cidade que o santo. No começo o pároco se sentiu ofendido, porém, com a benevolência que só o General poderia ter, ele ficou mais tranquilo porque a prefeitura certamente daria sinos novos para igreja, uma reforma e um busto de mármore do santo na praça central da cidade em frente da igreja, junto com a do General, é claro. Os sinos poderiam ser usados ainda na inauguração dos bustos comemorando também a chegada do General na pequena cidade. Tudo ocorria muito bem, todos estavam empolgados na cidade para a inauguração dos bustos. A cidade ficou até mais movimentada pela vinda de pessoas das outras cidades pequenas próximas para a festividade. Então sem ninguém esperar pela tragédia, da mesma forma que apareceu, diferente apenas por ser a noite, uma semana antes da inauguração dos bustos, o General havia sumido da cidade e ninguém conseguia encontrá-lo. A prefeitura começou a se comunicar com todos os órgãos possíveis e até com o governador, mas nada foi possível. O General havia sumido. Todos na cidade ficaram assustados, ao ponto de alguns até começaram a colocar cartazes em busca do General. A história do sumiço do General ganhou as ruas. A presidência precisava saber desse grande alarde, todos precisavam parar e procurar o General. A festividade, entretanto, não podia parar. Afinal, várias figuras importantes como outros prefeitos, padres e até, quem sabe, o governador poderiam aparecer, então, o prefeito resolveu realizar aquela comemoração mesmo sem General. O prefeito resolveu fazer uma festividade temática que seria pra celebrar os dois padroeiros da cidade: o santo e o General. Na data da festividade: os bustos de mármore não ficaram prontos, então, eles foram substituídos por um coral das pequenas crianças da cidade cantando o hino nacional e o hino da bandeira; Os sinos da igreja chegaram, mas a reforma da igreja não chegou a ser terminada, então, não puderam ser tocados ou instalados; e, coroando tudo isso, não vieram muitas pessoas na comemoração, do governador somente uma nota com congratulações. As pessoas começaram a dizer que só a partida do General foi o suficiente para a cidade mudar, não era mais a mesma coisa sem o General, as coisas pararam de dar certo. Após a festividade, o bar parou de ser frequentado pelas grandes figuras da região e sem os clientes de costume, fechou. Com o tempo a cidade passou o estremecimento que causou o general e as pessoas só ressoavam como fora boa a época com o General e suas mudanças. A taverna reabriu e as pessoas de antes voltaram a frequentar ela, os mesmos vagabundos, antes ditos. A única coisa remanescente no bar, da época do General, foi o pingado e a branquinha, essa última que ainda era ofertada ao santo em toda primeira dose.