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A 'dependência emocional' de mulheres abusadas não é culpa delas

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A 'dependência emocional' de mulheres abusadas não é culpa delas

O caso do do juiz Roberto Caldas, que foi afastado do cargo na Corte Interamericana de Direitos Humanos depois de ser acusado de abusar e estuprar sua mulher por anos, reacendeu a discussão sobre violência doméstica e estupro marital. Michella Marys Pereira, ex-mulher do juiz, revelou que ele a estuprava enquanto ela dormia, além de espancá-la e assediar funcionárias que passaram pela casa da família. Um áudio de uma discussão, em que Caldas agride a ex-mulher, foi divulgado pela mídia, mas o juiz nega tudo. Depois do caso, o jornal O Globo publicou uma matéria, afirmando que a dependência emocional e a autoestima baixa das mulheres prejudica as denúncias de estupro. Sem explicar que essa situação de vulnerabilidade emocional é diretamente causada pelo abuso, a afirmação dá a entender que a culpa é das mulheres.

Matéria do Globo sugere culpa das mulheres
Matéria do Globo sugere culpa das mulheres

Michella passou 13 anos casada com Caldas, e afirmou que suportou todas as agressões por medo de perder a guarda dos filhos. "O longo tempo de permanência em uma relação tóxica chamou a atenção de muita gente, mas, segundo especialistas, a dificuldade em romper a estrutura é mais frequente do que se imagina. Além do medo, outros fatores psicológicos podem estar em jogo, como dependência, baixa autoestima e sensação de desamparo", explica a matéria, colocando as causas da permanência em estado de abuso na vítima. É a dependência dela, não as restrições impostas por ele. É a baixa autoestima dela, não o abuso psicológico dele. É a sensação de desamparo dela, não a falta de suporte da sociedade para vítimas de violência doméstica.

"É uma fantasia absoluta de submissão, como se fosse uma criança que não tem autonomia sobre nada", diz a psicanalista Sônia Bromberger, entrevistada pela publicação. O que precisa ser dito é que o que rouba a autonomia de uma mulher e a leva a ficar presa em uma situação assim é um processo muitas vezes lento e difícil de reconhecer a princípio. Os homens abusivos não começam relacionamentos espancando mulheres. As primeiras agressões são psicológicas, disfarçadas de cuidado excessivo e ciúmes, e os abusadores sempre encontram maneiras de "balancear" os atos de agressão - seja física ou psicológica - com momentos de intimidade e demonstrações de afeto. Isso cria um círculo vicioso que dá esperança às vítimas, mas tende a escalar com o passar dos anos.

Além disso, é muito difícil que um homem seja preso por violência doméstica e permaneça afastado das vítimas, e mesmo que isso aconteça, o estigma social de ter denunciado o pai dos próprios filhos é um fardo difícil de carregar. No fim da matéria, a psicanalista fala um pouco sobre essa pressão social: "Quando ela fica na relação, ela é culpada. Quando sai, também é culpada porque está abandonando a família", mas a matéria não tem o senso crítico de entender que está justamente reproduzindo esse julgamento. Isso á culpa da nossa cultura machista, que espera que as mulheres sejam sempre submissas, mas quando elas não encontram meios ou forças para reagir à violência, são responsabilizadas por ela.