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Todo o mal do mundo

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Ele brincava comigo. Sou direta, prefiro deixar algo falado e bem dito a algo pela metade. Detesto joguinhos. Acontece que por mais que falasse de forma reta não signifique que não seja curiosa, assim, quando me apresentam um caminho torto, por mais que tente fazer um caminho reto, eu me envergo por ele, faço seu jogo. Normalmente perco a paciência rápida e paro com as enrolações que as outras pessoas fazem, completo as frases delas e ponho os pontos na frente delas, caso não for o que ela queira dizer faço a pessoa dizer ali mesmo, mas com ele era diferente… Quando brincava comigo eu ria e sentia uma sensação de inquietação boa, era como se ele soubesse como me provocar e os limites da minha irritação. Quando chegava a uma resposta dele, na verdade, era só um beco sem caminho que ele fizera para me envolver e, mesmo assim, voltava atrás de algum momento para tentar continuar, seguir até o lugar que ele me guiasse, aonde ele fosse.

Era de manhã quando ele veio até mim e começou a brincar com meu cabelo, como sempre fazia para me dar seu “bom dia”. Falava sempre com uma voz mansa e, apesar de não estar próximo, sempre que falava comigo nessa hora parecia estar falando perto demais do meu ouvido, talvez, por estar com sua mão enrolada na ponta do meu cabelo. Nesse dia além da costumeira conversa à toa que me fazia entrar toda manhã, toda conversa à toa dele aparentava ter um flerte por trás, ele começou a me convidar para tomar um drink, já fizera isso outras vezes, mas sempre brincava e terminava falando que eu era muito santa e não teria coragem. Nesse dia, porém, tinha algo queimando no seu olhar que me deixava agitada, isso me fez dizer, desafiando-o, um horário e um local, conhecia-o bem e por isso antevi uma hora e um lugar em que não traria problemas ou desfavores para ele chegar à sua casa. Onde estava com a cabeça! Um homem casado, um homem que faz o estereótipo de sedutor e charmoso! Parei nas garras de um cara saído de uma propaganda de perfumes, como fui me meter nessa, não tinha mais quinze anos. No mesmo momento que terminei ele sorriu entendendo meu interesse e percebeu que previ e cuidei de todas as implicações de escolher o melhor momento para ele, completou:

- Sou apaixonado por quem sabe o que faz... Você só pisa em mim quando fala assim... Desse jeito vou acabar perdido em você. - Sorria de forma esperta e com os olhos brilhando, quando falava parecia me cobrir inteira com seus olhos. Corei de vermelho, ele era casado e dissimulava comigo. Ele vendo-me corar me deu um beijo na cabeça rápido dizendo que íamos somente descontrair e conversar, deixou-me no lugar que estava sentada e meio sem reação confirmando o local e o horário. Suas costas pareciam maiores enquanto saia.

Estávamos em um bar bem bonito, embora escondido, perto de uma avenida que levava direto para a casa dele, eu que estava dirigindo. Convenci-me durante o dia que não aconteceria nada, cresci na empresa sozinha e sempre fui exemplo tanto de independência quanto firmeza para todos, apesar de não estar entre os maiores nos negócios ou na empresa, meu nome era conhecido por muitos e tanto meu caráter quanto minha moral era decerto notada pelos outros. Nos altos cargos isso é bem raro, quer dizer, quanto mais e melhor se esconde seus desvios maior a equivalência com sua competência ou, podemos dizer, é melhor sua disciplina e organização, melhor estrategista, ou seu foco. Você fica conhecido como implacável e ambas essas duas respostas são boas em empresas. Minha imagem foi sempre meu objetivo e nele eu sou excelente, não iria arriscar ferir minha imagem por uma aventura com um sujeito.

Tomei pouco vinho para falar que estava abalada - aguento muito mais que uma garrafa, acompanhei velhos bebendo seus whiskies e cervejas em vários momentos somente para
não perder uma oportunidade de negócios - bebi pouco e, apesar disso, por algum motivo guiei o carro até um motel que ficava na avenida indo para casa dele... Entrei ansiosa e pretensiosa, se iria fazer isso tinha que ser da forma certa de fazer o errado, mas não fiz o certo no errado. Fiz como uma jovem rebelde procurando aventura… Estava agitada, sorridente e sentindo que o mundo fizesse sentido.

