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Drone gremista levanta de novo questão ética da tecnologia

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Espionar treino de futebol é a ponta do iceberg. Máquinas voadoras são usadas no jornalismo paparazzi, para bisbilhotar pessoas em casa e até como armas de guerra

Drone gremista levanta de novo questão ética da tecnologia

(Foto: Wikimedia Commons)

É mais velho que chutar uma bola: quase todo time de futebol tem ou já teve espiões, que entram sorrateiros no treino rival e anotam as táticas e jogadas ensaiadas. Mas o Grêmio levou a tradição a outro patamar: usou drones para filmar os treinos de vários adversários de Libertadores, Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil durante todo o ano.

A história, contada pela ESPN, explodiu justamente na semana da decisão do torneio continental, quando a equipe do técnico Renato Gaúcho enfrentará o Lanús, nesta quarta. O “olheiro” foi para a Argentina e capturou imagens de um treino fechado para a imprensa. Aí começou o apontar de dedos: seria antiético usar método de espionagem tão avançado? Renato tripudia: “O mundo é dos espertos”.

Não é a primeira vez que um drone no ar causa tamanha gritaria no futebol. A reportagem investigativa já estava em confecção havia cinco meses, antes do flagrante, mas semana passada outro caso veio a público. A seleção de Honduras acusou a Austrália de usar a tática e bisbilhotar seu treino antes da partida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. A prova está no Twitter da federação do país.

Em outros campos, que não o de futebol, a conversa sobre a ética no uso de drones já existe há anos. Em dezembro último, por exemplo, um homem de Utah, no Estados Unidos, estava no banheiro de sua casa, na cidade de Orem, e percebeu um drone voando próximo à janela. Ele seguiu o objeto e o encontrou num estacionamento. Então tirou o cartão SD, colocou em seu computador e percebeu haver filmagens de várias pessoas nuas em suas casas. O tarado era um homem de 40 anos, Aaron Foote, sentenciado a 180 dias de prisão e 20 de serviço comunitário pela contravenção de voyeurismo.

A preocupação com a privacidade vai ainda mais longe, quando o assunto é o uso de drones. Na alta sociedade americana, já virou comum a batalha para impedir o trabalho dos dronearazzi - isso mesmo, os drones de paparazzi - nos casamentos mais chiques. Desde 2015, a especialista nesse tipo de evento JoAnn Gregoli contrata uma empresa para colocar lá no alto drones de interferência, que emitem frequências direcionadas às máquinas voadoras dos fotógrafos, derrubando ou pelo menos inutilizando os espiões.

Mas o assunto fica realmente sério quando falamos sobre o uso sistemático da tecnologia pelo governo americano em guerras. Barack Obama atacou Paquistão, Somália e Iêmen 563 vezes durante seu mandato, sendo que a maioria foi por meio de drones. Isso significa quase dez vezes mais ataques que os desferidos por seu predecessor, George Bush. Obama dizia que os drones eram mais precisos do que soldados, logo poupariam vidas inocentes. Mas o Bureau of Investigative Journalism estima que podem ter ocorrido até 800 mortes de civis no período de oito anos devido a esse método de caça.

Drone gremista levanta de novo questão ética da tecnologia

("Drones = crimes de guerra por controle remoto", diz a placa levantada por manifestante em Chicago, no ano de 2012 / Foto: Debra Sweet, Creative Commons)

Em seu livro “Teoria do Drone”, o pensador francês Grégoire Chamayou apresenta argumentos contra o uso de drones e outras ferramentas modernas que possam trazer danos à vida humana. Ele se contrapõe à ideia comum de que qualquer tecnologia pode ser boa ou ruim, dependendo de seu uso. É categórico ao dizer que a própria existência de um drone letal é um “atentado moral”.

Drones, inteligência artificial, carros autônomos. Estamos mesmo vivendo numa época em que tecnologias disruptivas trazem tanto excitação quanto sérios questionamentos éticos, do futebol aos conflitos entre nações.