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Conar suspende comercial da Nextel e mostra que tem as prioridades erradas

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Conar suspende comercial da Nextel e mostra que tem as prioridades erradas
Imagem: Reprodução / Youtube

A nova campanha da Nextel tem dado o que falar. A empresa contratou João Cortês, que era conhecido como o "ruivo da da Vivo", e fez um comercial tirando sarro das outras companhias telefônicas. O ator tira sarro de um dançarino, em referência aos mais recentes comerciais da TIM, e dispensa de uma oferta de uma funcionária da que parece ser da Claro, além de afirmar que mudou de operadora porque a Nextel é a melhor. Alguns dias depois da estreia, porém, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) suspendeu o comercial, que foi tirado da TV e das redes sociais da marca.

No Brasil a propaganda comparativa é lícita (desde que obedeça a alguns critérios éticos), mas culturalmente nossas marcas tratam o assunto com muito receio. Raramente vemos referências diretas entre as marcas, e por isso a Nextel vinha chamando a atenção com sua estratégia, que no entanto não parece infringir nenhuma lei. Segundo o próprio Conar, a suspensão foi pela alegação de que a marca seria “a melhor operadora de celular do Brasil”. A Nextel, porém, justificou a frase com dados da pesquisa Melhores Serviços, realizada pelo Estadão, em parceria com o Blend New Research, que pelo terceiro ano consecutivo apontou a Nextel como líder do ranking de telefonia móvel do país.

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Uma suspensão preliminar é rara. Segundo o estatuto do Conar, uma campanha só é suspensa antes do julgamento do Conselho de Ética quando algum membro da entidade avalia que o comercial pode trazer prejuízos e danos ao público ou às marcas envolvidas, o que não parece ser o caso. Sobre a afirmação de ser a melhor marca, a justificativa da Nextel parece perfeitamente plausível, o que nos faz acreditar que motivo real da ação do Conar parece estar nos bastidores. Os executivos das concorrentes não devem estar felizes com as referências, e como o Conselho é um órgão civil de autorregulamentação, não é absurdo pensar que houve influência.

Mas conspirações à parte, é interessante notar a preocupação do Conar em "proteger" as empresas de telefonia, quando denúncias sobre sexismo são largamente ignoradas. Segundo apuração do UOL, dos 309 processos julgados pelo Conar em 2016, 15 foram motivados por machismo, e apenas 7 receberam qualquer punição. E mesmo baixo, o número foi um recorde para o órgão. Das 18 denúncias de machismo recebidas em 2014, 17 foram arquivadas, e apenas uma terminou com um pedido de suspensão e advertência.

Com o crescimento dos movimentos feministas e o ativismo online ganhando força, a pressão contra a publicidade machista, uma longa tradição no Brasil, é a grande responsável pelo aumento dos casos julgados. Ainda assim o Conar parece estar sempre em negação. “Não existem muitos casos de propagandas machistas no Brasil, porque a publicidade brasileira é madura para perceber que a pior coisa que pode fazer é irritar o consumidor, seja ele mulher, homem ou criança”, disse a assessoria de imprensa do órgão à Carta Capital, em 2015, quando surgiram diversas denúncias de sexismo dentro das agências de publicidade.

As justificativas das decisões de arquivamento geralmente são de que as propagandas não são machistas, mas sim "humorísticas". Mas as denúncias não param de aparecer, e diante da pressão, no ano passado o Conar lançou a campanha "Acredite no Conar", na qual afirmava ser impossível "agradar a todos". Os comercias, de extremo mal gosto e pura falta de noção, comparava as denúncias de sexismo a "gosto pessoal". É claro que o negócio pegou muito mal, e o órgão se viu obrigado a avaliar a própria campanha.

E adivinhem, o caso foi absolvido e arquivado.