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Documentário mostra comportamento controverso de Jim Carrey em 1999

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 Documentário mostra comportamento controverso de Jim Carrey em 1999

Imagem: Netflix / Divulgação

Muito antes da discussão sobre os "limites do humor", que vem sendo pauta no Brasil nos últimos anos, o humorista americano Andy Kaufman olhava para os limites e falava "kkk, limites". No auge da carreira, em meados dos anos 1970, Kaufman ficou famoso com o personagem Homem Estrangeiro, que falava coisas sem noção, com um sotaque pesado e um tom de voz agudo. Sua carreira foi cheia de polêmicas e, em 1999, 16 anos após sua morte, Jim Carrey o interpretou na cinebiografia "O Mundo de Andy". Os bastidores polêmicos do filmes foram revelados pela Netflix no documentário "Jim & Andy", que estreou essa semana.

A vida de Andy foi, no mínimo, controversa. O enorme sucesso do "Homem Estrangeiro" abriu diversas portas para o humorista, que participava com frequência do programa de esquetes 'Saturday Night Live' e ganhou o próprio seriado em 1978, 'Taxi'. Andy, considerado por muitos um artista de vanguarda, gostava de testar os limites da comédia tradicional. Criava e interpretava personagens polêmicos, como o misógino Tony Clifton, e se recusava a sair do personagem, agindo como se fosse uma pessoa diferente. Quando seu seriado foi cancelado, Andy começou a fazer comentários sexistas na TV e a desafiar mulheres para lutarem com ele em um ringue de wrestling. Essas lutas, em meio ao crescimento do movimento feminista americano, fizeram com que ele perdesse popularidade. Andy havia encontrado o limite do humor, e escolheu ultrapassá-lo.

Cada vez com menos espaço, Andy passou a se comportar de maneira cada vez mais estranha. Em um show, ficou horas lendo o romance 'O Grande Gatsby', em tom monocórdico, para uma plateia irritada. Participou do programa de entrevistas de David Letterman, em 1980, e apenas chorou e contou detalhes deprimentes de sua vida fracassada, pedindo ajuda financeira para pessoas do auditório, que gargalhavam. Andy gostava de enganar a imprensa e ninguém sabia dizer o que era verdade ou o que era apenas mais um esquete. Quando anunciou que estava com câncer no pulmão, ninguém levou a sério, mesmo quando apareceu magro, careca e debilitado. A doença o matou em 1984.

Assim que soube que haveria um filme sobre Andy, um dos seus maiores fãs, Jim Carrey fez um teste de elenco e insistiu em interpretá-lo. No documentário, o ator conta que foi "possuído" pelo espírito de Andy, e passou todo o período de gravações imerso no personagem. Ele era grosseiro com as pessoas, provocava colegas, fazia comentários maldosos, era particularmente cruel com alguns membros da equipe e chegou a bater um carro alugado. Tudo em nome da arte.

Carrey queria que todo esse "processo" fosse filmado e lançado em forma de documentário, e por isso contratou a ex-namorada de Andy, a documentarista Lynne Margulies, para acompanhar os bastidores. Mas Carrey aprontou tanto, e deixou tanta gente irritada, que a Universal, estúdio responsável pela cinebiografia, impôs um embargo de 18 anos no documentário, temendo que pudesse sujar a imagem de Jim Carrey a ponto de prejudicar divulgação de "O Mundo de Andy". Em 2017, sem protagonizar um filme relevante desde 2004 - exceto talvez pela continuação de "Debi e Lóide", e enfrentando acusações de ter contribuído para o suicídio de sua namorada em 2016. Jim lança o documentário em outro contexto.

Ao ouvir seu depoimento para o documentário, gravado recentemente para costurar as imagens de 1999, fica evidente que Jim acredita que estava fazendo algo genial, sem precedentes. E apesar de sua atuação ser realmente muito boa, rendendo a ele um Globo de Ouro, o filme hoje se destaca por outros motivos. Com barba grande, falando sobre sua necessidade por atenção, seu relacionamento com o pai, a "inexistência do livre arbítrio" e sobre ter passado meses sob o comando espiritual de Andy, Jim soa deprimido e delirante. Recentemente, o ator falou ao iNews sobre estar se recuperando de uma depressão.

Se o objetivo das gravações de 'Jim & Andy' era impressionar as pessoas pela dedicação impressionante de Jim ao papel, ou pela ousadia de Andy, o efeito foi completamente outro. As imagens são interessantíssimas e valiosas, mas por motivos diferentes. Em temos de denúncias de má conduta nos bastidores de Hollywood, o comportamento grotesco de Jim (apesar de não ter conotações sexuais) soa ofensivo, mimado e egoísta, mas seus comentários atuais sobre a vida são honestos e tristes. O que cria um paralelo interessante com a vida de Andy.

O comportamento dos dois, que alienou amigos e machucou pessoas - física e psicologicamente, foi perdoado em nome da "arte", mas hoje é desconfortável de se ver. Dois homens brancos e famosos, agindo como se as regras do mundo não se aplicassem a eles, enquanto mulheres e homens negros são excluídos da indústria por muito menos, deixam um gosto amargo para quem assiste. Mas mesmo que tenham agido de forma inconsequente, os dois acabaram colhendo frutos de suas atitudes, cada um à sua maneira.