Como descrevi anteriormente, no meu mundo, traição precisa ser da forma mais planejada possível, porém certas coisas não são possíveis controlar e no estado que eu estava isso foi uma delas. Já tinha me sentido assim antes, animada e energética, quando trabalhei com prazos que encerravam no mesmo dia que começaram ou quando tive que lidar com equipes, funcionários, incompetentes, inimigos... Aliás ao meu ver, inimigos são melhores do que pessoas incompetentes, aqueles você pode antever ou saber armar uma ou outra defesa, existe formas de se precaver; Incompetentes podem ser os que vão preparar suas defesas e deles não se sabe o que pode esperar, a não ser que você revise tudo o que os mandar fazer, enfim. Iria leva-lo para casa dele e me desviei indo para o motel, foi o momento em que me se agitada e energética de novo, mas como uma garota de dezoito anos. Ele tinha um sorriso lindo enquanto me via daquele jeito, parecia se deleitar e eu queria ser vista por ele. Descobri que estar com ele equivalia beber dez garrafas de vinho. Enquanto esperávamos o manobrista trazer o carro ele já tinha me bombardeado de palavras bonitas até então e montou todo seu jogo para cima de mim, eu caia. Foi quando disse com olhos nos meus segurando meu pulso de forma delicada como quisesse segurar minha mão:

- “Não soube o que esperar de você e quanto mais andávamos juntos, mais preciso te dizer... Não é certo, eu sei, mas se você se sentir o mínimo de como eu me sinto perto de você… Sabe o quanto te quero... inteira.” Caso não fosse dito por ele da forma que disse, ou uma amiga que me contasse isso, eu teria rido e diria que esse cara era ridículo, porém, na situação que foi, eu entrei nessa conversa. Sabia o quanto queria ele, seu beijo e, naqueles termos, ele inteiro. No carro continuou com aqueles dizeres prontos e repetiu várias vezes - “Você sabe que agora minha casa é com você. Sabe onde quero ir, mas vou só aonde você me levar. Você me dirigindo, sou teu” - Enquanto dizia coisas assim, as vezes olhava me de um jeito que me arrepiava. Não queria parar de dirigir queria ele pra mim. Era uma cena, no fundo, ridícula.

No começo foi tudo incrível como alimentei na minha imaginação, tanto comia ele quanto ele me comia. O olhar dele era quente e eu abraçava aquele calor, queria queimar. Depois, quando nos arrumamos para ir embora, foi que comecei a ver algumas consequências do que fiz. Ele estava todo carinhoso comigo, deu abraços pelas minhas costas e beijava minha nuca, falava que ele era meu e escolhia as palavras parecendo tentar regular minha “temperatura”, tentava me deixar morna para deleite dele. Iniciei um caso. Pelo caminho até a casa dele a situação que descrevi ia se repetindo até a chegada da casa. Aconteceu algo que acredito nem ele esperar naquele dia. Sua filha mais nova estava com a mãe esperando ele aparecer. Desceram na porta da casa quando ouviram o barulho do carro. Não gosto de crianças, mas sua filha tinha o sorriso mais bonito que já vi, sua mãe, ao contrário da filha, tinha o rosto sério e seus olhos eram cansados e indiferentes, estava com a camisa do trabalho tendo as mangas sujas de poeira e manchadas apesar do resto estar branco, era notável a jornada dupla.

Na mesma hora que viu sua filha sorrir, voltou-se para mim sorrindo docemente e, como mágica, não tinha nenhum vestígio daquele pequeno segundo em que sua cara se espantou quando as viu, tinha agora uma serenidade no rosto que não havia visto até o momento, soube que nunca teria ele, tanto sua esposa como ele eram de sua pequena filha, aquela doce menina. Somente teria aquele homem do escritório e isso para mim não bastava. Naquele momento seria minha vez de escolher começar a brincar com ele ou não vê-lo mais.

Aquele rosto sereno dele não me excitou, aquele olhar da esposa me angustiou e aquele sorriso daquela menina… Pensei hoje que em um filme eu seria todo o mal do mundo, aquela mãe cansada de tudo, a trouxa, aquele homem um personagem aventureiro, e a menina… Eu não sei quando me tornei má, tenho uma vida ativa, sou firme no trabalho, mas sou boa com os colegas de trabalho, fiz uma ou outra coisa condenável para subir nos negócios - porém você descobre que raros são os que conseguem se manter cem por cento limpos quando entram em qualquer que seja a profissão, santos, talvez - faço caridade, gosto de animais, doo sangue e mais mil coisas.... A cara de todo o mal do mundo é bela, não é?

Se tivesse visto só a mãe, talvez, vestisse de vez a carapuça de má e sentisse-me vencedora, mas… Aquela menina não me fez sentir que perdi, não, mas que encontrava algo precioso, um sentimento de plenitude e tranquilidade, como se visse a morada da esperança, diferente da esperança tola, jovem, que senti, uma esperança inocente e irreal nela, tão imaginária que fosse crível, como se tudo no que aquela doce menina acreditasse tornar-se-ia honesto e verdadeiro.

Não sei o motivo da figura de uma menina me abalar. Deixei ele lá, naquela vida medíocre e creio que parte de mim se perdeu enquanto voltava para casa.