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Chega de romantizar o 'homem crianção'

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Chega de romantizar o 'homem crianção'

Em junho desse ano estreia a comédia "Te Peguei", que conta a história de 5 homens, com mais de 40 anos de idade, que estão brincando de pega-pega há 30 anos. O trailer do filme, que tem Ed Helms, Jake Johnson, Hannibal Buress, Jon Hamm e Jeremy Renner, mostra um personagem perseguindo o outro nas situações mais inconvenientes para passar o "tá com você" adiante: um casamento no qual o padre é derrubado, o parto da esposa de um deles e o funeral do pai de outro. É claro que é uma comédia, intencionalmente absurda, mas ela se apoia em um clichê problemático, que vem se popularizando muito na última década, o do "homem crianção", reflexo de uma sociedade que educa meninos e meninas de maneira diferente.

O termo "manchild" - traduzido aqui como "homem crianção" - não é novo. É creditado ao escritor William Faulkner, que o usou para descrever seu personagem Benjy, do livro "O Som e a Fúria". Benjy é um homem de 33 anos que tem uma deficiência mental e age como uma criança. Depois disso, o termo passou a ser usado dentro da cultura pop para qualquer homem adulto que aja de maneira imatura, emocional ou socialmente, independentemente do contexto.

A principal característica desse clichê é a recusa do amadurecimento. É o homem adulto que se veste, tem hábitos e se comporta como um adolescente. Sua imaturidade, no entanto, é vendida como algo engraçado, cativante e até doce. Se esse personagem já tem uma parceira no começo da trama, ela muitas vezes é apresentada como "vilã" por cobrar amadurecimento dele. E ou ele termina a trama com outra mulher, ou consegue que a namorada o "aceite como ele é". Raramente esses personagens são obrigados a amadurecer de verdade. É possível que eles sejam punidos por algum ato pontual, mas seus arcos narrativos são geralmente de outra ordem.

Em janeiro de 2018, um estudo constatou que a adolescência hoje vai dos 10 aos 24 anos, e engloba mais que o dobro do tempo que era determinado anteriormente, quando ia dos 13 aos 19. A mudança, já considerada oficial pela ONU, não significa apenas que os comportamentos negativos associados à imaturidade têm uma janela maior de aceitação. Significa também que os jovens, por motivos sociais e econômicos, estão estudando por mais tempo, e se casando, começando suas carreiras e tendo filhos mais tarde. Mas a imaturidade, principalmente emocional, também está englobada aqui, e culturalmente ela é muito mais associada a homens. Isso se reflete no aumento da popularidade de filmes com esses clichês, que apesar de retratarem homens mais velhos, na casa dos 30 ou 40, têm homens jovens como público alvo. Nessa categoria estão praticamente todos os "stoner movies", franquias como "Se Beber Não Case", filmes e séries dos Irmãos Wayans, e a boa parte das comédias estreladas por homens na última década.

Mas apesar de parecer um comportamento inocente, a imaturidade desses personagens masculinos evidencia uma profunda assimetria de gênero. Nos filmes em que aparece, o homem crianção existe às custas de mulheres na sua vida, que fizeram e fazem por ele todas as coisas que ele escolhe não fazer. As responsabilidades recaem sobre elas, com a justificativa de que eles são irresponsáveis ou não são confiáveis. Isso reflete a maneira como a nossa sociedade educa as crianças. Meninas, desde muito novas, são ensinadas a limpar, cozinhar, organizar, cuidar de si e cuidar dos irmãos mais novos. Meninos podem ser bagunceiros, sujos e irresponsáveis, porque "é assim que eles são". As famílias cobram das meninas e são permissivas com os meninos.

E o que talvez seja o mais grave dessa história toda é o fato de que muitas mulheres acabam se tornando responsáveis por cuidar dos homens crianções à sua volta na vida adulta. Isso engloba desde tarefas domésticas básicas, como a limpeza da casa, compras no supermercado e consultas médicas, até responsabilidades emocionais com a família, e cria relacionamentos tóxicos, nos quais a mulher precisa cuidar de um parceiro adulto como se fosse um filho. E quando isso envolve, de fato, filhos, o relacionamento fica ainda mais desequilibrado.

Mas apenas os homens são infantilizados no cinema?

Existe também uma versão feminina do clichê da imaturidade, mas na maioria das vezes ela é bem diferente. Na cultura ocidental a mais comum é a "ingenue", personagem ingênua, doce e virginal. Na cultura oriental existe também a "genki girl", a garota super entusiasmada, com um quê de inocência, que não consegue controlar os impulsos. Os dois exemplos são hipersexualizados dentro do imaginário masculino heteronormativo, que fetichiza a inocência e a virgindade das meninas.

A versão masculina do clichê, no entanto, nada tem a ver com inocência ou pureza. Pelo contrário, o homem-crianção é, via de regra, sexualmente ativo e muitas vezes seu objetivo dentro da narrativa é justamente fazer fazer sexo com uma mulher, o que ele geralmente alcança. E ter a mulher como prêmio em uma narrativa, além de envolver outros problemas sérios de objetificação, romantiza o comportamento imaturo do protagonista.

A infantilização masculina é reflexo de uma sociedade que obriga as mulheres a amadurecerem cedo e permite que os homens amadureçam quando eles quiserem - o que pode ser nunca. A popularização do homem-crianção no cinema legitima esses comportamentos na vida real, e torna mais difícil que as pessoas tenham um olhar crítico sobre elas mesmas. Esse tipo de imaturidade não é engraçada, não é aceitável e não é justa.